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Filmes da Mostra Internacional de Cinema

por Orlando Margarido — publicado 22/10/2010 10h35, última modificação 22/10/2010 10h38
34ª Mostra de São Paulo começa nesta sexta-feira e vai até o dia 4 de novembro. Conheça três títulos que estão na programação

"Memórias de Xangai", de Jia Zhang-Ke, e "Exit Through the gift shop", de Bansky

O conceito não é novo. Mas as formas pelas quais a confluência do cinema de ficção e realidade se apresenta ainda parecem longe de se esgotar, o que dão prova dois documentários escalados na programação da 34ª Mostra de São Paulo. Um deles é de cultuado realizador já muito bem habilitado na arte. O chinês Jia Zhang-Ke faz da fronteira dos gêneros a pedra de toque de seu cinema, agora revigorada com Memórias de Xangai – I Wish I Knew, que tem sessões a partir do dia 28. Como é habitual em seus filmes (Em Busca da Vida), o cineasta faz das transformações radicais da China seu foco, num painel sobre a cidade do título desde a abertura ao comércio exterior, em 1842, à ascensão do comunismo na década de 40. Entrevista moradores e gente de cinema, como o colega Hou Hsiao-Hsien. Utiliza ainda imagens do documentário China, que Antonioni realizou no país e que a Mostra também exibe. Sabedor da representatividade mínima no contexto de uma metrópole, Zhang-Ke criou uma personagem ficcional, uma jovem que passeia por Xangai e oferece a visão de um local que pode também ser fantasmagórico.

O outro adepto da mistura entre real e ficção é, por assim dizer, um intruso no universo cinematográfico. Intrometer-se e incomodar, aliás, é intenção de Banksy, artista de rua inglês badalado por seus grafites e famoso por manter a identidade oculta. Ele teria sido desmascarado há pouco, mas isso não muda a interessante experiência de Exit Through the Gift Shop, a partir desta sexta no evento. Sua proposta aqui é contar como um realizador de filmes amadores, dedicado a princípio a festas familiares, tornou-se uma celebridade ao tentar registrar os passos do grafiteiro pelos Estados Unidos. De protegido, Terry Gatter tornou-se seu rival. Sem delimitar onde procede a verdade e se inclui a farsa, Banksy quer provar com o filme a própria fragilidade das amarras de gênero do cinema.

"José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes

A jornalista quer que a câmera capte o escritor tendo ao fundo a praia do Rio de Janeiro. Para isso o carro deve estacionar e ambos precisam mudar de assento. Ele faz um último apelo para convencê-la a desistir. O cinegrafista que transfira a câmera de lado. Mas é difícil tratar de desistência mesmo sendo ele José Saramago, em 2008 debilitado por um processo de leucemia, quando ao seu lado está a incansável Pilar del Rio. Foi Pilar, 28 anos mais nova, companheira de duas décadas do Nobel português, quem organizou a vida e os compromissos de Saramago até a morte deste em junho, aos 87 anos. Parece ser mais dela o documentário José e Pilar, a ser exibido na 34ª Mostra de São Paulo e previsto para estrear dia 5.

Há, claro, o homem das letras por trás do universo de homenagens pelo mundo, do qual diz preferir escapar para ficar sossegado em sua Lanzarote, a ilha da Espanha onde foi tentar a paz com a mulher.
No momento do filme, ele se debruça sobre o romance A Viagem do Elefante e teme não finalizá-lo por causa da saúde debilitada. A narrativa escrita será acompanhada conforme permitem
as viagens pontuadas por Pilar, da Finlândia a São Paulo. É preciso ter ambição, justifica a futura presidente da fundação criada para o autor, e ele obedece. Trata-se de uma visão da intimidade, talvez demais preparada, mas genuína no que diz respeito ao que já se sabia, ser Pilar uma protetora de enérgica influência sobre o protegido, algo que ele não desmente.