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Crônica / Matheus Pichonelli

Homens comuns

por Matheus Pichonelli publicado 16/09/2015 19h31, última modificação 17/09/2015 11h09
“Ninguém tem mais fé na vida que eu”, diz o caminhoneiro do filme de Carlos Nader quando já não pode ver nada. A vida, naquela estrada, não pede sentido. Pede renascimento

Assisti “A Palavra”, de Carl Dreyer, durante o curso de História e Linguagem de Cinema do professor Inácio Araújo. Lembro que era uma manhã fria de inverno e muitos de nós, alunos, ouvíamos falar da escola nórdica pela primeira vez.

As aulas eram (ainda são) divididas em duas partes. Na primeira, assistíamos aos filmes. Na segunda, ouvíamos as considerações do professor e participávamos de uma espécie de debate, no qual todo mundo era convidado a dividir suas impressões.

Quando “A Palavra” foi exibido, ninguém queria sair para o intervalo na salinha do café. Estávamos todos com os olhos inchados e constrangidos por passar as cenas finais com o nariz fungando. Nem um dos alunos mais calejados da turma aguentou tamanha carga dramática que colocava nossa fé e confiança na ciência à prova enquanto o louco da história, que se dizia a reencarnação de Cristo, tentava ressuscitar a cunhada em seu velório.

“É loucura querer recuperar a vida?”, questionava o pobre diabo, sem que nos déssemos conta (ou justamente por isso) de sua carga intensa de razão.

Pois foi uma crítica de Inácio Araújo, na Folha de S.Paulo, que me despertou o interesse para conferir “Homem Comum”, documentário de Carlos Nader com ampla evocação à obra-prima de Dreyer.

Como no filme dinamarquês, que nos deixou com os olhos inchados naquela manhã, temos no documentário, vencedor do prêmio de Melhor Filme Brasileiro e do Prêmio da Crítica no Festival É Tudo Verdade, um conflito evidente entre força e fragilidade, fé e desamparo, consciência e inconsciência, sabedoria e alienação, sequência e finitude. As perguntas seguem no mesmo sentido: no que ou em quem confiamos? A que nos apegamos? Para onde vamos? Por que vamos? Com o que sonhamos? Para quê?

Todas as perguntas são originárias de uma anterior: “A vida não é estranha?”. O questionamento era feito pelo diretor a caminhoneiros que encontrava pelo interior do país. Com as respostas, ele pretendia colher depoimentos para um documentário em meados de 1995. Nessa busca, encontrou Nilson de Paula, o tal “Homem Comum”. Trata-se de um caminhoneiro paranaense assustadoramente simples, amigável e solícito. Que, ao ser abordado pelo cineasta, estendeu as mãos, convidou a conhecer a boleia, a estrada, sua casa, sua família, seu quarto, sua filha.

De 1995 a 2002, quando o filme foi concluído, diretor e personagem ficaram amigos. Criaram empatia. Ao longo dos anos, Nader acompanhou a história de um personagem que nós, espectadores, ao bater o olho nas primeiras cenas, sabíamos como terminaria. Terminaria como numa velha música de Antonio Carlos Belchior. Aquele sujeito baixinho, de bigode, com uma fala confusa e pouco sofisticada sobre os rumos da vida, era feito aquela gente honesta boa e comovida. Era também uma bomba-relógio.

Há, na abordagem do diretor, pontos sensíveis a serem discutidos, a começar pela construção da intimidade, sobretudo nas horas de luto, passando pelo título na terceira pessoal do singular, um exercício de distinção do cineasta – e, consequentemente, do público – em relação àquele homem de generosidade aparente que se deixa filmar e se expor. Não se trata de “homens comuns”, na frente e atrás da câmera, mas de um homem comum, como são comuns os homens que se deixam filmar diante da câmera e travam no momento de dizer se a vida é ou não estranha. Como se a fala, em si, não fosse um fator de distinção. Como se a câmera não constrangesse nem escancarasse uma miséria desarticulada. Como se a abordagem atualizasse um exercício de ensinar ética a Nicômano. Como se de cada boleia pudesse sair, de pronto, um Riobaldo Tatarana.

Ainda assim, é notável o esforço do cineasta em tentar reorganizar o sentido daquela experiência ao longo do tempo. Nem ele nem Nilson sabem explicar por que, afinal, deram sequência àquele filme ou à amizade entre entrevistador e entrevistado. Nem um nem outro sabem dizer exatamente o que buscavam.

A assimetria daquela relação não os poupa do mesmo desamparo e de uma espécie de busca inconfessa. Essa busca por algo inominado determina outras ordens. É preciso dar sequência. É preciso continuar. É preciso renascer. Mas é preciso reconhecer também o que nos tornamos com os anos.

Nilson, no início das filmagens, é o sujeito solícito e prático que encara a estrada sem grandes crises ou questionamentos. “É a vida como ela é”, repete, mais de uma vez. O que vem depois é o cansaço.

A repetição mecânica dos movimentos evidencia um estado de alienação em relação ao seu mundo e à sua força de trabalho. Numa das viagens, ele ajuda a carregar o caminhão com dezenas de porcos rumo ao abate. Corta a cena e o personagem é filmado numa churrascaria apreciando um pedaço de linguiça. O caminho da vara é estreito, contingente, desumano – como o de quem passa parte da vida em uma boleia e tem na estrada uma prisão.

O tempo tem seu preço, demonstra o diretor, e o esfacelamento das relações familiares é sua principal fatura. Logo nas cenas iniciais presenciamos os ruídos acumulados por toda vida entre pai e filha. Pelo rosto é possível apreciar as camadas de ressentimento e mágoa ao longo dos anos. Nada parecido com a alegria da filha que, quando criança, é filmada pulando no colo do pai com um sorriso que não cabia na câmera.

“Mas eu não me dediquei tanto a você? Não me esforcei para que em casa não te faltasse nada?”, pergunta o pai, diante da resistência da filha em declarar o seu amor para a câmera. O que faltou, então? O que sobrou?

É mais ou menos este o questionamento levantado em “O Último Drive-In”, de Iberê Carvalho: enquanto buscamos o sentido das coisas, e tentamos sobreviver entre os escombros do que nos resta de orgulho, esforço, vaidade, o tempo se sobrecarrega de mudar os sentidos e moldar as experiências. É quando trocamos de papeis. E deixamos de ser filhos. E se ser pais. Ou o somos, mas sem qualquer resquício daquele ponto de origem. De preferência, o ventre.

“É loucura querer recuperar a vida?”. Talvez seja. Mas o que ela quer? O que a vida quer é coragem, dizia o médico e diplomata Guimarães Rosa pela boca de um jagunço em “Grande Sertão: Veredas”.

“Ninguém tem mais fé na vida que eu”, diz o caminhoneiro do filme, quando já não pode ver para crer. A vida, naquela cidade e naquela estrada, não pede sentido. Pede renascimento, como apontava o personagem de Dreyer. Pede sobretudo fé no renascimento. Ela se recria mesmo quando se perde. O resto é memória - e esta, quando documentada, já é parte da eternidade.