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Marcio Alemão

Gastronomia: O inferno e o paraíso

por Marcio Alemão publicado 15/10/2011 12h46, última modificação 06/06/2015 18h15
Entre me afogar nas salsichas com molho e mergulhar a torrada no ovo quente, adivinhe o que me leva ao céu? Por Marcio Alemão
Gastronomia: O inferno e o paraíso

Entre me afogar nas salsichas com molho e mergulhar a torrada no ovo quente, adivinhe o que me leva ao céu?. Por Marcio Alemão. Ilustração: Ricardo Papp

Uma leitora me confessou, através de e-mail, que também já sucumbiu à coxinha com Coca-Cola no café da manhã, e que chega a fazer do pastel de feira uma alternativa habitual. Havia me esquecido: eu também tenho enorme dificuldade para resistir a um pastel ao raiar do dia. Vou além. Não chego a sentir um milímetro de culpa, posto que, antes de me acomodar na barraca do alimento proibido, faço toda a feira. Compro frutas, legumes e verduras, o que de certa forma me redime. Sinto-me equilibrado, pronto para mandar bala em uma fritura.

Houve um tempo, acreditem, em que dei uma radicalizada forte. Há poucas semanas comentei sobre esses desvarios que nos acometem em certos momentos incertos da vida. Pois foi durante um desses prolongados delírios que cheguei a comer pasta de arroz integral pela manhã. Uma nutricionista conhecida minha, ao saber, ficou com os olhos cheios d’água e me perguntou: “E você não está se sentindo muito, mas muito melhor?”

Esse momento me trouxe à memória dezenas de outros, semelhantes. Com minha coluna vertebral capenga desde sempre, constantes eram as recomendações que me passavam: “O Gilmar, sim! Ele tira com as mãos. Lá esteve o Décio, que há 79 anos sentia uma dor insuportável no ciático e nada resolvia. Tentou tudo... e nada. E não é que em uma sessão o Gilmar tirou a dor do Décio, que voltou a jogar futebol no dia seguinte?!”

Frequentei dezenas de “Gilmares”, que, ao final das sessões, usavam textos muito semelhantes: “Rapaz! A coisa aí tava feia! Nem sei como você tava andando. Mas agora coloquei tudo no lugar. Tá melhor ou não?” Católico que sou, temo que serei cobrado por ter mentido para todos eles: “Incrível! Me sinto muito melhor. Passou tudo”. A porta se fechava atrás de mim e lá seguia eu, curvado, com mais dor. Idem, idem com a pergunta da nutricionista. Sim, me sinto glorioso após matar uma tigelinha de papa de arroz integral. Me sinto pronto para conquistar o mundo, matar um leão e comer um fígado de soja, e com serenidade, claro.

Citei os bufês, os cafés da manhã de bons hotéis. Coisa rara é encontrar os ovos mexidos no ponto. A tal lama branca que mencionei na semana passada é a mais comum. E as salsichas com molho de tomate acebolado? Aquilo sim tem cara de final dos tempos. É uma das cenas que eu imagino ver quando soarem as trombetas do apocalipse. Almas desesperadas se afogando em salsichas com molho e implorando misericórdia. Sujeito que bate uma pratada daquilo deveria deixar um bilhete ao lado do prato explicando a razão do suicídio.

Tapioca é um quitute que caminha na direção oposta. Gostei quando vi que a singela panqueca de mandioca servida com queijo de coalho ganhou todos os estados do Brasil. Mesmo pura, com pouca manteiga, é uma alternativa muito mais saudável e saborosa que pães malfeitos, lotadinhos de bromato. Agora, fala sério, precisa colocar Nutella na tapioca? Eu ainda não vi tapioca com cheddar, mas há de ter.

Não falei dos ovos quentes? Minha refeição predileta em um café da manhã. Arrancar a “tampinha”, acrescentar um pouco de sal e ir mergulhando bastões de torrada. Se houver inspiração e dinheiro, uma colher de ovas de salmão ou do famoso esturjão o levará às alturas. Se você estiver faminto, sugiro que prepare logo dois ou três ovos e faça como minha mãe costumava fazer. Pique um pãozinho francês em um copo grande. Abra os ovos sobre os pães e misture. Faça isso escondido, porque não chega a ser uma mistura bonita de se ver. Ou faça dentro de uma xícara.

E para deixar claro que não sou totalmente vira-lata, sugiro algo que deve ser feito antes de sua partida deste mundo. Em algum momento, vá para o Piemonte em outubro/novembro. Peça alguns ovos quentes, retire a tampinha, rale sobre eles trufas brancas e você terá a sensação muito próxima do que pode vir a ser o paraíso.  •