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Harry Stone sorri no inferno

por Adilson Mendes — publicado 19/05/2015 15h48, última modificação 19/05/2015 20h29
A defesa encarniçada da memória audiovisual parece ter se conformado à indiferença do poder público interessado em rentabilizar o espaço

Outro dia, ao passar pela Vila Mariana, me deparei com a fachada da Cinemateca Brasileira tomada pelo logotipo da Warner. Imediatamente a pergunta me atravessou a cabeça: “Mas o que diabos faz a Warner na Cinemateca em plena crise da instituição?”

Minha perplexidade não tinha unicamente um viés afetivo de antigo pesquisador da instituição, mas a curiosidade natural do interessado nas coisas da cultura. Com um mínimo de distância, pude constatar que a Warner alugara a bela sede da Cinemateca para lançar uma coleção de brinquedos de super-heróis, miniaturas de Super Homem, Mulher Maravilha e tutti quanti.

O que me deixou ainda mais atônito - pois nem ao menos se tratava de cinema -, mas me fez concluir que, quanto mais aguda se torna a crise, mais a Cinemateca se transforma em caso paradigmático do estado da cultura no País. Muito mais do que assunto de cinéfilo, o caso da Cinemateca diz respeito à transformação do espaço público em lugar de consumo e consumo do lugar, como diria Henri Lefebvre.

É fato que espaço público abandonado pelo Estado rapidamente é deformado, passando a servir a interesses particulares, vide o caso do Parque Augusta, mas também o da própria Cinemateca, cuja onda recente de piqueniques no jardim tem agradado aos agentes especializados nesse tipo de "turismo cultural". 

Os espaços públicos urbanos nas grandes cidades brasileiras permanecem “invisíveis” para a maioria da população, tornando-se espaços “exclusivos” para iniciados, o que gera uma urbanidade baseada sobretudo no consumo desigual realizado em lugares-espetáculo.

Para a instituição, com história marcada pela renovação de referências e confronto ao pensamento único, essa ocupação ganha ares gerais, reiterando o aspecto imutável de nossa história, em que tudo se transforma para repor exatamente o estado de coisas do atraso.  

Ainda é preciso acrescentar que essa degradação do espaço público é tão explícita quanto dolorosa para uma instituição que tem Paulo Emilio Salles Gomes como seu patrono. O crítico de cinema, que em sua última fase assumiu um viés “jacobino" na luta contra a padronização da cultura, criou um bordão repetido ad nauseum, mas que ainda é ouvido nos dias que correm, apesar de muitas vezes sem a compreensão exata de seu aspecto estratégico e pontual: “O filme ruim brasileiro é melhor do que qualquer filme estrangeiro".

A defesa encarniçada da memória audiovisual parece ter se conformado à indiferença do poder público interessado em rentabilizar o espaço com números sempre atraentes à sociologia vulgar da cultura.

O atual abandono de uma instituição como a Cinemateca, que segue sem dirigente e ruma em direção ao desconhecido, nos joga na cara a dominação cultural sem obstáculos em que vivemos. O símbolo da Warner na Cinemateca é a reiteração de jogos vorazes que ultrapassam, velozes e furiosos, a compreensão de muitos, a começar pelo próprio Ministério da Cultura, que se debate em reconstruir o que foi destruído há pouco por duas gestões anteriores de um mesmo governo.

A desorientação do Ministério da Cultura é refletida em suas ações sucessivas na Cinemateca. Nos primeiros dias de 2013, quando estourou a crise, o mais novo secretário do audiovisual adentrou a instituição bradando a solução via concursos públicos. Em seguida, logo após a queda do último novíssimo secretário, um outro novo secretário propôs a refundação completa da instituição ao insistir, a todo custo, em transformá-la num centro de referência audiovisual, coisa que ela sempre foi desde os idos de 1940.

O último passo dessa série desastrosa foi a indicação de um diretor que, nas horas vagas, ajudava a propagandear quem? Quem? Ninguém mais, ninguém menos do que a Warner e sua capacidade em transformar mitologia urbana, aliada a high tech, em mercadoria “universal". A imagem de um diretor de cinemateca tecendo elogios sinceros ao lixo da indústria cultural é de uma boçalidade que nos cala fundo. Harry Stone sorri no inferno. Resta então apenas torcer para que os novos ventos do Ministério soprem a favor da instituição, pelo menos até a próxima gestão.