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História e pipoca, combinação indigesta

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 04/06/2008 15h57, última modificação 15/09/2010 15h58
Mark Bauerlein, professor de letras da Universidade Emory de Atlanta, está criando polêmica e fazendo fama com seu último livro, A Mais Burra das Gerações: como a era digital estupidifica jovens americanos e põe em risco nosso futuro (ou: não confie em ninguém com menos de 30 anos).

Mark Bauerlein, professor de letras da Universidade Emory de Atlanta, está criando polêmica e fazendo fama com seu último livro, A Mais Burra das Gerações: como a era digital estupidifica jovens americanos e põe em risco nosso futuro (ou: não confie em ninguém com menos de 30 anos). Segundo um levantamento de 2002 citado no livro, 52% de estudantes do terceiro ano do ensino médio indicaram Japão, Alemanha ou Itália, mas não a União Soviética, como aliados dos EUA durante a II Guerra Mundial. O autor conheceu um jovem aspirante a artista plástico que, literalmente, não sabe quem foram Michelangelo e Rembrandt, não quer saber e tem raiva de quem sabe.

Para o professor, a culpa da ignorância da chamada Geração Y (nascida a partir dos anos 80) é das “distrações digitais” – MSN, torpedos, iPod, games, Orkut e similares. O problema não seria a tecnologia, mas seu uso: “os adolescentes de 15 anos só se importam com o que outros adolescentes pensam (...) hoje a tecnologia permite que estejam em contato entre eles, excluindo os adultos, 24 horas por dia”.

O conservador Bauerlein é da chamada geração dos baby boomers, nascidos a partir do retorno dos pracinhas da II Guerra até o início dos 60, cuja burrice era atribuída por pais e professores à televisão e aos quadrinhos. Os pais dos baby boomers, por sua vez, tiveram sua burrice atribuída ao rádio e ao cinema. Estão aí Adorno e Horkheimer, que não nos deixam mentir.

Nem por isso as deficiências que o professor aponta deixam de ser muito reais e em certos aspectos mostram-se mais graves na última geração. Os argumentos da matéria da revista Newsweek, que sai em defesa dos fabricantes de videogames e seus consumidores compulsivos, não convencem. Ser capaz de descobrir no Google os aliados dos EUA em 1941, ou quem foi Michelangelo, não substitui uma visão global da história e da cultura quando se trata de orientar um cidadão na política e na estética. Sem um modelo coerente da cultura e do mundo em mente, é difícil, para começar, identificar quais perguntas devem ser feitas e quais fontes e respostas merecem alguma confiança. Como todos sabemos, na Web há muito mais joio do que trigo.

Mas se o autor de A Mais Burra das Gerações identifica corretamente alguns dos sintomas, é discutível se as causas e o tratamento estão bem orientados. Desconectar-se das redes digitais e ler um livro de vez em quando, como sugere, não faz mal a ninguém, mas ver nisso uma solução é discutível. O papel, como a tela do computador, aceita tudo e o mercado, idem. Dan Brown e Rhonda Byrne que o digam.

Também é discutível se prestar mais atenção aos adultos de fato os ajudaria a amadurecer e adquirir uma visão coerente do mundo. Não se esse adulto se chamar Homer Simpson. Ou Steven Spielberg. Ou George Lucas.

Todos sabemos que o compromisso maior de diretores de Holywood é com a capacidade de divertir e com a bilheteria que isso traz, não com a história, a cultura ou a ciência. Ainda assim, um mínimo de honestidade intelectual pediria alguns cuidados na hora de misturar fantasia e realidade. Não há nada de errado em inventar uma história imaginária para “uma galáxia muito distante”, ou um país de fantasia. O problema é quando países ou fatos reais são citados.

Em Indiana Jones e a Caveira de Cristal, o herói diz ter aprendido quéchua – língua dos indígenas dos Andes – com Pancho Villa, general revolucionário do norte do México. As aventuras supostamente se passam no Peru, mas ouve-se música de mariachis no mercado, os guerreiros indígenas se vestem como maias e as pirâmides são as de Chichen Itzá, no Iucatã mexicano. Para que não se diga que tudo nesse Peru é mexicano, a peruana de Nazca – litorânea e hispânica – aparece ao lado da também peruana Cuzco – andina e indígena – e, nas duas cidades, as pessoas se vestem da mesma maneira.

O que se diria de um filme brasileiro ou peruano que pusesse a Estátua da Liberdade em Berlim, Giuseppe Garibaldi a ensinar irlandês e Chicago ao lado de uma New Orleans cujas ruas e bares ouvem música tirolesa? Ou mostrasse vietnamitas falando sueco e comendo feijoada? É possível, caso se tenha muito senso crítico, encontrar respostas “certas” na Internet, mas para reconhecê-las, se importar com elas e mesmo fazer as perguntas é preciso dotar-se de uma visão coerente do mundo – também conhecida como cultura geral – na qual nem os jovens nem os adultos dos quais supostamente teriam algo a aprender estão interessados.

A matéria da Newsweek festeja ainda a capacidade lógica e de resolução de problemas supostamente ensinadas por games nos quais se precisa achar tal tesouro ou ferramenta para fabricar ou comprar uma arma, derrotar o inimigo, atravessar o fosso, alcançar o castelo e salvar a princesa.

Mas o filme também dá uma mostra da insuficiência desse tipo de raciocínio quando confrontado não com tarefas arbitrariamente predeterminadas por um programador, mas com um mundo real a ser interpretado. Para encontrar a tumba de Francisco de Orellana – morto perto da foz do Amazonas, atual Pará, em 1546 – Indiana busca orientação nas linhas de Nazca, construídas mil anos antes perto da costa do Pacífico entre os séculos III e VII d.C. Nem os autores nem o público parecem notar o quanto isso é ilógico.

É discutível qual poderia ser uma solução realista para as deficiências apontados por Bauerlein, mas o discurso conservador não é a resposta – antes é parte do problema, cuja essência é a transformação progressiva da cultura em uma mercadoria, cujo valor não é definido por critérios de verdade, ética ou estética, mas pela possibilidade de produzir lucro. Coisa que não começou com a era digital.

Para apresentar o problema de maneira mais concreta, prestemos um pouco mais de atenção a Indiana Jones e a Caveira de Cristal. Como observou o historiador peruano Teodoro Hampe, o filme reforça o imaginário do estadunidense comum – não necessariamente nascido depois de 1980, como se vê –, segundo o qual tudo além da fronteira sul, México, Guatemala, Bolívia, Brasil ou Peru, dá no mesmo. Também o historiador peruano Manuel Burga, ex-reitor da Universidade de San Marcos e o diretor da Biblioteca Nacional do Peru, Hugo Neyra, expressaram indignação: “é um barbaridade”, disse este último.

Razões igualmente fortes para se sentirem defraudados teriam os mexicanos, por terem seus tesouros culturais arbitrariamente transferidos para o Peru pela imaginação gringa e ainda atribuídos à criatividade de extraterrestres. Saiu-se melhor o Brasil ao não ser citado. Foi-lhe poupado o vexame de ver exposto ao mundo seu papel involuntário na origem dessa embrulhada.

Para começar, Spielberg esqueceu-se de que o essencial da aventura de Orellana deu-se no Brasil. Além disso, omitiu que seu roteiro é baseado em boa parte na “lenda” do reino subterrâneo descrito em As Crônicas de Akakor (Die Chronik von Akakor, 1976) do jornalista alemão Karl Brugger, best-seller alemão dos anos 70 e 80, prefaciado por Erich von Däniken.

Karl Brugger, correspondente da tevê pública alemã ARD no Brasil, disse ter conhecido em 1972 um indígena branco da selva amazônica que falava um perfeito alemão e dizia-se chamar Tatunca Nara e ser o rei do povo dos Ugha Mongulala de Akakor, uma mítica cidade subterrânea no alto Purus, em um vale em algum lugar entre o Acre e o Peru, que teria sido a capital de um império branco na Amazônia fundado por extraterrestres.

Segundo Tatunca Nara, sua civilização teria sido fundada em 13 mil a.C. por brancos vindos de um sistema solar chamado Schwerta, semelhantes a humanos exceto por terem seis dedos. Escolheram várias famílias humanas para serem seus aliados e servidores e com elas criaram o povo “Ugha Mongulala”. Tiveram relações sexuais com eles e por isso seu povo seria diferente dos demais indígenas do continente, com pele branca, nariz bem delineado, pomos salientes e maçãs do rosto salientes.

Como “raça superior”, os Ugha teriam construído Tiahuanaco e outros grandes monumentos da América do Sul e governado grande parte do continente ao longo de milênios, impondo seu governo e civilização aos ingratos índios comuns, de pele escura, sempre à espera de oportunidade para se rebelar. Em seus momentos de dificuldade, entretanto, contaram com a ajuda de brancos para submetê-los. Primeiro os extraterrestres, depois os nórdicos godos que, expulsos da Itália por Justiniano, teriam cruzado o Atlântico e o Amazonas para juntar-se aos Ugha em um só povo e ajudá-los a pôr os nativos em seu lugar e conter o expansionismo dos incas.

Se o leitor sentiu um desagradável odor de racismo e neonazismo nessas linhas não é por acaso, como logo verá.

O império dos Ugha teria decaído de novo após a chegada dos “bárbaros” espanhóis e portugueses, quando os índios deixaram de acatá-los. Esconderam-se em seus refúgios secretos até as vésperas da II Guerra Mundial, quando seu rei teria capturado uma mulher alemã e se casado com ela, união da qual teria nascido Tatunca Nara em 1937.

A mulher negociou uma aliança com os nazistas, pelas quais o III Reich se apoderaria do litoral do Brasil e Akakor ficaria com a Amazônia. De 1941 a 1945, dois mil soldados alemães teriam chegado a Akakor de submarino, levando armas modernas. Com a derrota nazista, teriam ficado e se integrado à vida do povo. Teria sido assim que Tatunca Nara aprendeu seu alemão perfeito e moderno.

Brugger que ao que parece acreditou piamente na história, escreveu que viajou no alto Purus com Tatunca Nara, mas sua canoa virou e, tendo perdido os víveres e remédios, não ousou prosseguir a pé. Em 1985, o jornalista foi assassinado a tiros em um restaurante no Rio de Janeiro, no que foi aparentemente um assalto comum. Três candidatos a exploradores tentaram seguir as mesmas indicações e aparentemente morreram na selva nos anos 80.

Os alemães Rüdiger Nehberg, aventureiro, e Wolfgang Brög, cineasta que realizou muitos documentários sobre a África e a América do Sul, decidiram investigar o tema. Ao entrevistar o suposto índio, notaram diversas contradições em sua história. Ao buscar registros e documentos, descobriram que “Tatunca Nara” era um certo Günther Hauck, que fugira da Alemanha para o Brasil em 1966 para não pagar pensão à ex-mulher. Não era de admirar que parecesse branco e falasse e escrevesse alemão bem melhor do que o português. A história foi contada no documentário de 45 minutos: O Segredo de Tatunca Nara: três viajantes desapareceram na Amazônia sem deixar traço. Quem é realmente Tatunca Nara? (Das Geheimnis des Tatunca Nara). Apesar de tudo, Günther “Tatunca Nara” Hauck continuou como guia turístico em Barcelos, Amazonas.

Se Tatunca conseguiu enganar tanta gente sã por tanto tempo, foi por atender à demanda de muitos europeus e, especialmente, de muitos alemães por obras que lhes reforcem o preconceito de que seu povo é a origem de toda civilização digna desse nome – qualquer realização importante que não seja estadunidense ou européia só pode ser obra de extraterrestres. Há um mercado para isso, logo a chamada indústria cultural o atende.

É a mensagem que fica de Indiana Jones: põe galinhas no meio de um aeroporto com bandeiras peruanas, põe latinos de cara suja em roupas andinas, a fazer a sesta nas ruas... e, no final, um disco voador a emergir das profundezas de um palácio de ouro em meio a símbolos de civilizações pré-colombianas indistintamente misturadas. O espectador gringo, assim como o racista branco das elites sul-americanas, quer que quaisquer civilizações surgidas de indígenas em particular ou da América Latina em geral só possam ser resultado da ação de estrangeiros brancos ou de forças sobrenaturais, e não da capacidade de seus próprios habitantes.

O filme lhe mostra o que quer ver: é a lei da oferta e procura em ação. A causa do problema e de seu agravamento está na progressiva transformação da cultura, educação e informação em mercadoria e não na qualidade da embalagem. Não importa se é papel impresso, celulóide ou mídia digital. As novas tecnologias ajudam a acelerar o processo, mas não o criaram. Esta honra pertence àqueles que colaboram para reduzir todos os valores ao mínimo denominador comum do dólar.