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Futebol de rua

por Morena Madureira — publicado 24/09/2010 11h23, última modificação 24/09/2010 11h25
O Rio de Janeiro sedia a Copa do Mundo de seleções formadas por sem-teto

O Rio de Janeiro sedia a Copa do Mundo de seleções formadas por sem-teto

Haiti, palestina e Camboja em um campeonato mundial de futebol no Rio de Janeiro? Não se trata da Copa da Fifa, com seus cartolas obscuros e patrocínios milionários. Entre 19 e 26 de setembro, a praia de Copacabana recebe a oitava edição da Homeless World Cup, ou Campeo-nato Mundial de Futebol Social, e para disputá-lo não é preciso passar por eliminatórias nem ter tradição futebolística. Basta que os jogadores tenham mais de 16 anos e um histórico recente de situação de risco social, como falta de moradia e tratamento para dependência em álcool e drogas. Serão 64 países, entre seleções masculinas e femininas. E, ao fim da disputa, não há perdedores.

“A Homeless World Cup está criando um nível de mudança nos jovens em situação de risco social nunca visto antes. É uma oportunidade de saírem das margens para o centro das cidades em um palco global, onde eles representam seus países”, afirma Mel Young, fundador e presidente do torneio, criado em 2001. Na ocasião, Young, que havia implantado com sucesso na Escócia a revista The Big Issue – publicação produzida e vendida por sem-teto que inspirou a brasileira Ocas – resolveu, em parceria com o amigo Harald Schmied, lançar um projeto que reunisse moradores de rua do mundo todo. Encontrou no futebol a “linguagem universal” necessária. A primeira edição aconteceu em 2003, em Graz, na Áustria: 18 seleções participaram do torneio.

Desde então, o número de seleções triplicou. A exemplo da Copa da Fifa, o Brasil  participou de todas as edições. As equipes vinham sendo coordenadas pela própria  Ocas, por meio da ONG Futebol Social. Em 2010, a organização tornou-se independente e passou a ser responsável pelas escalações. “A ONG atua por meio de torneios regionais com a participação de diferentes populações excluídas, de rua, de periferia e de favelas. A intenção é agregar quilombolas e indígenas”, afirma Guilherme Araújo, presidente da ONG. A partir de 2008, a seleção deixou de ser feita entre vendedores da Ocas e concentrou-se em jovens que integram projetos sociais em vários estados do País.

“Houve uma mudança no mundial, que antes era orientado apenas à população de rua, e deixamos de treinar os vendedores, porque havia uma expectativa entre os times europeus com relação ao Brasil que não estava sendo correspondida. Nosso trabalho era focado no social”, explica Pupo Ribeiro, técnico da seleção canarinho há seis anos.

A escolha dos jogadores é feita inicialmente por critérios futebolísticos, para só depois ser avaliada a condição de vida de cada convocado, que pode ser descartado da equipe, caso não comprove- ter -passado por dificuldades nos últimos meses. Depois de participarem de torneios estaduais, os jovens disputam o Campeonato Brasileiro de Futebol Social.

Cada time tem oito jogadores – quatro são titulares. Os atletas em campo não podem pisar nem na própria área nem na do adversário. Em volta da quadra, que tem 22 metros de extensão por 16 de largura, há uma rede de proteção de 1,10 metro, que impede a bola de sair de campo. Cada jogo tem dois tempos de 7 minutos, com 1 de intervalo. “Nunca vi essas regras no Brasil. Mas acho que o número de atletas foi reduzido, porque muitos países não têm condições de levar muita gente para jogar fora de casa e assim é possível abranger mais seleções”, pondera Ribeiro.

Sede da edição 2010 do campeonato, o Brasil vai ter pela primeira vez uma equipe masculina e outra feminina, comandada por Alexandre Mathias. Mas jogar em seu país não faz das equipes necessariamente favoritas, acredita o técnico Pupo. “Cada ano é uma incógnita, as seleções mudam, os europeus sempre vieram com força nesses últimos anos”, avalia. No ranking da Homeless World Cup, o Brasil desponta na terceira colocação, posição conquistada no último torneio, realizado em Milão, quando teve seu ótimo desempenho. Apesar de ter levado o bronze, foi eleito como o de melhor campanha, com apenas uma derrota em 13 jogos. “A cada ano temos uma evolução muito grande, mas o mais importante é esse lado social, essa alavanca que o campeonato representa para os jovens.”

Araújo ressalta: levar os jogadores ao Mundial não é o principal objetivo do Futebol Social. “O que motiva os jovens é o futebol e a possibilidade de participar dos torneios, mas a ideia é utilizar essa motivação para ir além e promover a formação deles.” De acordo com dados dos organizadores da competição, é grande o número dos que veem suas vidas transformadas após participar da competição. “Mais de 70% dos jogadores mudam suas vidas ao largarem as drogas, conseguirem emprego, educação e moradia ou até se tornarem atletas e técnicos de times profissionais ou semiprofissionais”, explica Mel Young.

É o caso da brasileira Michele Silva, de 20 anos, que em 2007 defendeu o Brasil em Copenhague. Eleita a melhor jogadora daquela edição, foi contratada pelo América e em seguida convidada para integrar a Seleção Brasileira Feminina Sub-20, com a qual disputou a copa da categoria realizada neste ano na Alemanha. A menina, que cresceu na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, vive hoje em Araraquara, onde joga pela Ferroviária. “O campeonato fez com que eu ficasse mais conhecida e tivesse mais oportunidades na vida.”

Outro aspecto importante é que a cada ano é deixado um legado para o país-sede da competição. No Brasil estão sendo implantados dois projetos, um centro de convivência no bairro de menor IDH do Rio de Janeiro, Santa Cruz, e uma minifábrica de produtos feitos a partir de resíduos da Nike, uma das patrocinadoras do torneio, em São Paulo. “Esse não deixa de ser um bom exemplo para outros eventos esportivos que acontecerão no Brasil e que movimentam muito mais recursos. Se  conseguimos deixar esse legado, por que eles não?”, pergunta Young.