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Filosofia doméstica

por Orlando Margarido — publicado 08/08/2010 12h00, última modificação 06/08/2010 16h46
Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel, traz Selton Mello na voz do aparelho doméstico

Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel, traz Selton Mello na voz do aparelho doméstico

A percepção que Reflexões de um Liquidificador deseja do público se impõe logo de início. No novo filme de André Klotzel, o eletrodoméstico em questão fala e será ele (na voz de Selton Mello) o narrador da história de Elvira (Ana Lúcia Torre), trama essa marcada pelo humor negro e o tom de crônica de uma cidade, seus personagens comuns e de uma morte anunciada. Desta há vistas quando a dona de casa vai à delegacia comunicar o sumiço do marido (Germano Haiut) e torna-se ela a suspeita. Como o investigador (Aramis Trindade), o carteiro (Marcos Cesana, morto em maio) ou a vizinha fogosa (Fabiula Nascimento) surgem pela comicidade, mas, principalmente, para afirmar a noção trivial da vida da protagonista.

Aos poucos, o roteiro do autor teatral José Antônio de Souza introduz pontos de conflito. O par central geria um boteco, que ao ser fechado obrigou o marido a se empregar como vigia noturno. Descobre-se também a habilidade taxidermista de Elvira, prática que lhe será útil quando da revelação de um caso extraconjugal do companheiro. Se fosse apenas pelo princípio da fantasia cínica, exercitada um tanto
no longa anterior Memória Póstumas, Klotzel já teria enveredado por um modelo inusitado no cinema brasileiro e, por isso mesmo, arriscado. Mas há sobretudo a escolha por tipos protagonistas mais velhos para garantir que a realidade seja compatível com o devaneio. Talvez para acentuar a particularidade do projeto, a estreia está marcada para dia 9, uma segunda-feira, e as sessões do filme serão precedidas por um curta-metragem e a apresentação de comediantes como Marcelo Mansfield.