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Cultura

Calçada da memória

Ferocidade máxima

por José Geraldo Couto — publicado 16/04/2013 18h09, última modificação 16/04/2013 18h09
Considerada por muitos a crítica cinematográfica mais influente de seu país, Pauline Kael tornou-se um ponto de referência nos debates sobre o cinema contemporâneo
Pauline Kael

Pauline Kael. Verve sarcástica e independência de opinião

“Quando comecei na carreira, nos anos 1950, as pessoas me diziam: ‘Puxa, você pode ver todos esses filmes de graça!’ Hoje elas me perguntam: ‘Mas você tem mesmo de ver todos esses filmes?’” Desse modo Pauline Kael (1919-2001) resumiu, à época de sua aposentadoria, o declínio do cinema americano.

Considerada por muitos a crítica cinematográfica mais influente de seu país, ela tornou-se um ponto de referência nos debates sobre o cinema contemporâneo, em seu caráter ambivalente de arte e diversão barata para as massas. Filha de imigrantes judeus, nascida e criada no interior da Califórnia, Kael voltou-se para o cinema quando foi estudar Filosofia em Berkeley. Dirigiu cineclubes e passou a colaborar com publicações de São Francisco.

Escreveu entre 1966 e 1967 para a revista The New Republic, mas foi com seus artigos na The New Yorker, a partir de 1967, que consolidou sua temida reputação. Sua verve sarcástica e radical independência de opinião a levou a colecionar polêmicas e inimizades. Em 1966, foi demitida da revista feminina McCall’s devido a uma resenha demolidora de A Noviça Rebelde. Em 1971, publicou um longo artigo na The New Yorker sustentando que o mérito maior de Cidadão Kane não era de Orson Welles, e sim do roteirista Herman Mankiewicz, o que suscitou uma reação irada de Welles.

Publicou uma dúzia de livros, entre eles Perdi no Cinema, Criando Kane e 1001 Noites do Cinema, e ganhou o American National Book Award, o que não a impediu de ser acusada da leviandade de criticar filmes que não tinha visto. Sua aposentadoria, em 1991, causou um misto de tristeza e alívio.

DVDs

A Noviça Rebelde (1965)

Na Áustria dos anos 1930, a ex-noviça (Julie Andrews) vira governanta da família de um oficial viúvo (Christopher Plummer). O musical edificante de Robert Wise conquistou êxito de bilheteria e o apreço de boa parte da crítica, mas Kael o tachou de “mentira coberta de caramelo que as pessoas parecem dispostas a engolir”.

Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967)

Clyde Barrow (Warren Beatty) e Bonnie Parker (Faye Dunaway) colocaram em polvorosa os EUA com seus crimes durante a Depressão. Acusado de glamourizar o casal e estetizar a violência, o filme foi defendido com vigor por Kael
num texto que marcou o início de sua atuação na New Yorker.

O Último Tango em Paris (1972)

O estranho romance entre um norte--americano de meia-idade (Marlon Brando) e uma francesinha (Maria Schneider) prestes a casar com outro marcou época. Para Kael o filme tinha erotismo pungente e hipnótico e a estreia nos EUA
se comparava à da Sagração da Primavera, de Stravinsky.