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Crônica do Villas

Garota do Barbalho

por Alberto Villas publicado 17/09/2015 15h23
Você não imagina o sucesso que uma calça americana fazia
Wikimedia Commons
Jeans Levis

O sonho de consumo era uma "calça americana". Antes, ninguém falava jeans

Morei em casa durante os meus vinte e dois primeiros anos. Casa grande, espaçosa, com  parreiras, laranjeiras e ameixeiras no quintal. Tinha banheiro com banheira, galinheiro, escritório, dispensa, até copa com uma pia para lavarmos as mãos antes das refeições tinha.

O mundo era diferente, até os ladrões eram outros. Era um tempo em que o tênis era Bamba, a camisa era desbotada com água sanitária, a cueca era Zorba, Nescau tinha gosto de festa, só Esso dava ao seu carro o máximo e o sonho de consumo era uma calça americana.

Ninguém falava jeans, era calça americana, porque vinha da América do Norte, trazida por algum parente rico ou de contrabando. A gente dizia calça Lee, mesmo que ela fosse Levis.

Na minha casa, quando caia a noite, a preocupação da minha mãe era recolher do varal a calça americana. Se não recolhesse, corria o risco de ser roubada. Os ladrões ficavam de olho no quintal e se tivesse uma calça americana quarando ou secando, não hesitavam em pular o muro e surrupiar aquele objeto do desejo, deles também.

A primeira que ganhei foi do meu pai. Ele  trouxe dos States, em 1968, quando Bob Kennedy foi assassinado. Lembro disso porque ele estava lá quando Sirhan Bishara Sirhan disparou um tiro na cabeça do provável futuro presidente americano, na porta do Hotel Ambassador, em Los Angeles.

Quando voltou, depois de contar algumas peripécias enquanto trabalhou no país do Tio Sam, ele começou a abrir as malas e a distribuir os presentes. Para mim, ele trouxe, além do disco de vinil The Papas & The Mamas, dos Mamas & Papas, uma calça americana. Legítima!

Lembro-me até hoje que era uma calça dura feito um pedaço de pau e  com uma etiqueta de couro escrito Lee. Só depois de lavar umas dez vezes que ela começava a amolecer. Ele trouxe uma pra mim e uma pro meu irmão e aquilo foi um acontecimento em Belo Horizonte, porque ali no bairro do Carmo, ninguém tinha uma calça americana como aquela.

Ela era bem comprida mas minha mãe não deu bainha porque eu queria assim mesmo, dobrada em baixo, o chique do momento.

Meu pai contou que custou um punhado de dólares e que ele tirou a outra etiqueta, uma etiqueta de papel, grande, que cobria todo o bolso traseiro, porque senão corria o risco de ser barrada na alfândega.

A primeira vez que usei aquela calça americana foi no aniversário de quinze anos da minha irmã. Ela fez um sucesso danado mas mesmo assim não conquistei Suzana.

Lembro-me que ela durou anos e anos. Com o passar do tempo foi ficando desbotada e esse era o barato. Uma calça americana e ainda por cima desbotada, era tudo.

Muitos anos depois, Gilberto Gil compôs uma canção chamada Tradição, em que ele dizia assim:

No tempo que eu era menino


Menino que eu era e veja que eu já reparava


Numa garota do Barbalho

Reparava tanto que acabei já reparando

No rapaz que ela namorava


Reparei que o rapaz era muito inteligente


Um rapaz muito diferente


Inteligente no jeito de pongar no bonde


E diferente pelo tipo


De camisa aberta e certa calça americana


Arranjada de contrabando

Foi ai que percebi que talvez eu não conquistei Suzana naquele sábado, 26 de outubro de 1968, porque eu era apenas um garoto do bairro do Carmo e não um garoto do Barbalho.

[O Barbalho é um bairro de classe média, em Salvador. O nome é uma homenagem a Luiz Barbalho Bezerra, que era dono da maior parte das terras do bairro.]