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Guerra e paz

por Socrates — publicado 12/01/2011 10h14, última modificação 12/01/2011 10h14
Eventualmente chamamos um confronto esportivo de guerra. No fundo, o que temos em geral é uma grande confraternização, a não ser quando se joga contra os argentinos

Eventualmente chamamos um confronto esportivo de guerra. No fundo, o que temos em geral é uma grande confraternização, a não ser quando se joga contra os argentinos
Guerra fria, Guerra dos Seis Dias, guerra sangrenta... Existe toda a sorte de adjetivos para caracterizar a mais absurda das ações humanas. Mas as guerras nem sempre são fruto de determinações destemperadas geradas em mentes insanas. Eu sei, eu sei que esse tipo de análise jamais provocaria um sentimento, digamos, contemporizador na cabeça da maior parte dos cérebros privilegiados. Mas se nos ativermos às várias nuances de gênero que esse termo passou a representar, veremos que nem sempre guerra é guerra. Às vezes utilizamos o vernáculo para, categoricamente, definir uma forma de atingir, ou de uma sociedade construir, uma nova ordem que restabeleça uma relação mais sã entre seus constituintes. Por si só já está implícito, nesse ponto, um gigantesco conflito. Talvez devêssemos encontrar uma forma mais pura e palatável. Seria muito melhor. Infelizmente, nossas limitações nos empurram para contrastes nem sempre fáceis de entender.
Pior é que eventualmente chamamos um confronto esportivo de guerra. Alguns realmente devem ter sido bem representativos, mas, no fundo, o que temos aqui é uma grande confraternização – se os zagueiros forem de boa índole, é claro. Exceto quando entre quatro linhas cruzamos com os argentinos.
Quem foi que disse, certa vez, que tango e samba não combinam? Sei lá! Nos tempos modernos, a voz e o jeito de Maradona talvez sejam a fina flor do que rejeitamos absolutamente. Não, não é verdade. Diego é só um pouquinho a cara argentina. Quem enfrentou as travas das chuteiras argentinas sabe exatamente do que estou falando. São de uma agressividade tão absurda que mesmo no seio da marginalidade seriam contestadas e reprimidas.
Mas guerra é guerra. Existe até guerra santa. Sempre há uma causa e um ideal, ainda que desumanos. Napoleão, em sua excentricidade, queria tudo. Queria o mundo. E bateu-se com o czar russo. Lá, no norte do planeta, existiam muitas das maiores reservas de petróleo e grãos. Como Tolstoi nos mostrou em Guerra e Paz, foi, porém, por motivo menor que a guerra acabou proclamada. Napoleão se negou a retirar suas tropas quando instado a isso. Seria uma derrota, um sinal de fraqueza.
Já os alemães saíram desolados de uma grande guerra para entrar em outra bem pior. Levaram ao poder o homem que pregava contra o Tratado de Versalhes, solução encontrada para a busca da paz na Europa, e contra o povo judeu. Defendia a pureza da raça ariana. Os nazistas queriam acabar com os judeus, que tentam exterminar os palestinos, que sonham destruir a América, que ajudou a derrubar Hitler. Desculpem, não tenho nada contra nenhum desses povos. Até porque essas decisões sempre foram de gabinete, estimuladas por interesses específicos e executadas por tristes soldados que nem sempre sabem o porquê.
A mesma Alemanha foi escolhida para sediar os XI Jogos Olímpicos em 1936, em plena realidade nazista e com Adolf Hitler à frente. Queria-se mostrar ao mundo o crescimento do país e esconder suas mazelas. Talvez em alguns aspectos vejamos semelhanças com o que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2016. Tudo foi feito para causar a melhor impressão possível e assim combater os que eram contrários ao regime. A Vila Olímpica construída era impressionante: 140 casas, em meio a um bosque, emolduradas por um lago, onde cisnes nadavam suavemente. O momento era propício para que Hitler pudesse divulgar os princípios nazistas e tentar justificar-se sobre o que falavam em relação ao tratamento dado ao povo judeu.
Assim, toda e qualquer alusão a judeo-alemães ou visitantes foi evitada, tanto pela imprensa como pelo próprio regime durante a realização dos jogos. Berlim foi praticamente restaurada em seus principais pontos, maquiando a realidade que existia até ali. Quando do pleito alemão para sediar os jogos, haviam garantido que os judeus não seriam excluídos do time olímpico alemão, conseguindo com isso várias adesões que culminaram com a escolha de sua capital. O objetivo era claro: sublinhar de maneira impressionante a propaganda alemã de superioridade da raça ariana.
Se transformarmos os objetivos políticos em econômicos e sociais, poderemos muito bem imaginar o que deverá acontecer em nosso país em 2016. E as consequências também poderão ser tão nefastas como as que se abateram sobre a Alemanha nos anos subsequentes.