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Cultura

73º Festival de Veneza

Filipino Lav Diaz recebe o Leão de Ouro pelo filme The Woman Who Left

por Orlando Margarido — publicado 12/09/2016 10h37, última modificação 12/09/2016 10h48
Um Leão de Ouro competente em premiação marcada por exageros e diplomacia
Hazel Orencio/Divulgação
Cena do filme The Woman Who Left

Com quatro horas de duração, drama filipino narra em preto e branco a história de uma mulher acusada injustamente de um crime

Havia expectativa, entre alguma preocupação e inquietude, na chegada dos convidados concorrentes a premiação do 73º Festival de Veneza nesta noite de sábado no Lido.

Entraram na sala da cerimônia Amat Escalante, Andrej Konchalovsky, Tom Ford e Lav Diaz, entre os que puderam ser vistos pelas câmeras. Ao final se confirmaram também no palco para os agradecimentos. Mas até então não se sabia em que ordem, ou seja, para quais categorias estavam escolhidos.

Temeu-se um prêmio maior para Tom Ford, o estilista-diretor, que em seu segundo filme acabou por levar o Grande Prêmio do Júri.

Menos mal que The Nocturnal Animals não tenha ido além, pois Veneza adora e mais uma vez adotou de braços abertos um cinema americano nem sempre valoroso para estar na competição.

Saindo um pouco da ordem dos prêmios, foi afinal corajoso e um belo final de concurso ter reconhecido o filipino Lav Diaz como o melhor por seu The Woman Who Left, de quatro horas de duração. Até mais que a Berlinale, que em fevereiro concedeu a ele um prêmio dedicado a novas perspectivas no cinema por A Lullaby for Sorrowful Mistery. Este dura oito horas.

Mas um Leão de Ouro bem encaminhado não significa uma premiação bem-sucedida por completo. Há acertos tanto quanto decisões questionáveis, mais em função do que não foi levado em conta do que das escolhas.

Destas, a mais estranha parece ser a divisão, o ex-aequo, para direção. Não que Amat Escalante não mereça. Pelo contrário. Trouxe uma das propostas mais desafiadoras e controversas do festival com seu La Región Salvaje.

Bastaria portanto reconhecê-lo e não premiar, pela segunda vez em dois anos, Andrej Konchalovsky por Paradise. Em 2014, ele saiu do Lido com a melhor direção por The Postman White Nights, um ótimo documentário. Dividir prêmios sempre enfraquece para ambos os eleitos e ainda mostra certa inconsistência do pensamento do júri.

Em melhor sintonia, os prêmios de interpretação revelaram o que se esperava num embate desigual. No caso dos atores, não havia outro competidor para bater o ótimo Oscar Martínez, o escritor vencedor de um Prêmio Nobel e em crise no filme argentino El Ciudadano Ilustre.

Foi um prêmio mais do que merecido, inclusive porque o ator está em fase de grandes trabalhos em seu país. Vimos ele recentemente em Paulina e em breve volta ao circuito no Brasil em Kóblic.

Já no que diz respeito as mulheres, havia honrosas opções e a decisão por Emma Stone se não é disparatada, sugere mais uma política a se manter com Hollywood tão prezada por aqui.

Do mesmo modo, o roteiro de Jackie, assinado por Noah Oppenheim, não surge especialmente superior a outros. Mas o fato de ser um projeto atípico, dirigido por um chileno badalado e talentoso como Pablo Larraín, sobre um ícone americano, sim. Já se sabia que não passaria em brancas nuvens pelo Lido.

Ainda que se leve em conta a regra de não ser possível reconhecer duas categorias importantes ao mesmo filme, o que descarta a ótima atriz de Lav Diaz, creio ter sido injusto a intérprete (e esposa) de Konchalovsky. Em especial, maior injustiça é não ter levado em conta a francesa Judith Chemla por Une Vie, de Stéphane Brizé.

Mais ainda, este que foi um dos mais refinados filmes da seleção saiu quase de mãos abanando. A crítica fez valer seu voto e a Fipresci reconheceu o belo trabalho do francês. Como consolação as atrizes com melhor empenho, merecido o prêmio para a jovem estreante alemã Paula Beer, emocionante no filme de François Ozon, Frantz.

Mas premiações de festival são assim, não costumam agradar a todos, e muito menos esta fez concessão a prata da casa. A fraquíssima, se não vergonhosa, participação italiana na mostra principal foi descartada por completo.

Sobrou uma lembrança na paralela Horizonte. O júri escolheu o melhor filme Liberami, de Federica di Giacomo. Coube ao ator argentino, em discurso breve e potente, lembra que aqui se fez o melhor cinema do século XX. Quem sabe olhar um pouco para o passado ajudaria Veneza no futuro.