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Menalton Braff

Gente é gente

por Redação Carta Capital — publicado 28/02/2012 16h06, última modificação 06/06/2015 18h22
Há quem fique indiferente ao ver uma criança morrendo e não suporte o sofrimento de caninos; mas bicho é apenas bicho

Por Menalton Braff

Em fins do século XIX, houve uma escola literária que tinha como característica, entre outras, a zoomorfização. O ser humano era reduzido à sua animalidade. Aluísio Azevedo, o maior representante dessa corrente entre nós, descrevendo o amanhecer do cortiço, escreve “...os homens, esses não se preocupavam em molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas ...”

Durante o curto período que durou o governo Collor, seu ministro do trabalho, Rogério Magri, viajou para a Suíça a fim de participar de um congresso de sua área. Um jornalista brasileiro flagrou-o passeando com seu cachorro, tranquilamente como se estivesse em viagem de recreio. Perguntado sobre a razão de ter levado seu cão, com a maior naturalidade o ministro respondeu: "Ora, mas cachorro também é gente".

Pronto, estava inaugurado o período da antropomorfização. Invertiam-se, a partir daquele momento, as tendências. Não sei por que razão, mas é fato que qualquer cidadão por mais distraído que seja pode comprovar com os fatos sociais. É prova empírica, por enquanto, eu sei, mas acredito que em breve, muito breve, surgirão as dissertações de mestrado, as teses de doutorado, as pesquisas de cunho científico, com estatísticas e todo o arsenal da metodologia científica, para que tenhamos de aceitar como fatos sociais cientificamente comprovados. Agora, contrariando o Naturalismo, os animais começam a ser elevados à condição humana. E isso tudo terá começado com um ministro do governo federal de quem muito pouca gente ainda se lembra.

Outro dia um papagaio fugiu de sua família, ninguém sabe por quê. Presumo que seja por razões de incompatibilidade. Pelo que revelam as notícias de jornal, eram pessoas bastante aborrecidas. São três pessoas inconsoláveis. A mulher disse que era a mãe do louro, enquanto derramava lágrimas quentes que lhe inundavam os peitos avantajados, de mãe que amamenta. Seu outro filho (o primeiro era o papagaio), com toda a aparência de ser humano, disse que o louro era seu irmão. E eu acredito. Ótimo. Que se elejam seres exóticos para o próprio parentesco, até aí ninguém tem nada com isso. Cada um escolhe o que quiser. Quem foi que disse que parente não se escolhe? Neste caso nem preciso da ciência para acreditar que é um caso nítido de escolha. O estranho, nisto tudo, é o fato virar notícia. Um papagaio foge e vira notícia?! Com direito a manchete e matéria de página central inteira?

Já vi adolescentes do sexo feminino beijando (mas beijo de língua, entendeu?) seus caninos, que, por enquanto, ainda fazem com a língua a limpeza pós-dejeção excrementícia.

Conheço muita gente que pode ver uma criança morrendo na rua, com total indiferença, mas não suporta que seus irmãos caninos sofram qualquer tipo de carência. Hospitais, cemitérios, lojas chiques, alimentação, restaurante e muito mais, tudo para cães. É ou não é verdade? Fora os casos (dezenas) que num ano só frequentaram os noticiosos jornalísticos de cães que mataram e feriram gravemente pessoas e nada aconteceu. Claro, agora todos se põem de acordo que animal não tem culpa, ele não está dentro da área propriamente moral passível de julgamento. Mas seus donos não escapam ao cerco da moralidade, nem por isso sofrem qualquer punição. É lógico, e aqui começa a confusão: seres humanos zoomorfizados fogem às exigências do comportamento moral. Então como julgá-los?

Tudo isso me faz lembrar uma propaganda já meio antiga, mas muito forte, em que é mostrado um grupo de crianças miseráveis, aparecendo por cima do grupo um letreiro: CRIANÇA TAMBÉM É BICHO.

Espero que chegue o dia em que não se cometam mais essas confusões, o dia em que gente será considerada gente; e bicho, ora bolas, apenas bicho.

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