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Histórias de Brasis errantes

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 05/05/2008 15h58, última modificação 15/09/2010 16h00
O Brasil fica bem em frente ao centro de Angra do Heroísmo, capital dos Açores, a minutos de caminhada.

O Brasil fica bem em frente ao centro de Angra do Heroísmo, capital dos Açores, a minutos de caminhada. É um belo morro que forma uma península verdejante com pouco mais de um quilômetro de largura e fecha a Angra que dá o nome à cidade. Suas históricas fortalezas e sua reserva florestal são passeios obrigatórios para todo turista que passe por esses lados. Mas o mais interessante é que, apesar de boatos em contrário, já tinha esse nome bem antes de Pedro Álvares Cabral topar com o Monte Pascoal.

Caso algum curioso pergunte a um açoriano médio, talvez ouça que o morro recebeu esse nome de um senhor que fez fortuna no Brasil da América do Sul e em tempos foi seu proprietário, ora pois. Mas não deveria confiar mais nesse palpite do que no de um carioca médio sobre a origem do nome da Urca ou o de um paulistano sobre o do Jaraguá.

O nome do morro açoriano tem uma origem bem mais interessante. Documentos açorianos mostram que um certo Pero Luís de Sousa do Brasil – ancestral, por sinal, de várias famílias luso-brasileiras com “Brasil” no sobrenome – de fato foi dono desse morro, mas o vendeu a um tal João Vaz da Costa Monte-Real, que veio a falecer em 1496. Não havia como o seu Sousa ter estado em um País ainda não descoberto, muito menos nomeado.

Sousa do Brasil ganhou o apelido do morro e não o contrário: o nome do Monte Brasil lhe era anterior. Já em 1436, nove anos depois da descoberta dos Açores, mas três anos antes do início do seu povoamento, a ilha ao qual o morro é um anexo foi assinalada como I. de Brazi no mappamondo do veneziano Andrea Bianco.
Os portugueses preferiram chamá-la de Ilha Terceira, por se chegar a ela, vindo de Portugal, depois de se passar pelas ilhas de Santa Maria e São Miguel, mas o nome de Brasil pegou na quase-ilha que lhe é anexa. Mas de onde tirou Bianco esse nome?

Acontece que, desde 1325 nos mapas e muito antes nas lendas, uma ilha chamada Brasil, ou coisa parecida, rondava o imaginário europeu. Quando teve notícias da descoberta dos Açores, Bianco julgou que a famosa ilha por fim havia sido localizada. A tentativa de atracá-la definitivamente na Angra do Heroísmo não foi, porém, totalmente bem-sucedida. A fantasmagórica ilha continuou a assombrar as cartas marítimas, na maioria das vezes aparecendo em algum ponto a meio-caminho entre a Irlanda e os Açores.

Autores de teorias estapafúrdias contraíram o hábito de apontar para esses mapas como prova de que os portugueses descobriram o Brasil no século XIV. O pioneiro parece ter sido um certo Assis Cintra que, em um livro de 1921 intitulado Nossa Primeira Historia, contou a história de um tal “Sancho Brandão” cujos bravos marinheiros teriam descoberto a América do Sul e sua madeira vermelha para o rei Afonso IV, que a teria chamado de “Ilha do Brasil ou de Brandão”. A prova? Uma carta do rei para o papa, de 12 de fevereiro de 1345, no qual reivindica certas ilhas habitadas por “homens nus” e da qual se tirava um valioso corante vermelho. Só podia ser o Brasil, não é? Não.

O que os marinheiros de Afonso IV de fato descobriram por volta de 1335 – ou redescobriram, pois os cartagineses e romanos já as conheciam desde 570 a.C. – eram as ilhas Canárias, cujos indígenas eram chamados guanches. Acontece que o papa conferira o título de Príncipe de la Fortuna (pois as Canárias eram conhecidas como “Ilhas Afortunadas”) a um nobre de Castela, Luís de la Cerda, que prometera conquistar as ilhas e converter seus habitantes à fé católica e teve o desplante de pedir ao rei de Portugal – que entre 1336 e 1339 travara uma amarga guerra com os castelhanos – que o auxiliasse com navios, homens e armas. Afonso recusou a tal ajuda.

Explica Afonso que as ilhas deviam lhe pertencer de direito, pois seus homens as descobriram e estas eram mais próximas de Portugal que da Espanha. Como bom católico, acatava, apesar de tudo, a decisão do papa, mas sentia muito, muitíssimo, informar que não podia fornecer os recursos pedidos porque necessitava deles para lutar contra os muçulmanos do Marrocos, que em 1340 aliaram-se ao emirado de Granada para lançar seu último grande ataque aos reinos cristãos da península e assim forçaram portugueses e castelhanos a esquecerem suas divergências e unirem-se contra eles.

Unirem-se, mas nem tanto. O sonho principesco do desafortunado Luís de la Cerda morreu na praia e os guanches foram deixados em paz por mais algumas gerações. A invasão das ilhas só começou de fato em 1402, liderada por um nobre normando chamado Jean de Béthencourt que as cobiçou justamente por causa do tal corante, visto que era também dono de oficinas têxteis e tinturarias.

Nada a ver com pau-brasil: era o líquen Roccella, chamado em castelhano de orchilla e em português de urzela ou “ervinha”. Fornece o corante tornassol, bem conhecido dos estudantes de química como indicador de pH, por se tornar vermelho na presença de substâncias ácidas e azul na de alcalinas.

Em 1418, os normandos venderam as ilhas aos espanhóis, que completaram a conquista em 1496. A essa altura, os portugueses já haviam perdido o interesse nas Canárias. A ilha da Madeira e os Açores também possuíam a valiosa urzela, sem o inconveniente de nativos aguerridos a enfrentar.

Quanto ao tal Sancho Brandão, dele não há traços em documento histórico algum, embora seja citado em dúzias de sites da internet. Não existiu fora da imaginação fértil de Assis Cintra e seus leitores. Ansiosos por provar que estão certos e todos os historiadores errados, tais pesquisadores amadores apegam-se a frases tiradas do contexto político e histórico.

A ilha de S. Brandão apareceu em mapas medievais desde 1235, ora na altura das Canárias, ora no meio do Atlântico, muitas vezes nos mesmos mapas que mostravam a Ilha Brasil, mas em um ponto bem mais distante da Irlanda. Seu suposto descobridor foi São Brandão, abade irlandês do século VI.

Ao que parece, São Brandão, ou Bréanainn de Cluain Fearta, como era chamado em seu tempo, de fato navegou pelas ilhas entre a Irlanda e a Escócia, para contatar os monastérios que se estabeleciam por lá. Trezentos anos depois, essas viagens deram origem a uma epopéia fantástica em busca da Ilha do Paraíso, digna de Odisseu ou de Sindbad. Acompanhado de pelo menos 17 discípulos – ou até 150, conforme a versão –, Brandão faz-se ao mar em um curragh, – uma embarcação tipicamente irlandesa, de casco de couro – e descobre uma série de ilhas de sonho e de pesadelo.

Há uma ilha na qual aportam, mas depois que acendem uma fogueira, ela começa a se mexer e os monges têm de fugir às pressas: tratava-se de um imenso monstro marinho, chamado Jascônio. Em outra, enfrentam demônios vêem e Judas a ser torturado, acorrentado a rochas batidas pelas ondas. Passam ainda por um gigantesco pilar de cristal, encimado por um guarda-sol e que levam três dias para circundar. Depois de sete anos, chegam a uma ilha desabitada e maravilhosa onde jamais cai a noite, toda flores e jóias. É a ilha imaginária depois chamada pelos cartógrafos de São Brandão: nada mais, nada menos que a “Terra da Promissão”, o Paraíso prometido aos bem-aventurados. Os monges ali permanecem 40 dias antes de retornar à Irlanda.

Tomar tal obra-prima da fantasia como um relato da descoberta da América é mais ou menos como levar ao pé da letra o Orlando Furioso de Ariosto e acreditar que um cavaleiro de Carlos Magno chamado Astolfo esteve na Lua antes dos astronautas estadunidenses. Ainda assim é um passo que alguns entusiastas de viagens pré-colombianas não hesitam em dar.

E quanto à llha Brasil? Aí é preciso entender que coincidências existem e nariz de porco não é tomada, mesmo que queiram lhe dar o mesmo nome. “Brasil” parece ser uma palavra, mas são duas, com etimologias e histórias muito diferentes. Uma delas, de origem celta, deu nome à ilha lendária e, a partir desta, ao monte Brasil dos Açores e ao sobrenome Brasil de famílias como os Assis Brasil do Rio Grande do Sul. Também deu nome a um recife canadense e ao sobrenome Brazil de um bom número de descendentes de irlandeses. A outra, de origem árabe, deu nas palavras “brasa”, “braseiro” e “pau-brasil” e também ao nome do maior país da América do Sul.

Comecemos pela segunda, mais familiar. Sua história começa com wars, nome árabe de uma planta iemenita cientificamente chamada Memecylon tinctorium, usada para tingir tecidos e como linimento para inchaços na pele, do qual derivam o verbo warrasa (tingir de vermelho-alaranjado) e o adjetivo warsii (vermelho-alaranjado, cor de brasa). Era bem conhecida de Maomé, que proibiu seu uso, bem como o do açafrão, nas roupas dos peregrinos que se dirigiam a Meca, dos quais exigia sobriedade.

Por analogia, os árabes chamaram de warsii outros corantes vegetais que forneciam uma tonalidade semelhante, dos quais o mais importante no comércio medieval era extraído de uma árvore que ficou conhecida como pau warsii ou pau-brasil. Não, não era importada da América do Sul por alguma rota secreta. Tratava-se de uma árvore da Índia e Sudeste Asiático hoje também conhecida como sapão ou pau-brasil-da-índia: a Caesalpinia sappan, parenta próxima da árvore brasileira, a Caesalpinia echinata.

Desde o século IX, os árabes vendiam cavacos de pau-brasil aos mercadores venezianos e genoveses, que em 1193 o chamavam de brasile ou verzino, palavras derivadas de warsii, e o revendiam nos mercados europeus. Cargas e caixas de “brasil” ou “bresil” são mencionadas nas escalas dos portos ibéricos ao longo dos anos 1200 e em português, pela primeira vez, em 1377. Jamais foi confundido com a urzela, é bom anotar.

Os fãs de Sancho Brandão dão muita importância também ao epílogo do “Conto do Padre da Freira”, um dos Contos de Canterbury de Geoffrey Chaucer (de 1386), no qual o malicioso anfitrião elogia a beleza do monge que acabou de narrar a fábula do vaidoso galo Chantecler:

Mas, verdade, se não fosse clérigo, eu juro,
Seria um comedor de galinhas dos bons!
Pois se tivesse desejo, como podia ter tido,
E quisesse galinhas, seria fácil encontrá-las,
E muito mais que sete vezes dezessete
Vejam os músculos deste nobre sacerdote,
Que forte nuca e que esplêndido tórax!
Ele tem um fogo de gavião feroz nos olhos;
E decerto não tem necessidade de tingir
Suas bochechas com brasil de Portugal.

Para quem quer encontrar pêlo em casca de ovo, isso dizer que os portugueses, em segredo, traziam corante vermelho da América do Sul – tão secretamente que nenhum cronista da época se deu conta disso. Só Chaucer.

Para bom entendedor, significa apenas que os portugueses eram intermediários entre os italianos e os ingleses no comércio de pau-brasil-da-índia. É comum que o consumidor identifique a mercadoria pelo nome do vendedor e não do produtor, que muitas vezes ignora. Os ingleses também chamavam de turkey (literalmente “Turquia”) a ave africana que conhecemos como galinha-d’angola, pois lhes chegava por intermédio do comércio turco (e mais tarde aplicaram o mesmo nome à ave mexicana algo similar que conhecemos como peru). Da mesma forma, os brasileiros se acostumaram a chamar pimenta-do-reino, em contraste com as pimentas vermelhas nativas, à que era trazida da Índia por intermédio do Reino (de Portugal) e de queijo-do-reino o produto holandês que lhes chegava pelo mesmo caminho.

Quando os portugueses descobriram, de fato, a América do Sul, o primeiro recurso natural a ser explorado foi a árvore ibirapitanga, similar à madeira do oriente conhecida há séculos como pau-brasil e que ficou conhecida pelo mesmo nome. Como produtora de corante, era tida como inferior à asiática, mas era mais próxima e acessível. Já em 1511, um documento se referia à “Terra do Brasil” como fornecedora dessa matéria-prima às manufaturas têxteis da Europa. O nome oficial de “Terra de Santa Cruz” logo foi esquecido.
Não passou pela cabeça de ninguém, porém, julgar que a nova terra continental fosse a tão fabulosa ilha homônima. Os cartógrafos só concordaram em que esta era apenas uma lenda e se conformaram em riscá-la das cartas marítimas em meados do século XIX. Durante mais de trezentos anos, a ilha Brasil conviveu nos mapas-múndi com a colônia portuguesa do Brasil e mesmo com o Brasil independente. Não havia como confundir: apesar das aparências, era outro nome, com outra história e outra origem.

Esta outra história começa com o nome próprio irlandês Breasal, que tudo indica ser derivado dos termos celtas brestelo (“guerra, batalha”) e ualos (“chefe, líder”), portanto, “chefe guerreiro”. Breasal Etarlam, “Breasal, o Rei do Mundo” era o nome do soberano da mítica ilha Brasil, originariamente Hy Breasail, a “ilha de Breasal”.

Seu nome nada tem a ver com “brasa” ou “vermelho”, apesar de um monte de sites garantirem que o nome irlandês da legendária ilha, Hy Breasail (“Ilha de Breasal”) significa “Ilha Vermelha”, nem com “abençoado”, mesmo se outro monte de sites forçarem a relação com o inglês bless (“bênção”) e blest (“abençoado”). Estas são palavras de origem germânica, anglo-saxã, que nada têm a ver com os celtas – ainda que Hy Breasail tenha se tornado, no mito, uma “ilha abençoada”.

Breasal era um dos Tuatha de Danaan, o povo divino que, segundo o mito, vivia na Irlanda antes dos irlandeses. Segundo a lenda, foram derrotados por estes últimos e concordaram em se retirar, em troca da promessa de que os invasores lhes prestassem culto e homenagens. Segundo uma versão, eles passaram a viver em um mundo subterrâneo cujas entradas são os sidhe, túmulos pré-históricos com a forma de pequenas colinas encontradas em várias partes da Irlanda. Tornaram-se conhecidos também como “povo dos sidhe”, ou simplesmente sidhe, as fadas e duendes do folclore irlandês.

Outra versão, porém, diz que os Tuatha de Danaan, ou parte deles, liderados por Breasal Etarlam, migraram para a ilha que veio a ser Hy Breasail. É uma versão racionalizada e semi-cristianizada de um mito mais antigo no qual essa ilha era um paraíso ocidental reservado a heróicos líderes guerreiros mortos em batalha, equivalente irlandês dos Campos Elísios dos gregos, do Valhalla dos nórdicos ou da Avalon dos bretões. Assim como o corpo de Artur foi conduzido a Avalon, os dos líderes pagãos irlandeses eram lançados ao mar em piras funerárias flutuantes para serem conduzidos ao paraíso de Hy Breasail, terra de eterna juventude, prazer, festejos e esportes.

Supunha-se que a Ilha Brasil ficava oculta pelo mar ou pelas brumas, mas se tornava visível um dia a cada sete anos – mas o mortal que a visse, fatalmente morreria. Dessa lenda veio a Ilha Brasil dos antigos geógrafos e não é improvável que a ilha de São Brandão tenha sido uma adaptação cristã do mito pagão, embora fossem imaginadas de maneiras diferentes (e em pontos diferentes do Atlântico).

A persistência do mito deveu-se ao grande número de marinheiros experientes, bem como de moradores muito sérios das Canárias e dos Açores, dispostos a jurar que haviam divisado a ilha encantada no horizonte, em alguma ocasião especial. Nos Açores, dizia-se que ela só podia ser avistada perto do dia de São João (24 de junho). Acontece que nessa estação é freqüente o avistamento de bancos de nevoeiro que, ao emergir do horizonte, passam facilmente por terras distantes. Nos Açores, antes do aperfeiçoamento dos instrumentos aeronáuticos, os temidos nevoeiros do São João podiam fechar os aeroportos por dias seguidos. A mesma associação de idéias levou os colonos do Canadá a dar o nome de Brazil Rock a um escolho pequeno, mas perigoso, oculto sob as ondas ao sul da Nova Escócia.

Voltemos ao deus dos mortos irlandês. Quando ainda vivia na Irlanda, diz uma lenda, quis construir uma torre até o céu, mas trapaceou com os operários. Estes deviam trabalhar até o fim do dia em troca do prometido pagamento, mas Eithne, irmã de Breasal, fez um feitiço para deter o Sol enquanto a obra não fosse concluída. Breasal não conseguiu resistir, porém, a ter relações sexuais com a irmã, o que quebrou o encanto e trouxe a noite de volta. A irmã disse então que "Dubhadh (‘Escuridão’) será o nome deste lugar para sempre." Dubhadh, ou Sidhe Breasail, hoje chamado Dowth, foi o mais imponente dos monumentos pré-históricos irlandeses, mas foi usado como pedreira no século XIX e hoje está reduzido a uma fração do tamanho original. É, essas coisas não acontecem só no Brasil de cá.

De qualquer forma, o nome Breasal veio a se tornar relativamente comum na Irlanda e foi aplicado a muitos outros personagens do mito e do folclore, como também a muitos irlandeses de carne e osso. A meio caminho entre uns e outros, esteve um certo Breasal, filho de Felim, que veio a se tornar o ancestral legendário de um clã irlandês originário das margens do lago Neagh, no Ulster – o Clann Breasal, que em inglês passou a Clan Brazil e do qual descendem muitos irlandeses, britânicos e estadunidenses de sobrenome Brazil.
Teria o mito irlandês influenciado de algum modo o nome dado ao maior país da América Latina? A idéia soa romântica e atraente, mas não há um só documento histórico que a apóie. Não faltava imaginação aos antigos cronistas tupiniquins. Aventureiros e clérigos imaginativos juraram que foi aqui o País das Amazonas, o Eldorado, a morada das Dez Tribos Perdidas de Israel e mesmo o Éden de Adão e Eva, além de ser o berço do futuro Quinto Império do Mundo. Mas não passou pela cabeça de nenhum deles, apesar da identidade de nomes, assimilar o Brasil da madeira vermelha ao paraíso irlandês.

O primeiro a defender tal idéia foi o escritor integralista e anti-semita Gustavo Barroso, em Brasil na lenda e na cartografia antiga (1941). Exigia que, com base histórica ou não, se atribuísse ao nome do país uma origem mais nobre do que um reles comércio de judeus. Ele foi bem explícito:

“Aliás, a origem a que nos inclinamos é mais agradável ao espírito e ao coração dos brasileiros. Não pode haver quem não prefira que o apelido de seu torrão natal signifique Terra Abençoada, Terra dos Afortunados, dos Bem-aventurados, of the Blest, do que recorde tão somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta (...) exercido nos primeiros dias da conquista, não pelos portugueses idealistas que a realizaram, mas pelos cristãos novos Loronhas e Bixordas.”

Barroso fala de Fernando de Noronha e Jorge Lopes Bixorda, prováveis descendentes de judeus convertidos e primeiros contratadores de pau-brasil – negócio que o escritor, por puro preconceito anti-semita, julgava menos nobre do que aquele dos cravos, pimentas e canelas cujos lucros atraíram os “idealistas” Vasco da Gama e Cabral para as Índias.

O fato é que foram os tais contratadores que batizaram o país. Graças a eles, nos chamamos brasileiros – como ferreiros, pedreiros ou marceneiros – e não brasileses, brasilenses ou brasilanos. Brasileiro era, originalmente, não um gentílico, mas uma profissão: a de fornecedor de pau-brasil. O berço de nosso país foi feito de dura madeira vermelha, não de feéricas brumas celtas. Se um dia fizermos dele uma Terra Abençoada, será o fim e o resultado de muito trabalho. Nossa certidão de nascimento não garante privilégios de nobreza.