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Harmonia distante

por Rosane Pavam publicado 11/04/2011 08h43, última modificação 15/04/2011 14h17
Enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira demite, maestros pedem diálogo com instrumentistas
Harmonia distante

Enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira demite, maestros pedem diálogos com instrumentistas. Na foto, Alex Klein, ex-regente da Orquestra Municipal de São Paulo. Por Rosane Pavam

Enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira demite, maestros pedem diálogo com instrumentistas

Daniel Barenboim enfrentou grande desafio ao conduzir a Orquestra Sinfônica de Chicago um mês depois dos atentados de 2001. O maestro argentino, um dos melhores do mundo, deveria não somente reger em turnê a Sétima Sinfonia de Gustav Mahler, mas superar o espectro da guerra que o rondava. O público de Newark, Washington ou Nova York não esperava de artista tão completo e temido como ele algo menos do que a habitual precisão. Contudo, contrariando as expectativas, Barenboim desabou.

Seus músicos não o reconheceram nas exibições americanas. O oboísta Alex Klein, único brasileiro a ganhar um Grammy de música erudita, em 2002, recorda-se do momento em que seus então companheiros de orquestra colocaram Barenboim contra a parede, sem economizar palavras. Ou o maestro apagava sua letargia ou, para eles, executar Mahler não mais seria possível. Barenboim não os expulsou da sala. Ele os ouviu, agradecido pelas observações. E, municiado pelo empurrão emocional que lhe davam, reergueu-se no comando do grupo.

“Isto ainda não existe no Brasil”, disse Klein dia 4 em entrevista por telefone a CartaCapital, de Montevidéu, onde, dedicado à regência desde que uma distonia focal o impediu de tocar com a mesma excelência, conduziria concertos. O que não há no Brasil, ele crê, é a liberdade dos músicos de Chicago em expor sua opinião, tanto quanto a humildade do maestro em ouvi-la. “Em nosso País, o maestro é ainda o rei idolatrado e contestá-lo resulta em uma espécie de crime inafiançável.”

Se não crime inafiançável, a demissão por justa causa ronda os horizontes da arte erudita como uma faca sobre seu já sofrido desempenho. Liderada pelo regente titular e diretor artístico Roberto Minc-zuk, a Orquestra Sinfônica Brasileira, que, desde seu comando, há cinco anos e meio, fez subir os salários dos músicos de cerca de 2 mil reais para valores entre 6 mil e 7 mil, vive na atualidade um processo próximo ao de um desmantelamento.

Trinta e dois instrumentistas, algo em torno de um terço da OSB, haviam sido afastados até a quinta-feira 7 em razão de recusa em se submeter a audições internas. Mas muitos dos demitidos, como o flautista Renato Axelrud, com três décadas de dedicação à orquestra fundada em 1940, já teria o desempenho conhecido pelo diretor. Os músicos suspeitam que as audições fossem em verdade escusas para substituir nomes antigos por jovens instrumentistas cordatos.

A decisão unilateral revolta não somente os músicos da orquestra, dispostos a expor sua opinião em sites de relacionamento como o Facebook, no qual substituem a foto de seu perfil pela imagem de um quadro-negro, mas por solistas que a integraram. Na terça-feira 5, o pianista Nelson Freire anunciou o cancelamento de concertos agendados com a orquestra. Antes dele, fizeram o mesmo Cristina Ortiz e Roberto Tibiriçá. A bailarina Ana Botafogo cancelou sua apresentação de sábado 9. No jornal O Estado de S. Paulo em 2 de abril, o violoncelista Antonio Meneses pediu “posição mais humana” da direção da Fundação OSB. No jornal O Globo, dia 5, o maestro Isaac Karabtchevsky perguntou-se que patrocinador, a partir de agora, desejaria envolver-se com a instituição. Alemães e canadenses manifestaram repúdio à atitude da OSB.

Klein redigiu quatro cartas a Roberto Minczuk, uma delas aberta, nas quais solicita a reconsideração da medida. Nunca obteve resposta. Ele acredita que só restará ao maestro se retratar com humildade, sob pena de ter seu nome desacreditado. Na quarta 6, Minczuk conduziu ensaios na orquestra jovem sob vigilância armada. Reunido em sessão ordinária dias 5 e 6, o Conselho Nacional de Política Cultural aprovou moção de repúdio à avaliação coletiva imposta aos músicos da OSB. O texto, assinado pela ministra Ana de Hollanda e pelo secretário-geral do CNPC, João Roberto Costa do Nascimento,
deve ser publicado no Diário Oficial. Até o fechamento desta edição, dia 7, o secretário, em reunião, não comentava o caso. Músicos acreditam que a moção possa prejudicar a entidade privada na obtenção de recursos por leis de incentivo.

Minczuk é uma estranha unanimidade. Mesmo o ex-diretor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, manifestou no blog semibreves repúdio à atitude do ex-assistente. Mas o regente o apoiara em 2001, demitindo sete músicos que discutiram com Minczuk.

O tiroteio reaviva rusgas antigas. Neschling contestara Klein em seu blog, dia 4, defendendo a reputação de Minczuk como maestro antes de saber da conclusão do processo demissionário conduzido pela Fundação OSB. Contra Klein, Neschling exibiu seu trunfo. “É um excelente músico, mas jamais fez nada parecido ou próximo do que deixei realizado no Brasil. Sua passagem pela direção do Teatro Municipal de São Paulo foi fugaz e estéril (...)”, escreveu. Isto porque o oboísta fizera restrições a Neschling à frente da Osesp, da qual o maestro foi demitido em 2009. Klein tem pedido diálogo entre regente e músicos. Mas de fato deixou, apenas após três meses, a tarefa de conduzir a Municipal paulistana, incapaz de negociar questões da orquestra com sua direção administrativa.

“Se lá não permaneci foi, entre outras razões, por discordar da postura da secretaria, que não me ouviu a respeito do cancelamento do concerto de cem anos do Teatro Municipal, a ser realizado um dia antes de uma apresentação da ópera Rigoletto”, diz Klein. Antes de assumir o posto, ele foi informado das condições precárias em razão da reforma do teatro e da situação dos músicos sob contrato precário, sem férias e 13º salário, mas imaginou-os problemas contornáveis. “O principal é que minha presença, ali, era desrespeitada diariamente. Um telefonema teria resolvido a questão do concerto, mas fui informado por e-mail e só. Não teria me importado de trabalhar escondendo o cenário da ópera sob luz diferente.”

Ouvido pela reportagem na quarta 6, o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, diz que mantinha com Klein uma relação “constante, franca e intensa”, e que o hábito de se comunicar por e-mail com ele foi iniciado pelo próprio maestro, o que Klein confirma. Mas Calil entende sua decisão de contratá-lo, a partir de lista tríplice dos músicos, como um erro. “Klein age de estalo, seu temperamento é inadequado para conduzir uma orquestra. Foi meu grave erro de escolha. Ele não tem experiência nem perfil para a coisa.”

Em texto por e-mail a CartaCapital, a Comissão de Músicos da orquestra diz ter mantido um contato respeitoso com o antigo regente. “De fato, em seus discursos, sempre enfatizou esse ponto de comunicação entre maestro e orquestra. Essa comissão, eleita em 7 de dezembro, a partir de então sempre esteve em constante contato com o maestro Klein dentro das possibilidades naquele momento”, escreve o colegiado. Ele não se manifesta sobre a decisão do regente Marcelo Ghelfi, à frente do projeto de popularização da música erudita Municipops, de autoria de Klein, de afirmar que “os músicos da orquestra vivem sob uma ditadura”, em apresentação dia 5 de março, no Sesc Pinheiros. Ghelfi regeria 12 concertos do projeto, mas a secretaria, antes dessa apresentação, já havia cancelado sete deles.

Em conversas apenas informais, instrumentistas do Teatro Municipal dizem que a relativa inexperiência de Klein na regência era contornada por seus imensos conhecimentos musicais. Ele teria sido capaz de ouvir os músicos, e deles exigir desempenho. Mas quando tudo parecia encaminhado, desligou-se da orquestra e deixou todos perplexos. “A questão final foi minha percepção de que meu modelo de atuação não pode ser expresso dentro do Municipal, portanto não vi razão para ficar por lá”, Klein se justifica. “E também tenho uma imagem a zelar. Nada apresentar no centenário de nosso Carnegie Hall é algo vergonhoso”, ele diz. Klein lamenta que nem todos os políticos tomem a atitude do ex-governador Mário Covas, que, à época da criação da Osesp, deu à fundação liberdade de agir.

“Um diretor artístico tem de propor novidades, como eu fiz. As ideias mirabolantes são necessárias à arte e têm de buscar seu caminho de execução. A direção administrativa deve viabilizá-las. No Municipal, não havia isso. Eu teria de correr à Polícia Federal, por exemplo, para encaminhar passaportes de músicos convidados. Nesse modelo, funciona apenas um maestro como Jamil Maluf, que bate à porta do banco pedindo dinheiro, enquanto, com seu talento, poderia usar esse tempo para a criação, a inovação artística.”

Os músicos aguardam que o projeto de lei enviado à Câmara Municipal, cujo objetivo é formalizar uma fundação para a orquestra, resolva problemas relativos a contratos e infraestrutura. É o que diz, igualmente, esperar o secretário. Mas o que não está no horizonte de discussão de qualquer projeto é a necessidade de mudança da atitude imperial dos maestros. Apesar disso, a posição inatacável do regente é um resquício cultural que precisa ser apagado, diz Klein, pelo bem da imagem brasileira no contexto mundial.

Para o maestro, jamais deveria haver audições internas como as exigidas por Minczuk no tumultuado processo da OSB, uma vez que a avaliação do músico da orquestra já é diária e constante. Klein propõe atitudes objetivas como a existência de intervalos de cinco minutos a cada 30 de ensaio, como ocorre em Chicago. Em seu modelo, o maestro não pode fazer demissões arbitrárias e, no caso de uma demissão, o instrumentista tem o direito de saber os motivos. Além disso, somente aquele que contar com a aprovação do maestro e dos representantes da orquestra poderá ser admitido no grupo. “A orquestra não é nem nunca vai ser uma democracia”, acredita o regente. “Mas deve haver diálogo entre os maestros e os músicos.”

Novos capítulos se abrem a cada momento no tumultuado processo que resultou em demissões por justa causa na Orquestra Sinfônica Brasileira. No final da noite de quinta-feira, a imprensa foi informada de que o presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho, enviara a cada um dos demitidos uma carta na qual os chamava a “salvar uma grande instituição”. Segundo a direção da OSB, não se tratvaa de um recuo, mas demissões poderiam ser revistas se os músicos, que haviam anteriormente recusado se submeter a audições internas, aceitassem ser avaliados

Foto: Joel Rocha