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Fenômeno Wagner

por Alexandre Freitas — publicado 06/10/2010 11h23, última modificação 06/10/2010 11h23
Fico intrigado de pensar que Wagner ainda atraia tanto interesse em uma época de tanta dispersão e tão pouca paciência. Seria seu lado espetacular e grandioso?

Há quase um ano, fui comprar ingressos para a estreia de “O ouro do Reno”, a primeira parte da tetralogia “O Anel dos Nibelungos”. Assistiria pela primeira vez uma ópera de Wagner. Chego, então, uma hora antes da abertura da bilheteira. Havia 350 pessoas na minha frente, segundo um funcionário da Ópera de Paris. Três horas de fila, no mínimo. Cancelo o projeto.

Um mês depois, em Berlim, consigo um ingresso de última hora para assistir a Lohengrin, sob direção de Daniel Barenboin. Na ocasião não pensei nisso, mas talvez tenha sido melhor mesmo começar por uma obra de uma fase mais inicial de Wagner. A orquestra Staatskapelle Berlin era fantástica, os cantores, todos muitos bons, a direção de Stefan Herheim optou, com sucesso, pelo burlesco. Não me parece apropriado entrar em maiores detalhes dessa representação. Vou falar um pouco de Wagner. Livremente, caoticamente.

Tenho vinte anos de intenso contato com a música que chamamos de clássica e devo ter assistido a umas trinta e poucas óperas na vida. Wagner, entretanto, é sempre um incômodo. Um agradável incômodo, diria. Talvez por carregar uma quantidade absurdamente grande de informações, referências, e por conter em si o germe da implosão do sistema tonal, dessa estrutura que rege a grande parte da música ocidental dos últimos 300 anos. Wagner visava o grandioso projeto da chamada “arte total” (Gesamtkunstwerk), que Nietzsche tanto amou e tanto detestou. Era o “renascimento da tragédia”, onde o dionisíaco e o apolíneo reencontrariam seus ápices. Em uma música densa e caudalosa tudo se confunde: seus fluxos e refluxos, suas tensões e repousos. A memória encontra dificuldade em reter as longas linhas melódicas, apelidadas de “melodias infinitas”. Perdemos o chão. Por vezes, a escuta se torna um pouco aleatória. A atenção se esvai ou se desloca quase completamente para a movimentação cênica ou para o texto. Os famosos leitmotive de Wagner, (melodias que adquirem uma autonomia, representando personagens, objetos simbólicos ou idéias), boa parte deles, não são percebidos em uma primeira escuta. Nem na segunda. O que antes Nietzsche chamou de ápice, mais tarde ele chamou de decadência, “depravação do gosto”.

Não acho que a obra de Wagner deveria ser um privilégio para os iniciados, nem que seria preciso entendê-la tecnicamente para apreciá-la. Longe disso. Mas convenhamos, sua obra é complexa e exige do espectador um esforço, relativamente grande, para acedê-la de alguma forma. Fico intrigado de pensar que Wagner ainda atraia tanto interesse em uma época de tanta dispersão e tão pouca paciência. Seria seu lado espetacular e grandioso? Seria pelo fato dele ter se tornado sinônimo de alta cultura?

Essas e outras indagações me vieram à cabeça quando li, na última quinta no O Globo, duas matérias sobre a estréia do “Ouro do Reno” no Metropolitam de Nova Iorque. A primeira matéria, de Luis Paulo Horta, falava da montagem em si, e a segunda, de Ana Cristina Reis, falava de como é difícil “descer graciosamente de uma limusine” para uma glamorosa estréia no Met.

A direção musical foi de James Levine, 40 anos no Metropolitan, e a cênica de Robert Lepage, do Cirque du soleil. Luis Paulo Horta disse ter se sentido aliviado quando Fricka de Stephanie Blythe, “gorda e poderosa como as cantoras de antigamente”, entra em cena, depois de uma sequência de pirotecnias. Ele completa: “Ópera é isso: voz, presença cênica, musicalidade”. Acrescentaria: arte de fusão, de coexistência. É preciso haver uma unidade, algum tipo de equilíbrio entre as dimensões visuais e musicais. Como poderia uma voz, não amplificada, em uma grande sala, competir com efeitos visuais amparados por todo tipo de tecnologia? Horta diz ter achado a voz de Bryn Terfel sem brilho. Será que tanto brilho visual não pode ter ofuscado o de sua voz? Não sei. Mas sei que a “arte total” de Wagner é conduzida pela música. A coexistência de todos os elementos se dá através dela. Porém, sobretudo nas montagens bem sucedidas, essa coexistência não acontece sem algum tipo de tensão ou disputa. Estabelece-se sempre um compromisso provisório e a obra se exibe em sua união e sua desunião.

A segunda matéria de O Globo me pareceu bem curiosa e, talvez, reveladora. A descrição da estréia de “O Ouro do Reno” poderia ter sido feita para a Rio Fashion Week, com algumas pequenas adaptações, evidentemente. A autora achou elegante comentar a elegância, inclusive a própria. Como é bacana poder estar no meio de pessoas que pagaram até 1700 dólares para um lugar!, parece pensar a “nobre” colunista. Seu vestido era super wagneriano, segundo seu marido. De alta cultura ele passa a alta costura. É a voz da nossa classe média alta. Que tristeza...

Enfim. Wagner continua provocando. Incomodando. Seduzindo pelo poder de sua música, pelo poder das imagens que ele suscita ou por outro tipo de poder que não sei qual é. É o fenômeno Wagner.