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A felicidade a qualquer preço

por Matheus Pichonelli publicado 09/08/2011 15h09, última modificação 06/06/2015 18h55
Em “Melancolia”, Lars von Trier deixa à mostra as fragilidades dos sonhos sobre felicidade e encantos alimentados para preencher vidas vazias. Por Matheus Pichonelli
A felicidade a qualquer preço

Para quem gostava de brincar de castelo e princesa quando criança, e depois de criança, Lars von Trier vem com mais uma patada no estômago. Desta vez, com o anúncio do apocalipse. Por Matheus Pichonelli. Foto: Christian Geisnaes

No último sábado, andei por uma loja infantil de shopping center à procura de presentes para a filha de uns vizinhos que, no dia seguinte, completaria sete anos. Entre incontáveis prateleiras de brinquedos que cantam, dançam, gingam e contam piadas, havia uma pequena bancada com alguns livros que me chamou a atenção – e onde achei que encontraria, talvez, o presente mais original entre tantos das prateleiras.

Ao perceber minha curiosidade, a vendedora se aproximou e mostrou todos os exemplares de uma coletânea, feita para o público infantil, de histórias sobre princesas. Que, além de histórias, traziam seções de recorta-e-cola e espaços para colorir coroas em tamanho real, vestido, sapato, flores, arranjos. Tudo de princesa para princesa, ela explicou.

Olhei em volta e me dei conta da infinidade de referências a castelos e principados ao meu redor. Desisti do livro, imaginando que os sete anos já teriam sido tempo suficiente para desimpregnar o sonho do conto de fadas eventualmente já convertido em maturidade pela vizinha e as amigas da mesma idade.

Mudei de ideia ao ver, no dia seguinte, já no salão de festas, a mesma infinidade de referências aos encantos que imaginava enterrados. Era a perpetuação, flagrada na origem, das mesmas histórias sobre triunfos e heroísmos protagonizados por pessoas que há muito deixaram os sete anos e hoje narram os feitos de seus esforços homéricos para alugar palácios reais e preparar as melhores festas de casamento, aniversários ou festas de 15 anos em redutos plebeus.

É possível que o enfado em torno das conversas sobre investimento, retorno, conversas sobre a geometria da casa própria, álbum de fotos, buquês, brindes e limusines não tirasse da cama a melancolia de Justine, personagem vivida por Kirsten Dunst em “Melancolia”, no filme feito sob medida por Lars von Trier para ilustrar nossos dias de buscas por encantos eternos para preencher vidas vazias, e comuns. Não é à toa que, como lembra o filósofo Vladimir Safatle, em artigo recente na Folha de S.Paulo, que Lars Von Trier seja hoje um dos poucos cineastas "realmente necessários para nossa época", capaz de provocar as melhores reflexões contemporâneas sobre moralidade e seus impasses.

No longa, o primeiro sinal de que algo está deslocado na indústria de sonhos pré-fabricados é lançado logo no início, quando a limusine que leva Justine e o marido Michael (Alexander Skarsgård) à festa de casamento – num casarão cercado por lagos, prados e campos de golfe –  emperra numa estrada estreita, lamacenta e cheia de pedras. A limusine, como os sonhos, parece grande demais para uma realidade que se apresenta árida. Poucos ao redor de Justine parecem se dar conta disso, exceto ela – que, por motivos aparentemente incompreensíveis, mal disfarça o mal-estar dentro de seu próprio dia de princesa.

Na impecável festa preparada para ela, patrocinada por um cunhado, John (Kiefer Sutherland) – o dono do casarão que não se cansa de dizer que a cerimônia lhe custou os olhos da cara – tudo parece sair das páginas de um livro baseado em sonhos. Do arranjo às músicas, passando pelos discursos sobre amores eternos feitos pelo marido, Lars von Trier cuidou de todos os detalhes da decoração para mostrar que nada se parece mais com o inferno do que aquela cerimônia. O pano de fundo está lá, impecável, mas a missão delegada à noiva soa algo como assustadora: ela é desafiada, a cada cena e a cada instante, a ser feliz, a rir o tempo todo, a ser como as pessoas gostariam de ser, e não são.

E o casamento, àquela altura, não é outra coisa se não a amostra grátis de uma felicidade comprada a prestações, da infância à vida adulta. Porque somente um sorriso de princesa é capaz de entorpecer os convidados, entre eles os pais da noiva que não escondem a infelicidade exposta por uma relação que não deu certo. Ou a irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), espécie de mestre de cerimônias, que se apoia no discurso da união familiar para esconder de si mesma o tédio a que está condenada ao lado do marido naquele “castelo” onde reina o vazio. Tudo mais ou menos como a estratosfera da audiência espalhada pelo Planeta que, por alguns instantes, imaginou que a vida poderia ser diferente da sua ao assistir, boquiaberta, ao casamento de Kate Middleton e o príncipe William, na Inglaterra.

Se em filmes anteriores o diretor dinamarquês expôs com precisão as pequenas tiranias incorporadas nas pequenas ilhas sociais nas quais um único personagem, aparentemente ingênuo, era forçado a engolir cada tapa da vida até a sua completa destruição moral e física – como fez em “Dogville”, “Manderlay” e “Dançando no Escuro” – desta vez é o personagem que se antecipa à fragilidade do mundo ao seu redor. Justine já não é a frágil Grace, que um dia acreditou que sua boa vontade a livraria da crueldade canina das pessoas à sua volta.

Diferentemente dela, Justine já percebeu que não tem a menor capacidade de curar as feridas da desagregação herdada pelos pais. Justine dá de ombros para as formalidades montadas ao seu entorno, e parece desconfiar que as esperanças depositadas na cerimônia não devem sobreviver ao primeiro sopro que exponha não só a fragilidade humana, mas a fragilidade dos próprios sonhos.

Numa das mais simbólicas cenas do filme, Justine confessa à irmã que mal consegue aproveitar a festa porque um fio cinza do vestido lhe aprisiona os movimentos. Todos parecem ter certeza sobre tudo, mas ela não. Por isso, lamenta que, apesar de sorrir o tempo todo, não consegue disfarçar o pavor que sente pela obrigação de estar feliz. Essa incapacidade é exposta nas pequenas fugas que realiza dentro da própria festa. (Que tal um banho de banheira entre a valsa e o corte do bolo? Ou uma escapada para uma rapidinha com um dos convidados enquanto o marido “recém-empossado” a espera?)

Entre regras e transgressões enclausuradas em sua própria festa, a ameaça de um planeta desconhecido – não por acaso batizado como Melancolia – atingir em cheio a Terra e acabar com a vida humana não é sequer capaz de fazê-la franzir a sobrancelha. Porque, no mundo que ela acaba de herdar, não é a sensação de finitude que a angustia, mas o seu contrário: a sensação de que tudo pode durar enquanto for eterno. Esse infinito nada mais é que a estrada estreita e sem-graça onde tentam encaixar a limusine, como se a felicidade fosse também insustentável num planeta despedaçado e que, no primeiro sinal de perigo (e catástrofe), cada um fatalmente correrá para um lado. Não é por acaso que justamente o cunhado, dono do castelo, pai e marido exemplar e que se gaba de patrocinar o regabofe, seja o primeiro a acusar o golpe quando desconfia que seus planos (e castelos) serão despedaçados caso haja a colisão entre planetas: justo ele, que na TV é ninguém menos que Jack Bauer, da série 24 horas...

O desapego pelas convenções é o que explica a indiferença de Justine em relação à sua felicidade forjada, mas também em relação à morte. Ela sabe que, perto do tédio e da covardia que a rodeia, a melancolia (que já foi chamada de “depressão com aura”) é apenas um alento. Só que isso não está escrito nos livros sobre princesas nem nos catálogos de decoração para a festa de nossos sonhos.