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Crônica

História de cachorro

por Menalton Braff publicado 04/04/2012 12h36, última modificação 05/04/2012 16h05
"Com bicho aprende-se muita coisa", escreve o cronista ao comparar a valentia entre homens e cães
cães

'Com bicho aprende-se muita coisa'. Foto: Galeria de Cesar e Camilla/Flickr

“Com bicho aprende-se muita coisa.” Alguém já deve ter dito essa frase. Hoje em dia anda muito difícil criar, principalmente frases, e, entre essas, sobretudo as de efeito. Mas ela interessa à história que me ocorreu e não vem ao caso saber quem a cunhou, e espero que ninguém me acuse de apropriação indevida de produção intelectual.

Feita a introdução necessária, vamos à história. Houve uma época de minha vida em que fazia diariamente um percurso, não muito longo, a pé e sempre no mesmo horário. Era por volta do meio-dia e o trecho do caminho a que me refiro era entre dois renques paralelos de árvores altas e copadas. Era o melhor pedaço do caminho, pois livre do sol (que tanto pode ser vida como pode ser morte). Nesse percurso, havia uma casa retirada da calçada, pouco além de um jardinzinho meio abandonado. Protegendo casa e jardim, uma cerca que consistia simplesmente em uma tela de arame com malha de uns oito centímetros e cerca de um metro e meio de altura. Nunca me dei ao trabalho de medir e espero que vocês acreditem em mim.

Não posso imaginar a razão, mas no mesmo horário, um cachorro branco com manchas pretas vinha latir do lado de fora da cerca, provocando a ira de um cachorro fulvo do lado de dentro. Ao se encontrarem, separados pela cerca, corriam a extensão toda do terreno dizendo-se, presumo, os piores palavrões, pois seus dentes arreganhados me permitem a ilação. Bem na metade da cerca ficava um portão também de tela, invariavelmente fechado.

Nas primeiras vezes que assisti ao furor canino ri com parcimônia, como se ri de algo apenas interessante. Por fim, entretanto, já nem prestava mais atenção à cena, de tanto que ela se repetia. Mas...

Naquele dia percebi que alguém tinha deixado o portão aberto. Quando vi o encontro dos dois inimigos, o de pelo branco e preto, do lado de fora e o de pelo fulvo, protegido pela tela, parei, com o coração gelado. Eu não queria ver, mas não conseguia desviar os olhos. A tragédia estava armada e aconteceria em poucos segundos. Os dentes pareciam preparados para cortar a tela.

Como sempre, xingando-se feito dois inimigos, eles correram cada qual de seu lado da cerca. Os focinhos, presumo, chegavam a se tocar, provocando a ira recíproca. Finalmente se encontraram cara a cara, agora sem proteção nenhuma, sem a tela do portão de permeio. O da casa, o fulvo, azulou ganindo para os fundos do quintal, onde se escondeu por baixo de umas laranjeiras. O malhado, sem parar de ganir, dobrou a esquina mais próxima e sumiu.

Continuei passando por ali, mas jamais voltei a ver aqueles dois valentões, como muitos que tenho encontrado pela vida afora