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Físico maduro, mas flexível

por Camila Alam — publicado 10/08/2010 12h56, última modificação 10/08/2010 12h56
Aos 35 anos, o Grupo Corpo afirma sua excelência na criação contemporânea. Inaugurando a turnê nacional, companhia se apresenta em São Paulo, de 11 a 16 de agosto, no Teatro Alfa.

Turnê nacional começa em São Paulo e passa por Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília.

Casais voluptuosos narram com seus corpos amores ardentes ou indiferenças brutais, ao som do romantismo dramático das canções do cubano Ernesto Lecuona (1895-1963). Em um total de 38 minutos, 12 canções dão o tom a esta sequência de pas-de-deux elaborados e uma única formação coletiva no espetáculo Lecuona, do mineiro Grupo Corpo. Apresentada pela primeira vez em 2004, a coreografia volta à tona em turnê brasileira que comemora os 35 anos do aclamado grupo de dança contemporânea, ao lado da mais recente montagem Imã, de 2009. Juntas, as peças resumem o talento da companhia.

Inaugurando a turnê nacional, o Grupo Corpo passa por São Paulo (com apresentações no Teatro Alfa, de 11 a 16 de agosto), Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília. Antes de sair em viagem, recorreu à ajuda do público e abriu votação em seu site oficial para eleger a coreografia mais lembrada pelos espectadores. Lecuona, com a sofrida abordagem sobre o amor e seus percalços, foi eleita entre 14 peças do -repertório e acompanha Imã durante os próximos meses pelo Brasil, ambas coreografadas por Rodrigo Pederneiras, um dos fundadores do grupo.

Nesta última, a trilha sonora instrumental do trio +2 (composto pelos músicos Domenico, Kassin e Moreno), tem bateria marcada e sobrepõe instrumentos de naturezas diversas. Sobre o palco, o grupo mantém um intenso jogo de -união e dispersão, sob iluminação concisa que aos poucos explode em cores e texturas. Quando se assiste ao Grupo Corpo é evidente a percepção da excelência, adquirida de maneira gradativa e contínua ao longo destes 35 anos.

Ainda em 1975, Paulo Pederneiras, hoje diretor artístico do grupo, pouco se empolgava com o teatro que andava fazendo naquela época. Juntou-se então aos seus cinco irmãos e alguns amigos para, na antiga casa onde os pais moravam, dar início à empreitada que dura mais de três décadas. Desde a primeira coreografia, Maria Maria (1976), musicada por Milton Nascimento e Fernando Brant, o grupo exibia sinais do que viria a se tornar uma marca. A mistura entre erudito e popular, balé contemporâneo com levada clássica, que preza pela perfeição e interage com trilha sonora exclusiva. Ao longo dos 35 anos, o grupo já dançou as batidas de Tom Zé, Lenine ou Ernesto Nazareth. Com as músicas de Ernesto, Lecuona apresentou uma das raras inserções a trilhas sonoras existentes, fazendo assim uma homenagem apaixonada à música cuba-na e seu representante.

O coreógrafo narra o processo criativo que se dá entre música e dança, agregadas a uma única finalidade. “Convidamos os músicos para que eles façam o que quiserem, eles têm abertura total. Nada é direcionado e as ideias surgem no caminh-o. É como se a música e a dança fossem uma coisa só”, diz. Hoje, com 55 anos, Pederneiras iniciou na companhia como bailarino e atua como coreógrafo desde 1978. Nessa época, saindo do sucesso de Maria Maria, ainda em caráter quase experimental e com pouca verba, a companhia deixava de contratar coreógrafos.

“Chegou um momento em que tivemos de assumir tudo, até mesmo trabalhos ainda verdes. O Corpo foi uma escola para todos nós e hoje temos linguagem e estética próprias, criadas a partir deste momento”, diz o diretor artístico. Pederneiras, o coreógrafo, mantém hoje sob sua assinatura grande parte dos espetáculos da companhia. Foi um dos responsáveis pela fórmula de sucesso criada pelo grupo. Exprime em suas coreografias o universo da dança de rua, do xaxado, do samba ou da capoeira. O Corpo criou assim uma base dinâmica que trabalha o clássico com liberdade e sob fortes influências brasileiras. A partir de 1992, com a montagem de 21, firmou essas características e abraçou amplo repertório rítmico.

Há dez anos na companhia, a bailarina paulista Silvia Gaspar é uma das mais antigas do grupo. Foram dois anos de espera para ser aceita na instituição que antes empregara seu marido, também bailarino. “Em outros grupos, o bailarino fica de escanteio e é prejudicado muitas veze-s pela parte técnica. No Corpo, não é preciso se preocupar com nada, a experiência de 35 anos tornou tudo muito correto. É chegar e dançar”, diz a bailarina, que integra o grupo com outros 20 dançarinos.

Este cuidado com seus bailarinos é uma das propriedades que diferencia a solidez do Grupo Corpo, em constante busca pela qualidade e pela melhoria de condições de trabalho. “A gente não deixa barato e quer sempre o melhor, em todos os sentidos”, completa o diretor artístico, enfatizando que a busca pela excelência se dá desde a escolha de professores e se estende para a qualidade de convivência dentro da sede da companhia. “Aqui não existe sala de reunião nem porta fechada. Todos participam de tudo, entrando no assunto alheio, sem segredos.”

O Corpo moldou ao longo dos anos uma estrutura cujos resultados são vistos além do palco. Busca o novo e a continuidade, características vistas permanentemente a cada espetáculo. São reconhecidos por peças com algo a dizer e sem carregar bandeiras. A estética sobressai e se torna a própria mensagem. Requisitado pelos teatros mais importantes do mundo, esgota ingressos em Paris e Nova York e faz do reconhecimento do público uma arma poderosa para motivar a inovação.

“O que interessa é aquilo que não sabemos fazer. O que sabemos já fizemos. O tempo todo é preciso virar a mesa, chegar a novas formas e pensar adiante. Talvez esse seja um dos motivos para que esse grupo de 35 anos não tenha nada de anacrônico”, diz o diretor Pederneiras.