Você está aqui: Página Inicial / Cultura / George Michael: o superstar não leva a vida muito a sério

Cultura

Música

George Michael: o superstar não leva a vida muito a sério

por The Observer — publicado 23/03/2014 08h00, última modificação 23/03/2014 08h08
Aos 50 anos, após sofrer decepções românticas e esbarrar com a morte pelo menos duas, o astro volta à cena com novo álbum
Reprodução
george michael

Novo álbum marca os 50 anos do cantor

Por Vanessa Thorpe

Ao longo dos anos, um sabotador cuidadoso está em ação, minando a reluzente carreira de George Michael no show business. Usando frequentemente a cobertura da noite, mas às vezes declarando-se ousadamente em plena luz do dia, uma alma determinada vem fazendo o máximo para derrubar o superstar. Não há prêmios para apontar que sim, o próprio Michael muitas vezes parecia decidido a fazer seu próprio sucesso sair da estrada, como um Range Rover topo de linha descontrolado com uma celebridade cochilando ao volante.

Até agora, Michael, ainda um artista global de primeira linha, com vendas totais de mais de 100 milhões de discos, foi denunciado depois de um "ato obsceno" em um banheiro público em Los Angeles em 1998, parado por uma série de infrações de trânsito – que levaram a um período em uma cadeia britânica –, advertido e multado por posse de drogas e ignominiosamente caçado pela polícia por procurar sexo em banheiros públicos em Hampstead Heath. Ele também sofreu decepções românticas mais de uma vez e nos últimos três anos enfrentou a morte pelo menos duas, primeiro durante um surto de pneumonia devastador e depois em um feio acidente de carro.

Apesar da dor envolvido na maioria desses acontecimentos, o público (e a imprensa) geralmente achou bastante fácil caçoar dos traumas de Michael. Isso acontece em parte porque ele é um homem muito rico, por isso é considerado jogo justo, e em parte porque ele raramente parece levar a sério suas travessuras particulares. Ele não pede nossa simpatia e assim, de modo geral, o mundo se preparou para perdoá-lo – e até se importar com ele.

Hoje com 50 anos e um novo álbum lançado na segunda-feira, Michael voltou. Após um período de relativa tranquilidade neste país enquanto completava os espetáculos na Europa que ele teve de cancelar por causa da doença, o astro está pronto para encantar os fãs novamente com Symphonica, um álbum ao vivo – outro de estúdio deverá sair ainda este ano – que marca seu giro glamoroso por teatros de ópera e de concerto e é seu primeiro lançamento de peso em uma década.

As fotos elegantes que acompanham o lançamento do álbum mostram Michael entre balaustradas e candelabros dourados do teatro de ópera Palais Garnier em Paris, descontraído e à vontade no mundo das celebridades, brincalhão e exigente. É uma imagem que Michael moldou em colaboração com a fotógrafa Caroline True, uma velha amiga.

"Ele é um cara bonito e eu sei como ele gosta de aparecer", disse True no último fim de semana. Ele tem uma predileção pelas fotos que o fazem parecer duro, com um olhar de vidro, como um misterioso conde europeu. True, por sua vez, prefere as mais divertidas: "Ele fica ótimo quando está rindo ou sorrindo".

Michael trabalhou no álbum com o falecido e reverenciado Phil Ramone. Michael desejava que ele soasse como as gravações clássicas ao vivo da era dourada do cabaré, talvez com um toque de um show de Piaf, Garland ou Sinatra. Seus tuítes no mês passado mostram que ele acreditava que as rádios não tinham captado a mensagem. "A rádio não quer mais tocar qualquer faixa ao vivo em sua programação", ele se queixou.

Como cabe a um grande astro pop com algumas milhas rodadas, Michael, nascido Georgios Kyriacos Panayiotou no norte de Londres em 1963, foi responsável por vários momentos inesquecíveis na cultura contemporânea. Certamente, a visão dele saltando com Andrew Ridgeley na dupla pop Wham! faz parte da memória coletiva do início dos anos 1980. Depois disso veio a que é provavelmente sua canção mais conhecida, Careless Whisper, e uma carreira solo, fase que viu um Michael pensativo, de óculos escuros e mechas louras esvoaçantes.

Depois de seu primeiro álbum solo, Faith, em 1987, surgiu um artista mais de vanguarda. O single I Want Your Sex foi proibido por algumas rádios por sua letra explícita. Então Michael atacou a indústria da música na forma da Sony e acabou pagando 6 milhões de libras em custos em 1994 depois que não conseguiu se livrar de um contrato de gravação. Mais tarde anunciou que só lançaria sua música na Internet, de graça. Ele disse que já tinha ganho dinheiro suficiente. Adotou várias causas de caridade, muitas vezes levantando fundos para a pesquisa da Aids. "Embora tenha se tornado um verdadeiro clichê ver músicos trabalhando por caridade, ainda é eficaz e ainda tem de ser feito", disse ele.

Desde que foi revelado como homossexual, Michael atacou habitualmente o interesse da mídia por sua sexualidade oferecendo quase que informação demais. O vídeo de sua faixa Outside de 1998 fazia uma referência paródica direta a sua detenção em Los Angeles e hoje, se você o encontrar em Hampstead Heath à noite, é provável que ele acene e diga: "Saí só para uma trepadinha".

Nos últimos anos, as fotos em tabloides de Michael atirado sobre o painel deu um 4x4 tenderam a ser mais importantes que sua carreira musical. No entanto, o infortúnio aumentou em 2011 quando a pneumonia o atacou durante uma turnê e ele foi hospitalizado em Viena.

"Ficamos muito preocupados. Ele teve a pior pneumonia que alguém pode ter", disse True. "Para um cantor, a coisa mais assustadora é ter os pulmões afetados. Depois voltar e cantar como ele fez nas demais datas, soando ainda melhor, se possível."

Junto ao seu leito durante a doença estiveram suas irmãs, Melanie e Yioda, e seu pai viúvo, o ex-dono de restaurante conhecido como Jack Panos, e o namorado de Michael, o cabeleireiro Fadi Fawaz, de 38 anos.

Na recuperação, o cantor tipicamente minou a simpatia do público ao dizer aos ouvintes da rádio LBC que enquanto esteve no hospital falou durante dois dias com "esse sotaque vagamente de Bristol". Suas irmãs, disse ele, temeram que ele falasse assim pelo resto da vida. "Não que haja alguma coisa errada com o sotaque da região oeste – mas é um pouco estranho quando você vem do norte de Londres."

A capacidade de Michael de rir de si mesmo também ficou evidente em um arriscado esquete da organização de combate à pobreza Comic Relief, que ele fez com James Corden. Em 2010 ele fez brincadeiras sobre sugestões de seu imaginado sofrimento durante as semanas passadas na prisão, dizendo que "não houve lágrimas, nem ansiedade, e nem bullying – na verdade, não passei uma noite sem dormir... pelo contrário, fui tratado com bondade pelos colegas detentos e a equipe da prisão também e, que eu me lembre, não recebi tratamento especial de qualquer tipo, a não ser, claro, alguns dos caras aqui me deixam ganhar na sinuca".

Sua ágil apresentação na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de 2012 desmentiram sua famosa letra "pés culpados não têm ritmo", enquanto ele entretinha a enorme multidão com sua canção de sucesso Freedom e de maneira polêmica usou a plataforma para lançar seu último single, White Light.

Michael, que em 2010 anunciou o fim de seu longo relacionamento com Kenny Goss, um negociante de arte norte-americano que havia morado em sua casa em Highgate, no norte de Londres, tinha mais dificuldades à espera no ano passado. Em maio ele teria caído do banco de passageiros de seu carro na rodovia M1 e foi levado de helicóptero para o hospital, onde passou dez dias. Quando voltou ao Twitter este ano, achou que precisava tranquilizar seus fãs: "Primeiro, só posso pedir desculpas do fundo do coração por preocupar vocês por tanto tempo com meu silêncio. Basta dizer que 2013 foi um ano que eu estou feliz de deixar para trás e espero que vocês possam me perdoar por isso".

Segundo Michael, sua carreira tem sido principalmente sobre o ego. Lembrando seus dias em Bushey Meads planejando seu caminho para a fama com seu colega de escola Ridgeley, ele disse certa vez: "Eu queria ser amado. Era uma coisa de satisfação do ego". De fato, ele também afirmou que todo o negócio da música "é construído sobre o ego, vaidade, autossatisfação, e é uma merda total fingir que não é".

Para sua amiga True, Michael é muito mais que um exibicionista talentoso: "Ele é um perfeccionista com visão de 360 graus. Ele sabe o que quer como artista. Ele compõe, ouve as melodias, se apresenta e produz. E sabe editar um vídeo".

Em uma entrevista em 2009 ao Guardian, Michael sugeriu que se sentia mais feliz agora que não tinha mais de fingir ser perfeito. Ele até sugeriu uma inveja passageira de Ridgeley, que escapou do olhar do público para viver semirrecluso no norte da Cornualha com os royalties da canção Careless Whisper.

Michael claramente tem um instinto de eremita em algum lugar, descrevendo sua casa em Highgate como uma prisão ocasional, sitiada por fãs à espreita. Mas de maneira reveladora todo Natal ele paga discretamente para enfeitar uma grande árvore no terreno comum diante de sua casa com muitos cordões de luzinhas.

registrado em: