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Gil em Paris

por Alexandre Freitas — publicado 13/04/2011 16h30, última modificação 13/04/2011 16h30
O colunista Alexandre Freitas descreve suas impressões sobre o show de Gilberto Gil, em Paris, num cenário de música clássica, o Théâtre du Chatêlet

“Trocamos olhares longamente no bar do Olympia em um show do Gilberto Gil em 1985. Não nos falamos. Apesar disso me mantive fiel e sei que você é a mulher da minha vida.” Era parte da mensagem fixada na coluna principal da entrada do Théâtre du Chatêlet, em Paris, na noite de sábado, 2 de abril. O camarada descrevia sua aparência física e, nas letras trêmulas em um francês limitado, indicava onde estaria sentado no teatro. Concluía seu texto assim: “Diga-me por favor se está casada ou não para que, se for o caso, eu possa procurar uma outra paixão”. Gil será uma espécie de cupido involuntário caso esse encontro tenha acontecido. Ao lado de Jacques Morelenbaum e seu filho Bem Gil, o baiano era o astro do tradicional teatro parisiense em noite primaveril.

Shows de música popular em cenários de música clássica nem sempre dão certo. O contrário também é verdade. Há pouco fui ver Patti Smith e banda, acompanhado por Phillip Glass, na Salle Pleyel. Não foi fácil para os artistas superarem o peso de um cenário careta e de um público super comportado, todos bem instalados em seus confortáveis assentos. Mas, após longos minutos de batalha, Patti e seus amigos saíram vitoriosos, a ponto de algumas ilustres senhoras parisienses vociferarem: “People have the power!”, no final do show.

Com Gilberto Gil foi diferente. Não houve tensão alguma entre o contexto e sua música. Talvez porque não era muito diferente de assistir a um concerto de música de câmara, como um quarteto de cordas ou uma pequena orquestra sem maestro. No palco, três músicos atentos ao seus próprios sons e aos sons do outro. Alguns comentavam que se tratava de uma proposta minimalista. Não gosto disso. Acho que é uma maneira comum de classificar grosseiramente tudo o que parece comportar poucos elementos. Os arranjos eram econômicos em notas e instrumentação, mas não o eram em dinâmicas, andamentos e muito menos harmonicamente. Tudo tinha sido muito ensaiado e fluía com a naturalidade de quem já nasceu tocando e cantando. Quase nada era plano, no mesmo volume. Os músicos calmamente se olhavam e se escutavam - parece óbvio, mas que é mais raro do que se imagina. Tudo era indispensável. Nada de longos e egocêntricos solos. Nada de efeitos sonoros de pura retórica. O público era seduzido pela canção, com sua pulsão brasileira, e pelo timbre das cordas. Como Gil comentou no começo do show, a noite seria das cordas: vocais, dos violões e do violoncelo do Morelenbaum. Ouvimos Dorival Caymmi, Dominguinhos, Caetano e, é claro, Gilberto Gil.

Saí do show e fui logo mostrar a uma amiga o cartazinho tragicômico do homem que procurava seu amor. Não estava mais lá.