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Filhos dos patrões filmam a rotina das empregadas

por Piero Locatelli — publicado 01/05/2013 13h33, última modificação 03/05/2013 10h51
“Não é uma questão de classe média”, diz Gabriel Mascaro, diretor do documentário ‘Doméstica’, que estreia nesta semana
Documentário Doméstica

Documentário foi filmado por adolescentes. Foto: Reprodução

A PEC das Domésticas estava na iminência de ser votada no Congresso Nacional quando o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro finalizava o documentário Doméstica. Surpreendido pela discussão acalorada durante a votação, o diretor de 29 anos decidiu adiantar o lançamento do projeto que, durante uma semana, levou adolescentes de várias cidades do Brasil a acompanhar, com uma câmera, a rotina de seus empregados domésticos.

“A reação conservadora sobre a PEC foi chocante. Então achamos que seria um bom momento para aprofundar este debate,” diz o diretor. O resultado estará nas telas a partir desta semana em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

O filme mostra personagens que fogem à discussão maniqueísta em torno da PEC. É o caso de uma empregada doméstica que trabalha na casa de outra doméstica. “Esta não é uma questão da classe média ou da classe dominante. A empregada também tem empregada em casa. A questão é assumir como uma questão da identidade brasileira que a gente precisa resolver e reparar.”

Há também um empregado homem, contratado na casa de uma mulher após ser abandonado pela sua família. Ele aparece no filme lavando as calcinhas da sua patroa.

Mascaro diz que o personagem tem incomodado os espectadores. “Provocar uma distanciamento nessa questão de gênero fez a audiência se sentir machista ao olhar a dor do homem como uma coisa desconfortável,” diz o diretor.

Diretor não teve contato com adolescentes

O diretor conta não ter tido nenhum contato com os adolescentes que fizeram as filmagens. Ele recebeu o material bruto e o lapidou para contar a história de seis empregadas e um empregado. Algumas falam em formato de entrevista com seus patrões; outras são apenas filmadas, em silêncio, em sua intimidade.

Diante das câmeras dos patrões, as empregadas não reclamam das suas vidas de forma explícita. A insatisfação aparece apenas de maneira subjetiva. Em uma cena, um adolescente pergunta à doméstica: “você é feliz?” Ela só responde depois de um silêncio de dez segundos, quando finalmente fala: “sou feliz”.

“Se fosse só um depoimento da empregada, a gente já sabe qual seria a resposta dela,” diz o diretor. “Mas naquele silêncio estão impregnadas muitas questões que não estariam na resposta que ela teria dado para mim falando: não sou feliz.”

Sem generalizar a situação das empregadas, o documentário mostra cada uma das sete histórias separadas e em sequência. Não é por acaso. “Não tem como a gente misturar tudo e pensar que é uma coisa só. A relação de trabalho, no caso da empregada doméstica, é discutido na esfera íntima,” diz o diretor.

O processo de produção do filme é escancarado quando um adolescente fala à sua empregada que irá filmá-la. Em seguida, pede a ela para assinar um papel cedendo sua imagem. A doméstica escreve no papel entregue pelo seu patrão diante da câmera.

A equipe pediu aos adolescentes que filmassem este momento, e um deles foi selecionado para aparecer no filme. “Este é um filme sobre negociar a imagem dentro de uma esfera de relação assimétrica de poder,” diz o diretor.

No total, quinze jovens de 15 a 17 anos foram escolhidos para filmar as empregadas em 2011. Mascaro não teve nenhum contato com eles, antes ou depois das filmagens. O projeto foi divulgado por professores em escolas públicas e privadas. Depois disso, os jovens que queriam filmar suas empregadas passavam por uma triagem.

“A direção do filme começa em pensar o processo de como ele será feito. É muito mais do que aquela coisa de dizer ‘ação, corta’. É um filme de risco, poderia não vir nenhum personagem interessante,” diz Mascaro.