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Cultura

Ficção experimental

Florescer é possível

por The Observer — publicado 07/08/2010 12h00, última modificação 06/08/2010 16h12
Na literatura, o realismo lírico dá lugar a experimentação

Na literatura, o realismo lírico dá lugar a experimentação

Por  William Skindelshy

Alguns anos atrás, Zadie Smith escreveu um ensaio na New York Review of Books com título Dois Caminhos para a Novela, onde comparava dois livros como exemplos de linhas concorrentes na literatura ocidental. Um era uma novela “realista lírica” no molde de Balzac e Flaubert, enquanto o outro era herdeiro das obras de experimentalistas do século XX que vão de Joyce e Kafka a  William Gaddis.
Em tempos saudáveis, disse Smith, essas duas tradições – a realista e a vanguardista – coexistiriam confortavelmente. Mas “estes não são tempos especialmente saudáveis” e uma razão disso é que a tradição experimentalista foi “relegada a um canto seguro da história literária”, rejeitada como um “fracasso fascinante”. Como diz Smith, “uma espécie de realismo lírico tem a estrada livre há algum tempo já, com a maioria das outras saídas bloqueadas”. Para que nossa cultura literária se reequilibre, sugeriu ela, mais escritores precisam seguir Tom McCarthy na tentativa de criar romances que tentem desafiar o modo realista dominante.
Quer se concorde quer não com sua avaliação, é difícil discutir a afirmação de Smith de que a ficção de vanguarda, ao menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, não está florescendo. Na Grã-Bretanha, que tem tradição em experimentação literária, não há muito sentido em lamentar a morte da vanguarda.
Como notou Smith, uma espécie de fatalismo penetrou nossa cultura literária, um sentido de que todos os outros caminhos foram testados e considerados insuficientes. A novela realista bem-feita, herdada do século XIX, é onde estamos empacados hoje, e mesmo que não a apreciemos muito parece ser só o que temos.
Mas será mesmo? A suposição de que a experimentação genuína não é mais possível é, de muitas maneiras, uma peculiaridade paroquial do mundo anglófono. As coisas são muito diferentes, por exemplo, na América Latina, onde as técnicas antirrealistas há muito fazem parte da corrente dominante, e onde os recentes sucessos de autores como Roberto Bolaño e Cesar Aira mostram que os romancistas ainda podem ser aplaudidos por tentar novos caminhos.
Neste mês existe um duplo lembrete de que a experimentação ainda é possível, com a publicação do novo romance de Tom McCarthy, C, e as Collected Stories da autora e tradutora americana Lydia Davis (ainda inéditos no Brasil). Em suas maneiras diferentes, os dois escritores nos ajudam a ver que, no que se refere à ficção, é errado supor que deve haver limites para o possível. Mesmo que, como diz Zadie Smith, o realismo lírico hoje tenha a estrada aberta, ainda há alguns caminhos fugidios que outros poderiam seguir.