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Falta um Bergman

por Rosane Pavam publicado 10/03/2011 09h28, última modificação 10/03/2011 11h27
Vencedor do Oscar navega nas dores masculinas. Trata-se de uma tentativa fílmica de redefinir a masculinidade onde ela parece arrefecer

Vencedor do Oscar navega nas dores masculinas

Em um mundo melhor

Susanne Bier
É  duro crescer menino, e não apenas aqui. Imagine que na Dinamarca também. Pior ainda se, além de pertencer ao sexo masculino, sueco em terra estrangeira, com um jeito só seu de falar e os dentes fora de posição, o garoto tiver um pai médico humanista, cujo trabalho será clinicar em algum lugar primitivo, distante demais dele. Sua vida, a cada dia, significará ameaça. Ao discutir esse tópico em um filme de ficção, a diretora dinamarquesa Susanne Bier ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro no último dia 27.
Estranhamente, não parece ser este um filme sobre a humilhação pública escolar, que também se revela cotidiana (surpreendemo-nos) entre os supremos civilizados. Trata-se, antes, de uma tentativa fílmica de redefinir a masculinidade onde ela parece arrefecer. Quiçá envergonhados por sua ascendência bárbara, os meninos nórdicos vivam de conter a agressividade. Não é difícil imaginar que diretores e professores compreensivos deem nos nervos deles, já que produzem o mesmo efeito no espectador que os vê neste filme.
Em um Mundo Melhor  parece querer levantar duas questões. Como ser um verdadeiro homem? Como criar um menino? Tais perguntas, contudo, são desenvolvidas de maneira titubeante no filme. Para concluir que o homem deve ser compreensivo até o momento em que se tornará forte, a diretora forçará uma comparação com a África, lá onde trabalha Anton (Mikael Persbrandt), o pai do humilhado Elias (Markus Rygaard). No campo de refugiados do continente estão as mentes simples e os corpos alegres, ao contrário do que ocorre na Dinamarca, e essa comparação entre duas sociedades, para efeito de resolução dramática, será vendida no filme sem pudor.
No continente africano do filme surgirá uma figura ameaçadora, o Machão, cujo sórdido hábito será matar mulheres, e Anton provará com ele se a ética médica e a civilidade farão o mínimo sentido na hora de resolver conflitos. O curioso é que, nessa reprodução de família dinamarquesa, a mulher do médico (Trine Dyrholm) se mostre bem mais dura que seu marido. De ferro é também o amigo de Elias, Christian (William Nielsen), que em favor do filme algo revive fisicamente o Jean-Pierre Léaud de Os Incompreendidos. Mas ambos, esposa e amigo, serão mecânicos em sua fortaleza, às vezes risíveis por isso.
O filme caminharia bem se admitisse que o absurdo da existência mora em todos nós, africanos ou europeus, e que um átimo na vida é o que nos torna demasiado humanos. Ingmar Bergman não precisou viajar à África para concluir isso tantas vezes antes.