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Honra teu pai

por Orlando Margarido — publicado 22/03/2013 15h21, última modificação 22/03/2013 15h23
Perfil: Com a sabedoria paterna ainda a lhe falar, Wagner Moura segue sua ética na vida pública e na carreira

Nada obriga Wagner Moura a suas decisões. Eleito para a fama à revelia, como acredita, ele procura, no entanto, preencher a figura célebre da melhor maneira. Se enxergam, antes do ator, a pessoa famosa, ele então usa sua visibilidade para comunicar algo relevante. Opina na política, critica a mídia, faz-se ouvir. Na carreira, recusa papéis que não se conjuguem com seus ideais. Tem sido assim desde que esse baiano de 36 anos deixou o teatro para construir no cinema um dos talentos mais sólidos de sua geração, à qual pertencem Lázaro Ramos e João Miguel, para ficar nos conterrâneos. A postura de atacante, mais para Capitão Nascimento de Tropa de Elite do que outro Nascimento, o de VIPs, é anterior à atuação e vem do ensinamento paterno, o qual não se cansa de honrar, como numa parábola bíblica. É também a inspiração do pai que o orienta em um novo filme.

 

 

Nunca antes, e Wagner Moura está perto da marca de 20 longas-metragens, a relação entre pai e filho lhe surgiu tão evidenciada quanto em A Busca, estreia da sexta 15. “É curioso. De forma inconsciente, eu sempre fiz filmes sobre pais e filhos, ao menos desde Abril Despedaçado, relembra em entrevista a CartaCapital. “E levei o tema até mesmo ao teatro com Hamlet, que sempre quis representar.” O filme de Luciano Moura, cineasta sem parentesco com o ator, enreda três gerações de homens fracassados no entendimento quando o adolescente Pedro (Brás Antunes, filho do músico Arnaldo Antunes) determina a virada. Vindo de um lar recém-desmantelado, ele some de casa e obriga o pai (Moura), intolerante e também desorientado pela separação, a sair à sua procura, o que envolverá a figura do avô distante (Lima Duarte).

Presume-se, claro, a viagem transformadora de Theo, o pai, cujo nome sabemos onipotente desde os gregos e que aqui se apresenta impotente. Dessa forma se justificariam algumas doses a mais de dramaticidade, requisitadas para que a trajetória se cumpra com louvor. Mas há uma condição pessoal do ator de que a ficção não dá conta. Enquanto atuava em A Busca, seu pai, José Moura, adoeceu. Ele havia concluído o filme e estrelava outro, O Homem do Futuro, quando a morte do patriarca o levou de volta a Rodelas, pequena cidade do sertão baiano onde nasceu e passou a infância com a família. “Foi dureza vê-lo adoecer. Era uma presença forte, importante, todos os dias penso nele.” Destaca não uma influência elaborada, mas uma postura simples, de conselhos práticos. “Como a de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Funciona.”

A vocação artística não colidiu com a disciplina de militar do senhor Moura. Diferentemente do que se pode esperar em um ofício de rigor, ele define o pai como doce e de atitudes carinhosas. “Meu pai era tátil, adorava beijar, abraçar.” Não se opôs quando o filho, aos 15 anos, anunciou querer fazer teatro amador na escola e logo em seguida deu os primeiros passos profissionais. Por vezes, diz, Moura pensava trair o esforço da família que se mudou para Salvador a fim de possibilitar melhor educação aos filhos, ele e a irmã, hoje médica. O jovem se inscreveu em uma escola técnica, mas desistiu por inaptidão. Para cumprir um curso universitário, mínimo desejo a se respeitar em casa, formou-se em jornalismo. Atuou em um diário soteropolitano e como assessor de imprensa. Mas uma efervescência teatral rara na capital baiana dos anos 1990 definiu seu caminho de vez, quando ali encontrou, entre outros encenadores, José Possi Neto e Luiz Carlos Vasconcelos.

Talvez essa conformação da herança paterna a uma experiência breve nos bastidores da mídia tenha sido a responsável por moldar uma personalidade de conotação singular entre os atores brasileiros. É um dos poucos com contundência para se expor. Daí o fato de decidir fazê-lo sem que necessariamente tenha sido incomodado de maneira direta. Em um dos exemplos do contrário, o ator, em 2008, se viu vítima do programa popular de tevê Pânico, quando, ao sair de uma premiação em São Paulo, foi besuntado na cabeça com uma geleia verde. Não revidou ali, mas redigiu uma carta aberta na qual questionou a idiotia propagada pela televisão. “É a espetacularização da babaquice”, escreveu. “Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos, pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores (...). A mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.”

 

 

De outra feita, o poder de um veículo de comunicação nacional não o intimidou. Numa mídia que constrói e destrói carreiras com facilidade, ele criticou a Veja em entrevista à revista Caros Amigos,em 2011. Tratou-a como reacionária, conservadora e elitista. Sobre a publicação, por ele classificada como “de extrema direita brasileira”, declarou então: “Eu me lembro de uma capa que me indignou profundamente, sobre o desarmamento, que dizia ‘Dez motivos para você votar não’. Eu me lembro claramente da revista elogiando Tropa de Elite pelos motivos mais equivocados do mundo. E, semana sim, semana não, sacaneando colega nosso, Fábio Assunção, Reynaldo Gianecchini, de uma forma escrota, arrogante, violenta”.

Moura alegava, então, não conceder entrevistas a Veja, o que ainda não faz. Tem a publicação no mesmo nível daquelas de celebridades. A linha editorial de direita o incomoda. “Nunca fui atingido de forma direta por ela, mas não compartilho ideológica nem eticamente com a revista”, diz. Sente-se, da mesma forma, livre para opinar sobre as drogas, ele que é favorável à sua liberação. Ou sobre a política, os direitos humanos e tantos assuntos que lhe interessam, do agronegócio às mudanças no Código Florestal.

Esse mesmo arbítrio que concede ao pensamento a seu redor também lhe serve no cinema. “Eu só aceito fazer um personagem se ele me interessar, se representar algo relevante e se estiver de acordo com minha ética. Neguei muitos papéis por não concordar com o ponto de vista do filme.” Bem verdade que desde o início foi aquinhoado com a atenção de diretores prestigiados, como Walter Salles em Abril Despedaçado (2001), Hector Babenco em Carandiru e Cacá Diegues em Deus É Brasileiro, ambos de 2003, neste último seu primeiro papel como protagonista (e, para não negar a regra, dentro de uma relação entre pai e filho). Mas o ator sempre soube ficar atento a novos realizadores que vieram na esteira do reaquecimento da produção nacional, caso de Vicente Amorim, que lhe deu outro pai de família, dessa vez potente, em O Caminho das Nuvens (2003).

Quatro anos depois, com a trajetória estruturada por filmes como Cidade Baixa, do conterrâneo Sérgio Machado, Moura não se incomodou em interpretar um coadjuvante em Tropa de Elite, não fosse uma decisão de reviravolta no roteiro alçá-lo a personagem principal. Do sucesso que se sabe veio também o ruído quanto à possível postura fascista do trabalho de José Padilha. “Fiquei pasmo com essa reação e antes mesmo de Padilha escrevi um artigo para um jornal questionando a opinião. Como era possível um filme que mostrava a polícia daquela forma, em toda a sua violência, ser fascista?” Em 2010, uma sequência traria seu Capitão Nascimento de volta, dessa vez, segundo ele, numa condição mais madura, como estavam também Padilha e o próprio ator.

Nesse período, outro personagem controverso, também Nascimento, causou-lhe dúvidas. Ao receber o convite para VIPs, a primeira decisão de Moura foi recusar o personagem do farsante que se fez passar pelo herdeiro da empresa aérea Gol. Não o achava atraente. Em parte, não queria se sentir como quem compactua com o golpe de Marcelo Nascimento da Rocha, glorificando-o no cinema. Só aceitou atuar para o diretor Toniko Melo quando percebeu no roteiro de Bráulio Mantovani, um dos responsáveis por Tropa de Elite, um tipo mais ingênuo e passível de ser compreendido em suas carências. Ganhou, de quebra, uma criação que se desdobra em pelo menos mais quatro.

Natural que o sucesso até aqui merecesse o olhar internacional, e o ator terminou há pouco sua primeira produção americana, Elysium, de Neill Blomkamp, diretor de Distrito 9 e admirador de Tropa. No elenco também está Alice Braga. Por contrato, Moura não pode comentar sobre o filme, mas a história futurista que divide a humanidade em duas classes sociais vai de encontro aos seus interesses e expectativas do que acha preponderante tratar.

Há outros pontos motivadores, além da postura política que procura imprimir em tudo, como a admiração por determinados cineastas. Queria, por exemplo, trabalhar com o cearense Karim Aïnouz. Escreveu a ele, como já fez no passado com outros realizadores, e foi recompensado com o personagem principal de Praia do Futuro, ainda inédito. Participaria, em breve, de uma experiência curiosa ao interpretar Federico Fellini, num episódio ficcional baseado na ocorrência em que o cineasta italiano se perde em Los Angeles, mas o projeto foi adiado. Ressente-se de não estar tanto no teatro e sempre se refere a Hamlet como uma das experiências mais significativas da carreira, desde que conheceu a peça nos tempos de estudante e se propôs um dia a interpretar o personagem. “Gosto muito de atores e acho que todos devem passar por Hamlet, que nunca estará esgotado.” Velha questão paterna, por enquanto apresentada a Moura apenas pelo encanto e pela responsabilidade de educar os três filhos, como pai que também é.

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