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Cultura

Dois anos após a morte

Glauco, o parque

por Redação Carta Capital — publicado 12/03/2012 10h40, última modificação 06/06/2015 18h22
Cartunista e líder de igreja do Santo Daime é homenageado em São Paulo; chá utilizado no culto pode ganhar registro de bem cultural brasileiro
parque glauco

Solenidade de inauguração do Parque Glauco, em Osasco, no último dia 25, com a presença de familiares do cartunista. Foto: Paula Nogueira

*Por Carlos Minuano

Nesta segunda-feira 12 completa-se dois anos da morte do cartunista Glauco Villas Boas.  Poucos dias antes, ele acaba de receber uma justa homenagem: um parque com seu nome. No Parque Ecológico Glauco Villas Boas, em Osasco, inaugurado no último dia 25 de fevereiro, personagens célebres como o Geraldinho voltarão a animar o público, desta vez na forma de brinquedos que ficarão espalhados pelo local.

Glauco residia na região, no bairro Santa Fé, na vizinhança do parque. Lá também, desde 1997, está instalada a Igreja Céu de Maria, do Santo Daime, que o cartunista dirigia. O culto, oriundo da Amazônia, utiliza o chá psicoativo ayahuasca, atualmente liberado para fins religiosos, por resolução do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas).

O parque, segundo o secretário de Meio Ambiente de Osasco, Carlos Marx, foi construído em uma área de preservação que estava completamente abandonada, incluindo um lago, onde empresas da região despejavam esgoto. “Além de limpar o lago, estamos reflorestando a região com espécimes da mata atlântica e vamos promover atividades de educação ambiental”, afirma Marx. Ainda em fase de obras, o local já possui pistas de caminhada e uma academia ao ar livre com iluminação.

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A mãe de Glauco, Maria Aparecida, 81, a Dona Cidú, ao lado de outros familiares, como o irmão – também cartunista – Pelicano, a esposa Beatriz Galvão, o filho Ipojuca, e o primo, Orlando Cardoso, que lembrou a rápida passagem de Glauco pela imprensa sindical, de 1982 até 1984. “Ao lado do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, ele lutou pelos direitos dos trabalhadores, pela liberdade de imprensa e por uma sociedade mais livre”.

O cartunista Glauco Villas Boas e seu filho, Raoni, foram assassinados em 12 de março de 2010, por Carlos Eduardo Sundfeld, que chegou a ser denunciado por duplo homicídio. Entretanto, laudo mental apontou que ele não tinha condições de responder pelos crimes e a Justiça determinou sua transferência para um hospital psiquiátrico.

Cadú, como é chamado Sundfeld, participou de vários trabalhos do culto do Santo Daime, na igreja de Glauco, mas segundo a viúva do cartunista, Beatriz Galvão, solicitaram seu afastamento quando perceberam que o rapaz apresentava transtornos mentais. “Fazia dois anos que ele não participava dos trabalhos na igreja”, afirma Beatriz.

O fato reacendeu as discussões acerca do uso da bebida em contexto religioso. Chegou-se a questionar, na época do crime, se o fato não estaria ligado ao uso do chá amazônico. Entretanto, pesquisas continuam apontando para outra direção, ou seja, a de que o chá pode ser utilizado também para fins terapêuticos, como no tratamento de depressão e dependência química.

Ayahuasca: bem cultural?

Avança também o debate sobre o chá amazônico em outro campo de discussões - o cultural, por exemplo. Desde 2008, tramita no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural Nacional) um pedido de reconhecimento do uso ritual da ayahuasca como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

A patrimonialização dos usos da ayahuasca é uma ideia que circula há anos entre grupos que utilizam a bebida em seus rituais”, observa a antropóloga Sandra Goulart, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, e coorganizadora do livro “O Uso Ritual das Plantas de Poder”, junto com a antropóloga Beatriz Labate.

A antropóloga participa da produção do Inventário de Referências Culturais dos Usos da Ayahuasca, trabalho necessário para uma avaliação, pelo Iphan, de um eventual registro de bens culturais ligados a essa tradição.

O processo, ainda em fase inicial, prepara um levantamento preliminar bibliográfico e documental sobre o tema. Esse trabalho, composto de outras três etapas, deve resultar em um relatório final que irá identificar, descrever, apontar e sugerir ao Iphan quais aspectos e domínios presentes nas práticas dos grupos detentores do uso da ayahuasca poderiam ser registrados como bens culturais.

“Esse processo do inventário visa apontar os modos pelos quais usos da ayahuasca poderiam ser registrados como patrimônios da cultura nacional, mas quem vai avaliar e decidir ou não pelo registro é o Iphan”, ressalta a antropóloga.

A pesquisadora explica ainda que, mesmo que o registro aconteça, ele não tem um caráter de legalizar ou de garantir direitos legais a nenhum dos grupos ligados a essa tradição cultural.

“O objetivo é o reconhecimento social desses bens dentro da cultura nacional’, diz Goulart. Um dos seus efeitos é trazer mais legitimidade aos grupos que detém os usos da ayahuasca. Depois de alcançado o registro, o trabalho do Iphan vai no sentido de proteger e fomentar esses bens através de várias ações. Trata-se de um esforço de salvaguarda dessa tradição.

Para a antropóloga, um avanço significativo desse processo de patrimonialização dos usos da ayahuasca é o de mudar o foco da discussão sobre o tema. “A ayahuasca deixa de ser discutida apenas como uma questão de psicoativos ou drogas, ou mesmo como relacionada somente a práticas religiosas, para ser pensada como referência cultural significativa da história brasileira, e em particular do contexto amazônico”, coloca a antropóloga.

Cipó da cura

Detentores seculares dos saberes relacionadas às chamadas plantas sagradas, como o chá do santo daime, grupos indígenas foram convidados a participar do debate sobre o registro dos usos da ayahusca como patrimônio cultural brasileiro, mas nem todos estão interessados.

A ayahuasca até hoje é utilizada tradicionalmente por diferentes etnias indígenas de vários países, incluindo o Peru, Equador, Venezuela, Colômbia e Bolívia. O que só eleva a complexidade do processo em trâmite no Iphan.

“Rituais geralmente têm finalidade de diagnosticar e tratar doenças ou de encontrar espíritos”, diz Benki Piyanko, 36, um dos mais jovens pajés entre o povo ashaninka.

Ele vive em uma aldeia em Marechal Taumaturgo, no Acre, fronteira com o Peru. Nas terras ashaninkas localizadas na margem peruana da Amazônia vivem atualmente 99 mil índios, do lado brasileiro estima-se que sejam por volta de 2.300.

O jovem pajé bebe ayahuasca desde os dois anos. “Traz ensinos, curas e revelações de poder”. Por tudo isso, diz ele, é preciso muito cuidado. “Tem que andar direito”, acrescenta.

Ele próprio, de tempos em tempos, permanece recluso por dias se alimentando apenas de vegetais e bebendo o chá diariamente, com o objetivo de fortalecimento físico e espiritual. “Cheguei a ficar isolado por noventa dias, sem contato com ninguém”.

Benki é neto de Samuel Piyanko, que segundo ele, deu a bebida ayahuasca pela primeira vez ao então militar Raimundo Irineu Serra (1892-1971), que logo depois ficaria conhecido como mestre Irineu, fundador do Santo Daime, um dos primeiros cultos religiosos a adotar o chá amazônico. De acordo com o pajé ashaninka, ele permaneceu um tempo em sua aldeia, onde teve uma série de revelações.

Seu avô é citado em um dos primeiros cantos rituais que mestre Irineu criou (o hino ‘Papai Samuel’). “Papai Samuel me chama, para dizer o que queria, para viver eternamente junto à Virgem Maria (...), pisei no primeiro degrau, para seguir com firmeza, dentro do meu coração (...)”, diz a canção.

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