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Ilusão de peso

por Rosane Pavam publicado 01/04/2011 12h00, última modificação 04/04/2011 11h24
Em "Rio", somos o que sempre fomos nos clássicos, malandros, bons, belos, injustamente abandonados.
Ilusão de Peso

Em "Rio", somos o que sempre fomos nos clássicos, malandros, bons, belos, injustamente abandonados.Por Rosane Pavam/ Foto: divulgação.

As boas coisas em primeiro lugar, já que Rio, superprodução animada de lindo visual e ágil roteiro, a estrear dia 8, as tem de sobra. O filme, dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, de A Era do Gelo, existe sob um cenário de especial realismo, noites e dias cariocas tão plenos de cores que os sentimos quentes. É como se, durante o maravilhoso passeio de bonde encenado por Santa Teresa, o vento fosse jogado no rosto do espectador.
O carnaval surge explosivo no pleno asfalto da Sapucaí. A música arredondada de Sergio Mendes e de sua trupe luxuosa, Bebel Gilberto, Carlinhos Brown, Will.I.Am, Taio Cruz, Jamie Foxx, Anne Hathaway e Ivete Sangalo (esta, irreconhecível ao proferir Ri-ô, feito gringa), evoca a beleza colonial. De forma idêntica, o frio na intelectual Minnesota, de onde parte a arara macho Blu, protagonista desta trama, contrabandeada mas capturada para doce convívio com uma jovem nerd americana, pode congelar os nervos dos expatriados, caso do diretor em questão.
O filme de Saldanha cava as emoções recônditas de um brasileiro, sem jamais deixar de rezá-las pela bíblia familiar. É alto-astral, gozador das estripulias locais no churrasco,no trânsito, no morro e no amor entre casais e irmãos. Somos inteiros, somos,no filme, o que sempre fomos nos clássicos, Orfeu Negro ou Aquarela do Brasil, malandros, bons, belos, injustamente abandonados ou ladrões em uma idílica subsociedade. Mas eis que os problemas começam a surgir quando nada mais somos, nem maiores nem menores do que fomos em 50 anos de visíveis mudanças, econômicas e na arte, neste filme dos filmes. Alguém a se importar?
Nem vamos nos alongar nos saguis que se tornam bandidos pequenos nesta obra em 3D, a roubar relógios e alianças de ouro dos turistas, macacos inferiores da capoeira diante de raros e inteligentes pássaros azuis ou de uma cacatua ardilosa, branca e má. Tampouco será preciso mencionar que os animais protagonistas mais se parecem com pelúcias, a contrastar com cenários tão meticulosamente realistas. O pequeno incômodo neste filme é que ele nos veja apenas como seres de artimanhas, abençoados pela sorte. Trata-se de obra apropriadamente caricatural, alegre, sem culpados. Um menino de rua negro se verá brindado com o sonho civilizatório, por exemplo, mas não o experimentará no Brasil. Rio parece ter a utilidade de um verão, a de mostrar que novas vidas podem ser experimentadas em uma colorida periferia de sonho, mas realmente vividas fora dela. Saldanha mora longe, e será preciso fechar os olhos antes de abri-los para esta doce ilusão.