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Ficção científica e política, tudo a ver

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/04/2011 13h21, última modificação 03/04/2011 13h21
Em "Assembleia Estelar", Marcello Simão Branco conseguiu uma interessante seleção de textos que inclui algumas obras-primas e cobre um amplo espectro de estilos, posturas e preocupações. Por Antonio Luiz M. C. Costa

Inovadora, ao menos para o Brasil, é a iniciativa da Devir Livraria de editar, em seu selo de ficção científica Pulsar, a antologia “Assembleia Estelar: histórias de ficção científica política” (408 páginas, R$ 39,90) O organizador e editor, escritor de ficção científica e cientista político Marcello Simão Branco, teve uma ótima ideia e conseguiu uma interessante seleção de textos, que inclui algumas obras-primas e cobre um amplo espectro de estilos, posturas e preocupações.

Pena que a introdução do organizador, “Afinidades Eletivas entre Ficção Científica e Política”, seja surpreendentemente parcial e superficial na discussão das temáticas e tendências das tantas obras que cita. É desconcertante que se afirme sem justificar que “‘Fundação’ realiza no fundo uma defesa da democracia em meio à ascensão dos regimes totalitários da época”. A trilogia de Isaac Asimov é a epopeia de uma organização secreta que manipula toda a Galáxia de acordo com supostas leis psico-históricas sem consultar as massas e sem deixá-las conhecer seus objetivos. Não se poderia pedir melhor exemplo do “governo de técnicos” que o próprio autor associa a Platão e Hegel e, com popperiano maniqueísmo, define no primeiro parágrafo da introdução como elitista, centralizadora e o oposto da “democracia” para ele representada por Aristóteles e James Madison (um dos “pais fundadores” da Constituição dos EUA e seu quarto presidente). Ora, nada mais parecido com um Hegel interestelar que Hari Seldon, o criador imaginário da “Fundação”!
Ler que “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley “vislumbra os regimes totalitários de então” é também insólito. Essa sociedade consumista conta os anos “depois de Ford”, promove o uso recreacional de sexo e drogas e tem como lema “Mais vale dar fim que consertar. Quanto mais se remenda, menos se aproveita”. Será mesmo que estava falando só de Mussolini ou Stálin?

É empobrecedor reduzir Duna de Frank Herbert a um romance sobre ecologia – como se não tratasse, de forma ainda mais patente, de imperialismo, fanatismo religioso e mesmo da dependência do Ocidente do petróleo árabe e iraniano. E mais ainda dizer que O Sonho de Ferro de Norman Spinrad é sobre um Hitler que, em vez de se tornar o Führer, emigrou para os EUA e se tornou autor de ficção científica, evitando “a nova guerra mundial e seus horrores”. Isso é apenas a irônica orelha do livro. O núcleo é uma “jornada do herói” intitulada “O Senhor da Suástica”, de autoria do Hitler ficcional, que é uma paródia feroz dos subtextos racistas e fascistas de uma tradição de literatura de fantasia e ficção científica heroica que inclui Edgar Rice Burroughs, J. R. R. Tolkien, Robert Howard, Philip Nowlan e Alex Raymond, entre outros. Segue-se uma resenha da obra de Hitler por um crítico imaginário, na qual se deixa entrever que sua desistência da política possibilitou o domínio soviético da maior parte do mundo alternativo e um genocídio ainda maior.

Ainda assim, a introdução vale pelo amplo levantamento da história da ficção científica política do Brasil e do mundo, que talvez surpreenda quem vê o gênero como mero entretenimento inconsequente – ideia comum não só entre os que o desprezam, como também entre muitos fãs. Faltou, talvez, mencionar o papel da política em obras que não a tematizam explicitamente, mas nem por isso deixam de ser fortemente carregadas de ideologia – o que inclui desde a complexa caracterização do iluminismo, do “bom selvagem” e das ideias da Revolução Francesa no “Frankenstein” de Mary Shelley até os subtextos políticos, sutis ou nem tanto, da maior parte da ficção científica de “aventura”, do ufanismo conservador do “Independence Day” de Roland Emmerich ao ecologismo sentimental do “Avatar” de James Cameron.

O primeiro conto, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, é do escritor português Luís Filipe Silva. O tema é um futuro sistema de governo por meio de debates públicos e plebiscitos eletrônicos. Os eleitores escolhem entre propostas elaboradas por especialistas e acompanhadas de estudos sobre viabilidade econômica, impacto social e ecológico e assim por diante.

A ideia de democracia informática direta é comum na ficção científica e em fóruns de internet e geralmente vista com otimismo, quando não como uma via expressa para a utopia. Mas neste conto, essa perspectiva leva apenas à mediocridade “tecnocrática” (e ao mesmo tempo, “democrática”), por esvaziar a política de emoção e de objetivos grandiosos. O protagonista é um político da velha guarda que em outros tempos teria sido um grande líder, mas nessa realidade é um velho decadente cujos discursos inspirados fracassam em motivar os cidadãos em torno de sua proposta de busca de vida extraterrestre.

Nesta curiosa ficção parece se fazer sentir o desencanto de muitos europeus com a tecnocracia de Bruxelas e a frieza distante do sistema político da União Europeia, que se supõe democrático, mas é tão mediado por representantes e burocracias e restringido por normas legais, técnicas e financeiras que faz o cidadão sentir-se irrelevante e impotente. O estranho é se associar o mal-estar não ao amplamente reconhecido “déficit democrático” de uma democracia excessivamente indireta, mas a uma forma de democracia direta jamais testada. Por outro lado, é uma das poucas tentativas nesta coletânea de realmente especular sobre o futuro da política, em vez de ambientar conflitos políticos do passado ou do presente em um cenário especulativo.

Como é o caso de “Anauê”, do advogado carioca Roberval Barcellos. A ideia de um Brasil alternativo no qual o integralismo chegou ao poder e aliou-se à Alemanha nazista poderia render uma história instigante, mas a má execução faz deste o conto menos interessante da coletânea.

É basicamente uma adaptação para o Brasil do romance “Pátria Amada” do britânico Richard Harris, adaptado como filme para a tevê por Christopher Menaul como “A Nação do Medo” (“Fatherland”, no original). Em 1980, um certo Ubiratan Silva, “relações públicas” do Partido Integralista, se desencanta do regime que começa a perseguir judeus sob pressão do Führer Rudolf Hess. Perde a confiança do governo, é repudiado pela esposa e enviado para perto da fronteira da Colômbia, controlada pelo inimigo, os EUA.

Não é bom entretenimento, devido à construção desajeitada, interrompida a toda hora por explicações com jeito de nota de rodapé no lugar errado. Também não é boa especulação, devido ao excesso de incongruências e soluções forçadas. Sua versão do integralismo repudiou por décadas o racismo e o antissemitismo de Gustavo Barroso para afastar a “ameaça de intervenção americana”, mas da noite para o dia passa a exterminar judeus para agradar o Führer prestes a visitar o Brasil. A esposa do “relações públicas” exige o divórcio em um regime supostamente católico e tradicionalista. Brasil e Colômbia estão em guerra não declarada, mas uma linha de trem expresso cruza a fronteira.

O povo, submisso e manipulado há décadas pelo regime, fica indiferente quando judeus são subitamente presos nas ruas e escolas e desaparecem, mas a simples divulgação de fotos dos campos de concentração e fornos crematórios armados na Amazônia provoca “uma grande revolta com o apoio americano e de brasileiros exilados”.

Do veterano escritor André Carneiro, o curto conto “Gabinete” gira em torno das lembranças e experiências subjetivas da protagonista, de seus afetos, medos e aflições enquanto seu grupo guerrilheiro planeja e leva a cabo um grande atentado. Como envolve um “prédio do governo” de duzentos andares e “aviões 878”, pode-se dizer que o ambiente é vagamente futurista, mas o clima, os hábitos e o que se percebe da vida e da sociedade remetem às organizações armadas da extrema-esquerda brasileira durante a ditadura militar. Embora literariamente atraente, é na realidade pouco político. Não se menciona a razão da luta, a natureza do regime ou a ideologia da guerrilha: soa antes como um conto sobre a falta de sentido de tudo isso.

A noveleta “Trunfo de Campanha”, do escritor Roberto Causo, retoma seu personagem Jonas Peregrino. Capitão da ELAE, “Esquadra Latinoamericana na Esfera”, esse caboclo matogrossense já protagonizara o conto “Descida no Maelström” da antologia “Futuro Presente” da Record, no qual conquistou uma grande vitória contra os misteriosos alienígenas tadai e frustrou uma tentativa de assassinato e sabotagem por parte dos aliados euro-russos, que tentaram impedir os latinoamericanos de colherem os frutos da vitória.

Nesta sequência, a saída de cena dos tadais alimenta a rivalidade interestelar entre facções humanas – citam-se latinoamericanos, euro-russos, transatlântico-pacíficos, asiáticos-centro-oceânicos e ecumênicos-islâmicos. Para não se envolver na guerra fratricida, Peregrino quer deixar a vida militar, mas o almirante Túlio, seu superior, retarda a dispensa e o envia a um hotel de luxo onde encontra uma agente, ruiva e voluptuosa, é claro, que tenta todas as formas de persuasão, suborno, adulação e sedução para convencê-lo a pôr seu prestígio de herói espacial a serviço de um político que pretende liderar os latinoamericanos no conflito “internacional” que se aproxima, inimigo do superior de Peregrino. Tendo já provado sua coragem física e habilidade tática, o herói testa agora sua integridade moral e astúcia política.

A noveleta tira parte do seu interesse do processo de construção de um idealizado herói militar, que a cada vez se mostra imaculado, íntegro e de vontade inquebrantável. Outra parte vem da trama política que atrai por sua complexidade e ambivalência, apesar de não trazer especulações instigantes.

A “Latinoamérica” é uma federação semipresidencialista de escala interestelar. Parte do jogo político depende da representação mais que proporcional de territórios pouco povoados na federação, uma questão bem familiar ao Brasil – só que em vez de pequenos estados do norte e nordeste trata-se aqui de sistemas solares inteiros. Somando-se o confronto direto pelo poder entre um comandante militar e um político civil, inadmissível num regime democrático, não sobram dúvidas de que se trata de uma projeção no espaço interestelar do futuro de conflitos do Brasil (ou da América Latina) do século passado. Mas a vasta escala de uma sociedade com complexas relações com alienígenas mostra certo descompasso com a transposição demasiado direta das provincianas rivalidades geopolíticas de um minúsculo planeta no início do século 21 para uma escala galáctica. Soaria irônico se não fosse o tom de cândido ufanismo, com direito a aparição especial do Saci-Pererê e orgulho pela colonização latinoamericana de uma estrela do Cruzeiro do Sul.

Sente-se falta de um melhor aproveitamento das possibilidades de um cenário de space opera. O conto anterior envolvia estratégia militar espacial, experiências biológicas avançadas e relações com muitas espécies alienígenas, mas neste tudo se passa como numa história de espionagem nos dias de hoje, com refeições, garçonetes, laptops, livros e bottons banais.

A linguagem da noveleta é rica e fluente, apesar de dois tropeços – “ponto passivo” por ponto pacífico, “destilado” por fermentado (vinho) – e ao menos uma frase que precisaria ser retraduzida: “tinha longos cabelos castanhos e era acompanhada por um gato obviamente elevado, com uma cibercoleira”. Popularizado pela série “Uplift” de David Brin (nunca editada no Brasil), uplifted é um jargão já convencional na ficção científica anglo-saxônica para um animal tornado inteligente, mas “elevado” precisaria ser explicado ao leitor brasileiro.

Daniel Fresnot, filho do cineasta Alain Fresnot (diretor de “Lua Cheia” e “Desmundo”, entre outros), contribui com “Diário do Cerco de Nova York”. Como o romance “O Presidente Negro” de Monteiro Lobato, esse conto parece presciente à primeira vista, mas a uma leitura mais atenta mostra que qualquer semelhança com a realidade é mesmo pura coincidência. Publicado originalmente em 1984 (no primeiro mandato de Reagan, portanto), narra uma revolta separatista liderada por um populista de direita contra o governo e os impostos federais. Apesar de ambientada no mundo dos anos 80, quando “só os Estados Unidos têm computadores antiquados à venda como ferro-velho”, faz pensar por um momento no fanatismo Tea Party de hoje. Obama ainda era um recém-formado, mas o protagonista escreve um livro sobre o amor mal-sucedido entre uma mulher branca estadunidense e um intelectual africano.

O problema é que se afasta tanto das realidades da política estadunidense que, mesmo assim, é inverossímil. Fosse a rebelião liderada pelo governador de um estado conservador, cheio de milícias bem armadas e rico em recursos naturais, como o Alasca ou o Arizona, pareceria mais plausível – mas se trata do prefeito de Nova York, uma cidade liberal e multicultural que depende do resto do país para energia, água, comunicações e combustíveis, para ter atividade econômica (visto ser um centro financeiro e de serviços para o país) e até para que seus moradores possam tomar o elevador para seus apartamentos e escritórios.

Apesar disso, os nova-iorquinos, incluindo o liberal New York Times, são seduzidos em massa pela retórica populista para lutar contra uma intervenção federal (descabida, porque isso seria atribuição do governo estadual, ignorado no conto) e com armas leves e barricadas resistem por três meses aos marines, cruzadores e caças do Pentágono. É uma transposição forçada da Comuna de Paris. Não leva em conta que a natureza política do movimento francês de 1870 era o exato oposto do que imagina para sua Nova York, nem que uma cidade do século XX é muito mais vulnerável que uma do século XIX. Não traz uma reflexão política interessante, pois a adesão das massas ao líder surge como irracional e incompreensível. Vale pelo relato pessoal e sentimental do protagonista, um escritor francês que observa os acontecimentos de uma perspectiva, digamos, obelixiana (“esses romanos são loucos!”), enquanto se envolve amorosamente com uma nova-iorquina e escreve seu livro.

“Saara Gardens”, do advogado e empresário Ataíde Tartari, é uma ficção política que, embora ambientado numa futura “União Global” com capital em Istambul, faz uma transposição tão direta de questões do Brasil recente que chega a soar como um roman à clef. A presidência desse governo mundial está sendo disputado entre a “preservacionista militante” Miranda Ribeiro, uma brasileira cronicamente anêmica (terá também nascido no Acre?) e um candidato colombiano chamado Alonzo Urano (hum...). Urano é apoiado por uma empreiteira chamada Camaro Korrea (!) que pretende a todo custo impedir a eleição da brasileira porque ela é contra o projeto de irrigação do Saara (leia-se Transposição do São Francisco) do qual participaria, e que daria enormes lucros a seu dono, que há anos comprava terras no deserto. Para impedir a eleição de Miranda, recorrem a uma manobra engenhosa que a torna inelegível. O conto se prestaria a uma especulação mais densa sobre as possibilidades e problemas de um governo global, mas o pouco que é dito sobre seus mecanismos e princípios serve apenas para tornar viáveis a trama e seu desenlace. Mais uma vez, é uma mera tradução do passado recente do Brasil no futuro do planeta, com a conclusão implícita de que nada pode mudar.

Do bancário carioca Miguel Carqueija, “Era de Aquário”, de fins dos anos 80, testemunha o cínico pessimismo que se apossou de grande parte do País nos anos seguintes ao fracasso do Plano Cruzado. Em um dia de um ano indeterminado do século 21, no qual helicarros e aerônibus são comuns, um guarda-costas ouve no noticiário da manhã que “somente três deputados e um governador haviam sido assassinados na véspera” e em seguida a transmissão é interrompida por uma bomba na estação de tevê. Juntamente com uma colega o guarda-costas trata de levar um senador de sua casa para uma palestra sobre o grandioso futuro do Brasil, e para isso precisa enfrentar uma violenta batalha aérea com assassinos dispostos a tudo. De político, o conto só tem propriamente a a presença do senador, pois não tenta nenhuma análise ou explicação das causas por trás dessa violência. Reflete antes a visão superficial e apolítica do espectador de noticiários policiais sensacionalistas, que tudo atribui à incompetência das autoridades e à maldade humana, conformando-se com uma realidade que não faz questão de entender.

“A Evolução dos Homens sem Pernas”, do roteirista e dramaturgo paulistano Fernando Bonassi, de 2009, fala não tanto de política quanto da estupidez da história humana, vista como uma acumulação sem sentido de inovações tecnológicas inúteis e nocivas, culminando numa evolução lamarckiana que leva os homens a perderem as pernas, por falta de uso e justificar sua deficiência com a ideologia que fez disso uma “evolução lógica” e pelos livrinhos de autoajuda garantindo que “menos é mais”. Vale pela habilidade irônica da prosa ágil e satírica do autor, mas uma ideia parecida é contada de maneira especulativamente bem mais instigante (e mais pungente) na animação Wall-E (2008). E o autor, talvez sem perceber, dá uma feia trombada nos direitos dos cadeirantes, ao zombar da quase revolução feita pelos “homens sem pernas” ao exigir melhores acessos a edifícios e repartições públicas até que “os anormais assumiram totalmente os controles reprodutivos sociais e os normais finalmente tornaram-se a minoria que sempre foram”.

De Henrique Flory, matemático e empresário, “A Pedra que Canta” é a ambientado no Brasil de 2018. Publicado originalmente numa coletânea do autor de 1991, o conto foi atualizado para esta antologia com alusões a Lula (impedido “pela guerra” de tomar posse em 2018, o que parece supor um golpe militar), Hugo Chávez e Evo Morales (depostos) e à China como grande potência emergente, mas seu horizonte político é o de meados do século passado, quando o risco de guerras de conquista entre países sul-americanos era (ao menos entre os militares) levado muito a sério e a Argentina, com forças armadas modernas e um desenvolvimento econômico qualitativamente superior, era vista como um grande perigo para o Brasil.

Em vez do “peronismo”, há no país vizinho um movimento liderado por um certo Perez, ou “perismo”. Com apoio da China, a Argentina alia-se em 2010 a um Paraguai transformado em “tigre asiático” por um certo presidente Kim Uan com o objetivo de dividir Brasil e Bolívia entre eles, nada menos. Como trama política, deixa muito a desejar, tanto por inverossimilhança quanto por não se dar ao trabalho de explicar o que é o tal “perismo” ou como empolgou a Argentina. Como história de guerra, consegue, porém, ser interessante.

Os argentinos estão ganhando a guerra e já ocuparam todo o sul do Brasil e o oeste de São Paulo até perto de Bauru. Para detê-los, os brasileiros decidem pôr em ação a teoria da conspiração favorita dos militares argentinos dos anos 70: abrir as comportas de Itaipu de modo que todas as cidades mais populosas da Argentina, inclusive Buenos Aires, sejam arrastadas pelas águas. Como a represa está em território ocupado pelo inimigo, é necessária uma difícil missão de infiltração e sabotagem, complicada pela necessidade de o tenente encarregado da missão levar consigo um adolescente portador de osteogênese imperfeita, popularmente conhecida como “ossos de vidro”: esqueleto extremamente frágil, sujeito a fraturas a qualquer esforço.

Por quê? A justificativa é forçada: inventou-se um chip que pode ser implantado no cérebro e ajuda o doente a pressentir o risco de fratura, visualizando-o como um “ponto vermelho” nos seus ossos. O governo brasileiro, com ajuda europeia, suborna a empresa japonesa para implantar uma versão “aperfeiçoada” do chip que permite visualizar os pontos fracos de qualquer objeto, inclusive uma grande represa. A pergunta é inevitável: supondo que esse chip existisse, por que não implantá-lo diretamente no militar, evitando as dificuldades morais e práticas de conduzir um despreparado deficiente físico através das linhas inimigas? Vale só como artifício para explorar a perplexidade, as dúvidas e os medos de um protagonista frágil e sensível, enquanto o tenente que o carrega nas costas assume plenamente o clichê do soldado de elite eficiente, invencível e impiedoso. Uma vez aceita a premissa improvável, o conto consegue interessar e até emocionar, ainda que não do ponto de vista político. A guerra pode até ser a continuação da política por outros meios, como dizia Von Clausewitz, mas não é a mesma coisa.

“O Dia Antes da Revolução”, conto de 1974 da escritora estadunidense de ficção científica Ursula K. LeGuin, é uma prequela a um de seus romances mais famosos, “Os Despossuídos”, mas não é indispensável tê-lo lido para entender o conto. No romance, os seguidores de uma líder anarquista chamada Laia Odo tinham migrado há gerações para o satélite habitável Anarres e criado uma nova sociedade, depois de uma revolução bem-sucedida no planeta Urrás e o tema é a ambiguidade da nova utopia, cujo maior cientista é forçado a retornar ao planeta de origem (onde é disputado por regimes capitalistas e socialista de tipo soviético) porque seus companheiros de comunidade lhe recusavam os recursos e privilégios de tempo livre necessários para aprofundar sua pesquisa.

Esta prequela trata da própria Laia Odo. Idosa, fragilizada por um derrame e próxima do fim, recorda sua vida de rebeldia e agitação às vésperas da vitória do movimento revolucionário. Misto de Lucy Parsons, Emma Goldman e Simone Weil, mas com o prestígio de um Karl Marx, vive numa comunidade anarquista instalada no que outrora fora o prédio de grande banco e se orgulha e comove por ver tantos jovens seguirem a vida de tranquila liberdade que ela propôs. Mas a maior parte do seu pensamento vão para seu passado e suas perdas, principalmente a do marido – conceito obsoleto para seus cabeludos seguidores – morto há décadas pela repressão. Pouco se entusiasma pela vitória iminente e pelo papel que os odonistas ainda querem que represente.

É uma história que consegue ser ao mesmo tempo intensamente política e delicadamente pessoal. O ambiente cultural e tecnológico é o do século 20 e se percebe a tentativa de recuperar o potencial utópico de Woodstock, do movimento hippie na sua fase mais politizada. Mas esse frescor dos fins dos anos 60 não faz desta mais outra história sobre um passado disfarçado de futuro. Trata-se, neste caso, de verdadeira especulação sobre outro mundo possível (como se diz no Foro Social Mundial), descrito com sinceridade nos aspectos atraentes e nos desagradáveis, mesclada com reflexões sobre identidade e existência pessoal. Do ponto de vista da ficção política, se não também da realização literária, é o ponto culminante da antologia.

Mesmo assim, “O Grande Rio”, do médico mineiro Flávio Medeiros Jr., não faz má figura a seu lado. É assumidamente uma história sobre política do passado, mas muito bem contada no formato de um suspense policial sui generis. Em um mundo pós-apocalíptico do futuro, devastado pela radioatividade e por hordas armadas que disputam os últimos restos de civilização, um grupo de cientistas consegue construir uma máquina do tempo para voltar ao passado e assassinar o responsável por isso antes que deflagre a funesta guerra nuclear com a União Soviética. A saber, o ex-presidente John Kennedy.
O problema é que a história se mostra bem difícil de mudar. O pobre agente fracassa na primeira tentativa e obrigado a voltar e tentar outras vezes. A história é como um grande rio e seu curso é muito difícil de mudar. Mas não impossível, julga ele, se conseguir remontar às suas nascentes. A cada vez, volta mais “cedo” e passa mais anos infiltrando-se na CIA e nas organizações anticastristas, recrutando cúmplices, articulando o atentado e evitando o risco de encontrar-se com ele mesmo. Ao longo da história, envelhece e experimenta ao mesmo tempo tanto a versão oficial como várias das teorias de conspirações sobre o assassinato do presidente. O thriller é muito bem sucedido em prender a atenção e as tensões políticas da época e as motivações dos inimigos de Kennedy são desenvolvidas com realismo.

A história seguinte, “O Originista”, é do escritor Orson Scott Card, que foi missionário mórmon no Brasil e no espectro político da ficção científica estadunidense está na ponta oposta a Ursula K. LeGuin. Nos últimos anos, se fez notar por artigos exaltados contra o casamento homossexual e críticas ao darwinismo e às evidências do aquecimento global.
Esta novela, em particular, foi escrita em 1989 como parte de uma antologia de contos de vários autores ambientados no universo “Fundação”. Está situada no período em que Hari Seldon articula sua futura tecnocracia benevolente de reis-filósofos (ou, mais precisamente, reis-bibliotecários) sob as barbas do Império prestes a entrar em decadência. Nesse aspecto, é fiel à concepção do “bom doutor” Isaac Asimov, descrevendo com inteligência o maquiavelismo com que Seldon e seus seguidores usam a “psico-história” para manipular militares, políticos e intelectuais importantes para seus planos de longuíssimo prazo – mil anos serão necessários para a construção do novo império.

Enquanto isso, Card não resiste à oportunidade de tentar sua própria manipulação psico-histórica do leitor. O protagonista Leyel Forska é um historiador multimilionário, diletante mas competente, que vive em Trantor, o planeta capital do Império Galáctico, busca a esquecida origem da humanidade e é casado há décadas com Deet, uma antropóloga que estuda a equipe de Seldon, cujos filhos são perfeitos, mas já deixaram a casa e não os perturbam.
E assim, o poderoso cenário asimoviano se torna um veículo para a agenda de Card. De um lado, um meloso e repetitivo elogio do amor conjugal, da fidelidade absoluta e da família idealizada. De outro, longas reflexões sobre a importância dos mitos, dos rituais, das línguas e da literatura para criar as comunidades e a lealdade de seus membros e distinguir os homens verdadeiros de primatas brutos. Tradição, Família e Pátria, enfim.

Forska tenta entrar para a Fundação que será estabelecida no planeta Terminus, na periferia da Galáxia, para desenvolver a Enciclopédia Galáctica (imagine uma super-Wikipedia). Hari Seldon o recusa com o pretexto de não querer separá-lo de Deet, pois esta adora seu trabalho em Trantor. Mesmo assim, Forska não perde o respeito e admiração por Seldon e quando este morre, torna-se politicamente suspeito pelo elogio fúnebre ao homem que previa a decadência do Império. Perde sua imensa fortuna e afunda-se em frustração enquanto sua mulher se dedica à biblioteca criada por Seldon.

Descobrirá ele, porém, que, como toda a Galáxia, também teve a vida manipulada (inclusive na perda de suas riquezas) pela poderosa Segunda Fundação, da qual Deet é integrante e a biblioteca em Trantor é a inocente fachada. Claro que o amor tudo vence, o historiador compreende que assim tem de ser para o bem da Via Láctea e se integra na leal comunidade dos reis-bibliotecários, ultra-exclusiva e esclarecidamente despótica em relação ao resto do universo, mas internamente igualitária e comunista, exatamente como a “República” do mestre de Aristóteles. Além disso, descobre a utilidade para sua pesquisa do revolucionário sistema de indexação da Segunda Fundação que, a olhos de 2011, parece um Google mais inteligente – e quase morre, pois o brinquedo novo o faz navegar dias e noites seguidos sem comer ou dormir, numa notável prefiguração dos ciberdependentes de nosso tempo.

A trama política explícita da novela é sutil e convincente em sua combinação de Platão e Maquiavel, de política imperial romana e organizações acadêmicas modernas, mas pouco acrescenta a quem já leu Asimov. Para este, é mais interessante a meta-trama, também política, do escritor que usa uma concepção ideológica muito distinta da sua para afirmar suas próprias ideias.

O jornalista paulista Carlos Orsi traz “Questão de Sobrevivência”, conto publicado em 2001 na revista “Sci Fi News Contos” nº2 e também na ótima antologia autoral “Tempos de Fúria” (Novo Século, 2005). Nesta coletânea, este trabalho volta a destacar-se como um dos melhores contos nacionais, ao lado de “O Grande Rio”.

O cenário é uma São Paulo extremamente distópica dos anos 2030. Um enorme acampamento sem-teto chamado Campo Fidel ocupa o centro da cidade. Em algum lugar a caminho do porto de Santos, uma grande favela da periferia foi bombardeada há anos por armas químicas pelo governador, numa desastrosa ação de reintegração de posse e tornou-se um “Vale da Morte” inabitável. Poucas horas em meio a seus eflúvios cancerígenos bastam para condenar uma pessoa a uma morte lenta. Por ali, com destino ao porto, deve passar mais um valioso caminhão de leite materno para exportação, protegido por uma escolta fortemente armada. Mas o Campo Fidel precisa do leite para suas crianças, cujas mães foram contaminadas por um anticoncepcional holandês misturado à água que é muito prejudicial às suas crianças.

Assim, sua milícia de guerrilheiros heroicos – ou terroristas fanáticos, dependendo do ponto de vista –, prepara uma ação violenta para interceptar o comboio, sob a liderança do índio Pedro Minanhanga. É excelente como ação e suspense, sem prejuízo de reflexões políticas sérias e sem maniqueísmo. A história é contada do ponto de vista de feios e duros despossuídos e não se escamoteia sua brutalidade, nem sua necessidade de compactuar com duvidosos interesses estrangeiros para conseguir armas e continuar a luta. Faz pensar em organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e seu papel nos conflitos sociais dos anos 90, mas os extrapola para criar uma especulação distópica consistente, que não é mera projeção para o futuro de um passado superado. É um futuro possível do qual o Brasil ainda não está definitivamente livre e, ao contrário de “Era de Aquário”, este conto faz uma séria tentativa de expor e analisar o que está por trás de toda a violência que descreve.
Fecha a coletânea o conto cyberpunk “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, do escritor estadunidense Bruce Sterling, um dos criadores do subgênero. Publicado originalmente em 1989 nos EUA, também já tinha sido editado no Brasil, na coletânea “Futuro Proibido”, de 2003.

O conto passa-se em dias não especificados do século 21, mas aparentemente pouco distantes, nos quais os EUA estão em profunda decadência econômica e suas forças armadas estão paralisadas, devido à dívida pública acumulada pelo excesso de gastos militares. O dólar perdeu seu papel de moeda mundial, substituído por um acordo global entre europeus e japoneses, enquanto novas potências emergentes surgem do antigo Terceiro Mundo, das quais a mais poderosa e confiante é o grande Califado sunita que engoliu Israel e líderes árabes laicos como Saddam Hussein e avança sobre o que restou da União Soviética. Esta desapareceu como potência e está mergulhada no caos desde que um grupo guerrilheiro afegão destruiu Moscou com uma bomba termonuclear, aparentemente cedida pelos próprios EUA. Venezuela, Cuba e Irã são citadas como nações prósperas, cujos turistas dão boas gorjetas.

É curioso como este conto soa muito mais profético hoje do que quando foi escrito. Em 1989, a União Soviética ainda existia, a imprensa estadunidense chamava os talibãs de freedom fighters e os EUA estavam prestes a iniciar a década mais próspera e arrogante de sua história, como superpotência imperial única e senhor incontestado da economia global. A perspicácia do autor percebeu perigos latentes nas tendências de longo prazo, aos quais economistas, analistas políticos e jornalistas da época eram insensíveis. É verdade que o califado árabe ainda é um sonho fundamentalista, mas no tempo em que se escreveu, poucos sabiam no Ocidente que esse projeto existia, nem se esperava que os fundamentalistas viessem a ter um papel político tão importante no mundo islâmico – e graças à ajuda dos EUA, como Sterling apontou. O fenômeno mais importante que lhe escapou foi a ascensão dos BRIC e em especial da China, muito mais rápida que a dos árabes.

É nesse contexto que Tom Boston, um roqueiro negro formado em ciência política e casado com uma refugiada russa, brilha com shows que fazem descontos para portadores de cartões de desemprego e títulos eleitorais, clamam pelo renascimento do país e da democracia e denunciam a hegemonia dos ricos, dos advogados e das corporações que sugam a riqueza dos EUA para os bancos da Europa e Japão. Curioso como o cantor, um populista de esquerda, usa símbolos hoje associados ao Tea Party, como chapéus tricornes, bandeiras da revolução de 1776 e o lema “Não pise em mim”.

Ao chegar a Miami para o show, o protagonista se apresenta a Tom Boston e sua equipe como um jornalista do Cairo (coração do Califado) que admira o rock e tem todos os seus discos (pois é, o pai do cyberpunk não previu o MP3) e quer fazer uma reportagem para a juventude árabe. Mas o leitor, que acompanha seus pensamentos secretos, percebe a dissonância de suas palavras com seu desprezo pela cultura ocidental. Ele “vê as coisas de maneira diferente”. Acha Boston admirável à sua maneira, sim, mas da maneira que um agente dos EUA poderia pensar o mesmo de um Fidel Castro ou Khomeini. Para ele (talvez também para Sterling) o rock tem a força de uma religião.

As frequentes alusões do protagonista ao líder xiita, aliás, são um ponto fraco na verossimilhança do texto, pois dificilmente ocorreriam a um fiel sunita, mas é que, em 1989, ele era o único líder fundamentalista islâmico “do mal” familiar ao público estadunidense. O recém-fundado Hamas ainda não cometera nenhum atentado e tinha as simpatias de Israel (cuja prioridade era enfraquecer a Al Fatah), Osama bin Laden ajudava os EUA a treinar freedom fighters para combater o governo pró-soviético do Afeganistão e o mulá Omar era um deles, tendo acabado de perder heroicamente um olho em batalha.

Prever o futuro não é obrigação da ficção científica. Sua função, além de entreter, é alimentar uma especulação racional e inteligente sobre possibilidades e tendências do presente ou do passado e aonde elas poderiam conduzir (ou ter conduzido), seja apenas para nos maravilhar, seja para nos animar a tornar real a especulação ou, pelo contrário, lutar para que não se concretize. Neste caso, é provável que o próprio Sterling não desejasse que sua especulação chegasse tão perto da realidade. Engraçado como muitos de seus leitores não entenderam isso. Uma resenha de leitor (de 2006, no site da Amazon) ainda o repreende: “o conto postula um Oriente Médio que realmente não mudou. Mas as coisas mudaram um bocado”. É mesmo?