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Cultura

Cariocas quase sempre

Frio no Rio

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 23/08/2010 14h52, última modificação 23/08/2010 14h52
Há muitas histórias de invernos estivais cariocas e não sobre a Sibéria desses últimos dias

Nos últimos dias, quem gosta de frio não pôde reclamar. Coube à imensa turma dos cariocas viciados em calor e sol os protestos pelos dias chuvosos e de temperatura baixa.

Baixa, para os padrões de uma cidade que só se reconhece no verão, ou em outra estação, desde que esta tenha a cara daquela. Ou seja: sem sol e calor parece que o Rio é menos.

Temos de admitir que a afirmação não está longe de uma verdade. Há muitas histórias de invernos estivais cariocas e não sobre a Sibéria desses últimos diasHá muitas histórias de invernos estivais cariocas e não sobre a Sibéria desses últimos dias; o mar fica pesado com o céu cinza e as montanhas perdem o seu poder de assombrar pela beleza, se cobertas por nuvens baixas e densas.

E quem achar que uns ares de Londres fazem bem para o Rio, que trate de ficar calado ou escolha bem a hora e o lugar para dizer tamanho vitupério. Esta semana, um repórter de rádio ao comentar o tempo “ruim” que fazia na cidade escorregou na sua preferência pelos calores do verão e acabou entregando o âncora.

Este, por gostar de frio, foi questionado ao vivo se era ou não carioca da gema. “Carioquíssimo” – admitiu meio sem graça –, “só que eu nasci com jeito de pinguim, o que é que eu posso fazer?”. Se não nos enganamos muito, o cara perdeu alguns admiradores nessa hora.

Há muitas histórias de invernos estivais cariocas e não sobre a Sibéria desses últimos dias. No Rio, hóspede de Cacá Diegues e Nara Leão, no Leblon, num mês de agosto, o cantor Sacha Distel chegou da praia de um dia de exportação. Pediu para falar com Paris: - “Fulano, me diga qual foi a temperatura daí, hoje? 19 graus? Bem, aqui é inverno e está fazendo 27 graus. Estava na praia...” Saque-se que em Paris era verão.

E como gostava de contar Fernando Sabino, ao tempo em que foi Adido Cultural na Inglaterra: - “Os londrinos adoram quando o verão cai num domingo.” Já os cariocas detestam quando inverno aparece num fim de semana.

Saudade da Colombo Quando a noite chega, um dos lugares mais charmosos de Copacabana, o prédio da antiga Confeitaria Colombo – na Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Rua Barão de Ipanema - que há cerca de duas décadas deu lugar à “agência Colombo do Banco do Brasil”, é um conhecido ponto de encontro de marginais e de atividades marginais no bairro.

Tudo acontece nas barbas das autoridades. É sabido que também na calçada oposta da transversal os proprietários de uma padaria lutam há muito para afastar pedintes e menores usuários de crack e outras drogas.

As marquises do mal conservado prédio da ex-Colombo servem de abrigo para mendigos, drogados e desocupados que transformam as calçadas em dormitórios, acampamentos e em banheiros públicos. Não é raro, às sete da noite, os pedestres terem de desviar dos filetes de xixi que escorrem calçada afora. Enquanto isso, os frequentadores da marquise conversam animadamente e dizem coisas desagradáveis a quem lhes negue esmola.

A esquina, que também é frequentada por um grupo fixo de ambulantes, parece não abrigar um banco que oferece serviços eletrônicos por 24 horas e que reúne o maior contigente de clientes idosos de Copacabana. A esquina da Barão com a Nossa Senhora vê se apagar a cada dia uma das mais belas histórias daquela que foi a Princesinha do Mar: a dignidade arquitetônica da ex-Colombo.

República Farroupilha? Por que cargas dágua, podem explicar o motivo, quando o Internacional de Porto Alegre, merecido vencedor da Libertadores, joga em casa, no Beira-Rio, pelo Campeonato Brasileiro, o hino que se escuta – com os dois times perfilados – é o do Rio Grande do Sul e não o Hino Nacional?