Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Guerras de cinema

Cultura

Livro

Guerras de cinema

por José Geraldo Couto — publicado 26/02/2011 10h48, última modificação 26/02/2011 10h48
Sai no Brasil um livro precioso - escrito por Antoine de Baecque, biógrafo de Truffaut e Godard - para entender as transformações históricas experimentadas pela cinefilia

A propósito do fechamento do Cine Belas Artes, falou-se com nostalgia de uma cinefilia que não existiria mais. Mas o que vem a ser cinefilia? De modo sucinto, é a cultura viva em torno dos filmes, que não tem a ver com sua performance comercial, mas com seu impacto estético, psicológico, político. O conceito abarca a difusão, a crítica e a discussão: as mostras, os debates públicos, as publicações especializadas.

Sai no Brasil um livro precioso para entender as transformações históricas experimentadas por essa atividade. Chama-se Cinefilia, escrito pelo crítico francês Antoine de Baecque, biógrafo de Truffaut e de Godard, ex-editor-chefe da revista Cahiers du Cinéma e ex-editor de Cultura do diário Libération. A atenção de Baecque se concentra na França, entre 1944 e 1968. O recorte não é arbitrário. A França inventou a cinefilia. Com a Libertação, em 1944, chegaram ao país as obras americanas de que a Europa ficara privada durante a guerra, entre elas Cidadão Kane e filmes noir. Essa invasão cultural teve um impacto enorme sobre a crítica e a produção de cinema na França.

Em 1968, na ressaca da Nouvelle Vague e dos movimentos libertários, a recepção de filmes entrava em etapa mais controlada pelo mercado. Entre uma baliza e outra, a atividade cinéfila foi intensa. Com erudição, Baecque fala do papel dos principais críticos (Bazin, Sadoul, Truffaut etc.), publicações (Cahiers, Positif), linhas e tendências. Ilumina, sobretudo, polêmicas que dividiram os cinéfilos: o stalinismo, Hitchcock, o filme “B”, a Nouvelle Vague etc. Momentos em que a fricção entre duas paixões tipicamente francesas – a do cinema e a do debate de ideias – produziu belas faíscas.

Cinefilia, de Antoine de Baecque. Editora Cosac Naify, 464 páginas, 82 reais.