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Formar e contestar

por André Carvalho — publicado 03/05/2011 17h40, última modificação 03/05/2011 17h40
O italiano Fanfulla, junto a outros jornais produzidos por imigrantes em São Paulo no início do século XX, integrava-se a uma mídia amparada em boas gráficas e redações profissionais

A IMPRENSA IMIGRANTE

Marcelo Cintra de Souza
Imprensa Oficial, 144 págs., R$ 30

Se à imprensa cabe retratar a sociedade em que está inserida, ainda mais relevante era a função dos jornais nas comunidades imigrantes em São Paulo no século XIX. Além de informar, eles preservavam a cultura de uma comunidade e propunham debates. No início do século XX, publicações como Fanfulla, Deutsche Zeitung, Diário Español, Al Faiáh, Shukan Nambei e Nipak Shinbum se destacavam nas bancas ao lado de jornais da grande imprensa.

Um século depois, um estudo sobre essas publicações recupera sua ação mobilizadora, em prol dos operários ou contra o fascismo. Fruto de pesquisa para a exposição A Imprensa Imigrante em São Paulo, realizada entre 2009 e 2010 no Memorial do Imigrante, o livro A Imprensa Imigrante – Trajetória da imprensa das comunidades imigrantes em São Paulo traz farta iconografia desde os primeiros periódicos até os dias atuais.

Avanços tecnológicos foram trazidos pelos europeus, principalmente alemães, que dominaram o mercado gráfico brasileiro no início do século XX. E os jornais escritos na língua natal dos imigrantes eram utilizados em escolas para alfabetização. “A imprensa socializava, mas ao mesmo tempo mantinha a identidade das comunidades”, diz o autor Marcelo Cintra de Souza.

Cada núcleo trazia suas peculiaridades. Os operários italianos, por exemplo, criaram a imprensa operária e trouxeram as ideias anarquistas. Seus jornais convocavam greves e denunciavam abusos dos patrões. Em geral, essa imprensa pouco durava, mas cumpria seu papel transformador da sociedade brasileira. De 1866 até a década de 1920, quando o movimento perdeu força com a repressão estatal, duas publicações anuais eram lançadas, em média, pelos operários. A mais importante delas foi La Battaglia.

A imprensa imigrante sofreu um grande golpe quando, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas limitou manifestações estrangeiras. “Dizia-se que era uma questão de preservar a identidade brasileira. Além da imprensa, igrejas e escolas foram proibidas de utilizar a língua natal.” Passado o golpe, alguns jornais voltaram a produzir conteúdo escrito nas línguas nativas. Atualmente, circulam em São Paulo cerca de 40 publicações voltadas às comunidades imigrantes, com tiragem de 500 mil exemplares.