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Flip: a gota d’água

por Bruno Huberman — publicado 06/08/2010 13h00, última modificação 06/08/2010 16h06
Festa Literária Internacional de Paraty deste ano diminui espaço para a literatura e vê indignação de escritores

Festa Literária Internacional de Paraty deste ano diminui espaço para a literatura e vê indignação de escritores

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), conhecida como o maior e mais importante encontro literário do Brasil, em sua edição de 2010 parece ter se desvirtuado. Pela primeira vez em sete edições, um autor que não dedica a sua obra à ficção será homenageado. Postumamente, o sociólogo Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, é o protagonista em Paraty.

Contudo, não é só o homenageado o motivo de revolta da classe literária nativa. De todos os convidados, apenas sete são escritores de ficção. E destes, apenas uma é estreante em Paraty, a autora Carola Saavedra, que lança Paisagem com dromedário na Festa.

Este foi o primeiro ano em que um número maior de pessoas ligadas ao âmbito literário passou a se mostrar publicamente contra os rumos da Flip. A discussão começou quando o “agitador cultural”, escritor e entusiasta do evento Marcelino Freire disse que não iria para a edição deste ano em seu perfil na rede de microblogs Twitter.

Em seu blog, Freire narra toda a saga que o levou a não ir a Paraty. Marcelino não foi um dos convidados e na hora de reservar pousada, organizar toda a viagem, acabou desistindo. “Por mais boa-vontade que eu tenho, não entendo a presença do ex-presidente abrindo os trabalhos da Festa. Logo ele, que nunca gostou do Freyre. Em ano de eleição?”.

O tom assumido pela Flip também já afastou o baiano João Ubaldo Ribeiro, que boicotou a edição de 2004 sob a queixa de que se tratava de um evento voltado para autores da Companhia das Letras. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo desta quarta-feira 4 mostra que os autores convidados para a Flip registram aumento das vendas após participarem da Festa. Misha Glenny, por exemplo, teve um crescimento de 100% nas vendas de seu McMáfia (Companhia das Letras) após ter participado do evento em 2008.

Ainda segundo a mesma Folha de S. Paulo, o orçamento da edição 2010 da Flip é de R$ 6,3 milhões, sendo que 63% vêm de dinheiro público e os outros 37% de dinheiro privado. O principal patrocinador da Festa é o Itaú Unibanco, que conta com aproximadamente 75% de sua cota de renúncia fiscal da Lei Rounet. Esse apoio do Unibanco é histórico e vem desde as primeiras edições. A revista Piauí, editada pelo cineasta João Moreira Salles, membro da família dona do banco, foi lançada na FLIP de 2006.

O diretor-presidente da Casa Azul, associação que organiza a Flip, Mauro Munhoz disse em entrevista a Folha que “a Flip é um projeto puro-sangue, voltado para literatura e para as políticas públicas do território. O puro-sanguismo tem seu custo: não colocamos estandes, não é um feira comercial. A Flip se enraizou na geografia humana do local”. Para a poetisa Ana Rusche, que já participou de algumas edições, nunca como convidada, o formato da Festa é infeliz, os custos para assistir às mesas e participar dos outros eventos da programação são muito altos e não há acesso para os quilombolas da região.

Em 2006, ainda, o escritor Marcelo Mirisola botou a boca no trombone e sofreu as consequências. Na ocasião, Mirisola foi a Paraty financiado pelo próprio Marcelino Freire, que na época “mandava e desmandava na Flip”, diz Mirisola. Para o escritor, todo o evento é cercado de problemas, a começar por ser uma festa, como o próprio nome já diz. Os escritores vão para aparecer e o público “que é essa classe média angustiada que compra livros na Livraria da Vila e vai à Casa do Saber [ambas as instituições mantêm sedes provisórias em Paraty durante a Flip], para ver”. Mirisola continua: “A partir do momento em que essas dondocas deixam de ir às compras na Oscar Freire para estudar Schoppenhauer na Casa do Saber alguma coisa está errada”.

Ainda segundo Mirisola, a culpa do pouco espaço reservado aos autores de ficção na edição deste ano é dos próprios escritores que se submetem às editoras e não cobram cachê para participar da Flip, enquanto que para qualquer outro encontro literário há este pagamento. Para Mirisola, um festival literário deste porte teria que servir para discutir a sociedade, “e não para as madames de Higienópolis”.

Flap

Os altos preços de Paraty, desde estadia, passando pelo transporte até a entrada para os eventos, fizerem com que a poetisa Ana Rusche, ao lado de um grupo de amigos das faculdades de Direito e Letras da Universidade de São Paulo (USP), criassem uma alternativa à Flip. Assim surgiu a Flap, que é uma brincadeira direta ao nome da festa de Paraty e a cada ano muda o seu significado.

Em 2006, após a edição experimental de 2005, propuseram embates, em 2007, contaminações; em 2008, aglutinaram autores de toda a América Latina, não best-sellers, mas nomes relevantes tanto em relação à criação quanto à representatividade – em 2008, espalharam a Flap por mais espaços, indo aos Saraus. Na edição de 2009, discutiu-se a queda de Muros: simbólica e politicamente. Agora, em 2010, segundo uma das organizadoras do evento, Maiara Gouveia, “usando os artifícios da rede virtual e a estrutura cheia de vitalidade e popular dos Saraus, vamos debater de que modo se expõe ou se oculta a literatura de um público mais amplo por meio dos eventos literários. Não pretendemos ser os paladinos que levam literatura à periferia. Pretendemos, sim, mostrar o que eles produzem, o que eles pensam, as formas literárias deles”.

Segundo Rusche, a proposta da Flap é algo mais urbano e próximo das pessoas que já estão dentro do circuito literário, além de abrir espaço para os escritores iniciantes. Há também uma maior preocupação política. Discutir o custo do papel e o valor do livro, o monetário e o intelectual, são pautas naturais da Flap. Outra marca do festival é a atenção para a poesia, que ocupa o limbo tanto no mercado editorial quanto nos encontros literários – das 19 mesas da Flip, apenas uma debaterá a poesia.