Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Grande e simples

Cultura

Literatura

Grande e simples

por Rosane Pavam publicado 05/09/2009 15h25, última modificação 16/09/2010 15h26
Antonio Candido, o maior crítico literário brasileiro, fez 90 anos e ganhou o troféu Juca Pato, alusivo a uma criação do cartunista Belmonte, neste mês de agosto.

Antonio Candido, o maior crítico literário brasileiro, fez 90 anos e ganhou o troféu Juca Pato, alusivo a uma criação do cartunista Belmonte, neste mês de agosto. A estátua escurecida de Juca Pato confere um tremendo reconhecimento intelectual a quem a recebe, embora Candido dispense o que se possa dizer dele hoje, seja bom, seja mau.

Havia muito, um amigo mais velho do crítico, o escritor Oswald de Andrade (Oswáld para ele), provocara-o e a seus companheiros da revista Clima, Décio de Almeida Prado e Paulo Emilio Sales Gomes, entre outros, chamando-os de chatoboys. Hoje não há quase ninguém para se lembrar desta expressão que, contou-me Décio em uma entrevista antes de sua morte, em 2000, sempre divertiu os atingidos. Restou ao público o Antonio Candido sacralizado como a Vitória de Samocrácia.

Mas nem o próprio crítico parece sentir conforto neste lugar em que o colocaram, acima de todos e de tudo. Este grande intelectual provou seu vigor e a face bem-humorada durante a entrega do Juca Pato na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no último dia 20. A cerimônia marcada para as 19h começou cerca de quarenta minutos depois, dada a inexistência de um auditório repleto. As cadeiras ficaram por muito tempo vazias por conta do trânsito irascível da cidade. O tráfego intenso, contudo, não alterou a rotina do próprio crítico, pronto para seus espectadores muito antes de o espetáculo começar.

Candido é forte, mesmo sentado sobre o estofado vermelho da cadeira de madeira longa, em que seu corpo fica mal diagramado, pequeno demais. Ele está sereno, com a face que parece se repetir há pelo menos três décadas, sem que o tempo a altere. Tem, ademais, um bom gesto para quem discursa seu favor: aproxima as mãos uma da outra em sinal de prece e abaixa a cabeça, como um oriental.

Sentado na grande cadeira, espera o que dele têm a dizer a União Brasileira de Escritores, a Academia Brasileira de Letras, a Associação de Alunos Veteranos da São Francisco e Fábio Konder Comparato. Este jurista exaltou seu personalismo e sua cordialidade, qualificando o homenageado, numa só adjetivação, como uma persona cordial. A leitura que Comparato faz do termo adotado por Sergio Buarque de Holanda é a de um homem que respeita o outro. Não o tolo passivo. Não aquele que, sugere o adjetivo, submete a racionalidade ao coração.

Não, ninguém ousaria dirigir ao combativo Candido a pecha de acomodado, servil, submisso. Ele é um dos nossos duradouros socialistas. Ele é o homem que sistematizou a crítica literária brasileira ao colocar fundações na formação de nossa literatura. Ele é quem procura os tipos anônimos destacados das personalidades, como fez em Os Parceiros do Rio Bonito ou Um Funcionário da Monarquia.

Pois foi este Antonio Candido quem, durante a cerimônia que tinha sede naquela faculdade onde estudara, disse jamais tê-la concluído como deveria, já que não conseguira passar em um dos exames, nem de segunda época. Desse insucesso ele guarda um diploma de burro, a que sempre recorre quando alguma sombra de vaidade extrema ameaça perturbá-lo. Fizera, ademais, sete anos de curso em lugar de cinco, porque ainda precisara atravessar uma temporada de estudos pré-jurídicos antes de começar de fato a encarar os livros de Direito.

Foi Antonio Candido, principalmente, quem disse, naquela noite, ter aprendido com as críticas semanais de cinco laudas, destinadas à Folha da Manhã, a escrever com a clareza que se poderia associar, inadvertidamente, a anos de estudos profundos. Mas a academia não lhe deu isso, nem mesmo a ele, o maior crítico. A lida com o jornal e seu leitor formaram esta escrita transparente que é uma das melhores entre a de todos os outros eruditos brasileiros.

Para Candido, será sempre necessário situar o intelectual e sua importância. Não mistificá-lo, não fazê-lo crescer mais do que o justo, enquanto deve prosseguir o trabalho de dar a importância devida a quem jamais a mereceu dentro do meio. Por exemplo, no número 37 da revista Discurso, editada pela Alameda (442 págs., R$ 38), Candido escreve no artigo A Importância de não Ser Filósofo a respeito do professor de filosofia Jean Maugüe, integrante da Missão Francesa que inaugurou, junto à italiana e à alemã, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, nos anos 30:

Percebendo provavelmente que não poderia exigir de nós o que se exigia de um estudante francês, procurou ajustar o ensino à situação local. Dizia, por exemplo: “Quero que a filosofia lhes sirva para ler melhor o jornal, analisar melhor a política, compreender melhor o seu semelhante, entender melhor a literatura e o cinema.” Com estas idéias, se não formou filósofos, influenciou a vida intelectual de seus alunos.

Mas dava também conselhos marcados pelo rigor, digamos específico, como este que não esqueci: o estudante de filosofia deveria concentrar-se na leitura de uma obra difícil, lendo, relendo, refletindo sobre cada conceito, esclarecendo cada palavra, até compreendê-la completamente, em todos os níveis. É um trabalho lento e penoso, mas ao cabo o estudante seria capaz de refletir e adquirir a verdadeira cultura.

Jean Maugüe é o personagem de Candido por excelência. O esquecido que a história oficial não saberá incluir, porque sua grande obra não foi escrita. Em 1982, conta ele, Maugüe fez publicar o livro de memórias Lês Dents Agacées, seu texto de maior vulto, e recebeu uma resenha no Le Monde na qual o historiador Fernand Braudel tocou em um ponto essencial: o autor escreveu o livro a fim de perguntar a si mesmo a razão pela qual alguém tão capaz como ele nada produzira que mostrasse quem realmente era.

Há Magües onde não os vemos. Não nos esqueçamos deles, como não seria possível atenuar a lembrança do maior intelectual entre nós.