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Falha de sistema

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/11/2009 16h51, última modificação 09/09/2010 16h55
A edição brasileira de Nevasca (Aleph, R$ 49, 440 páginas), romance de ficção científica cyberpunk de Neal Stephenson publicado originalmente nos EUA em 1992, chegou às livrarias em setembro de 2008 e pedimos desculpas pelo atraso de mais de um ano em resenhá-lo, embora pequeno em relação ao atraso de 16 anos em traduzi-lo e editá-lo.

A edição brasileira de Nevasca (Aleph, R$ 49, 440 páginas), romance de ficção científica cyberpunk de Neal Stephenson publicado originalmente nos EUA em 1992, chegou às livrarias em setembro de 2008 e pedimos desculpas pelo atraso de mais de um ano em resenhá-lo, embora pequeno em relação ao atraso de 16 anos em traduzi-lo e editá-lo.

Muito bem vendido e cultuado nos EUA, esse livro fez poucos adeptos no Brasil. Para começar, o título e a capa não foram bem adaptados e não ajudaram a aclimatá-lo. O título original, Snow Crash, refere-se a uma falha de sistema característica dos primeiros computadores Macintosh, que resultava numa tela de pontos aleatórios semelhante à estática de um televisor antigo sintonizado em canal não existente – efeito conhecido em português como Chuvisco. Teria sido preferível usar essa palavra, o título em inglês ou outra adaptação qualquer (até o francês Le Samouraï virtuel soa mais convidativo). De resto, a tradução de Fábio Fernandes, fluente e coloquial, é bastante satisfatória. Excetuados uns poucos tropeços, principalmente no que se refere a unidades de medida.

A capa também não foi feliz. A composição parece vagamente inspirada na edição estadunidense (http://en.wikipedia.org/wiki/Snow_Crash ), mas deixou que se perdesse seu significado. Na capa original, o herói olhava para uma Los Angeles futurista através de um portão em uma muralha babilônica, aludindo a um segredo dos antigos sumérios que se mostra decisivo para a trama. A versão da Aleph mostra uma cidade tradicional (nada parecida com uma metrópole californiana) através de uma arcada convencional, em nada relacionada com o livro. Ninguém diria que se trata de ficção científica. A combinação de título e capa provavelmente não chamou, nas estantes, a atenção dos fãs do gênero – enquanto texto e chamadas não são de entusiasmar os apreciadores de uma literatura mais tradicional.

De qualquer modo, é preciso dizer que um sucesso estrondoso seria de surpreender. Não merece, nem de longe, a influência que teve, nem a classificação (em 85º lugar) entre os 100 melhores romances em língua inglesa desde 1923, que lhe deram dois críticos da revista Time em 2005. É discutível até se deveria constar nem entre as cem melhores obras de ficção científica. Parece ter sido um dos livros de ficção científica mais superestimados de todos os tempos, além de já chegar fora do prazo de validade. Quase tudo que ali se apresentava como a última palavra em moda pseudointelectual já envelheceu e tornou-se lugar-comum ou maneirismo obsoleto. Vale notar que, embora não seja mencionado o ano dos acontecimentos, o personagem principal nasceu nos anos 70 e está na casa dos trinta, o que permite concluir que, a rigor, o futuro ali descrito estaria acontecendo... hoje.

A obra inclui detalhes de especulação tecnológica divertidos ou interessantes, mesmo se não muito verossímeis, como skates supertecnológicos que valem pelos melhores carros da franquia James Bond e são usados por mensageiros apressados, equivalentes mais jovens e menos responsáveis dos piores motoqueiros de São Paulo. Também são curiosas as “coisas-ratos”, cães de guarda cyborgs capazes de correr a velocidades supersônicas.

Já o "Metaverso", universo virtual imaginado nessa obra, certamente também pareceu interessante na época, mas hoje soa datado e parece mais pobre – e, ao mesmo tempo, mais elitista – que qualquerSecond Life da vida. Vale notar que a expressão “avatar”, hoje lugar-comum para as imagens que representam usuários da internet em fóruns e jogos, foi popularizada (mas não inventada) por esse livro.

Também há algo de aproveitável no humor irônico em relação aos valores e ao modo de vida da classe média californiana de condomínios fechados mais ou menos análogos às nossas Alphavilles. No livro de Stephenson, esses condomínios se tornam estados soberanos em rede, chamados “franchulados” – uma tradução não inteiramente satisfatória de franchulates, cruzamento de “franquia” (franchise) e consulado (consulate), com suas próprias alfândegas, moedas, leis, prisões e, por assim dizer, justiça.

Mas é uma ironia superficial e em parte cúmplice: o autor vê com simpatia essa perspectiva de uma sociedade individualista, egoísta e fragmentada, concebida de acordo com as concepções libertarian ou anarcocapitalistas tão populares entre autores de ficção científica e o geeks dos anos 90.

Não recua nem mesmo ante a consequência óbvia de fazer do crime organizado, principalmente a tradicional Máfia siciliana, um dos maiores beneficiários do sistema. Entre outras coisas, essa organização monopoliza o serviço de entrega de pizzas na América do Norte, com o compromisso de atender a qualquer pedido em até 30 minutos. Em caso de falha, o próprio capo de tutti i capi pedirá desculpas pessoalmente ao cliente – e o entregador, presumivelmente, perde a cabeça.

Assim como o cartel do narcotráfico colombiano, a Máfia governa muitas comunidades e é pintada como humana e extremamente competente nessa atividade. Stephenson faz do supremo capo um dos seus heróis mais simpáticos e de sua organização uma benfeitora da humanidade. É o caso de nos perguntarmos se a verdadeira Máfia não ajudou a persuadir os críticos das qualidades dessa obra que tanto a exalta.

Já o que resta do governo federal dos Estados Unidos – que continua a ter um presidente e emitir uma moeda extremamente desvalorizada, apesar de controlar apenas uns poucos prédios e terrenos esparsos – não merece sequer a dignidade de ser um antagonista respeitável. Não passa de uma patética organização de pistoleiros e programadores medíocres contratada pelo verdadeiro vilão, L. Bob Rife, dono de uma igreja neopentecostal cujo nome e personalidade são claramente calcados no falecido L. Ron Hubbard, escritor de ficção científica que fundou a chamada Dianética e a seita da Cientologia.

A verdadeira chave do sucesso deste livro parece ter sido a adulação despudorada dos valores geek e teen. O personagem principal, Hiro Protagonist (sic), além de entregar pizzas, é o melhor hacker do mundo, um organizador de shows de fuzz-grunge que fazem sucesso estrondoso e de quebra é samurai, "o maior espadachim do mundo". Filho de um negro com uma coreana, é dono de aparência única e chamativa.

Um agregado de características mais que um tanto improvável, que só faz sentido enquanto devaneio de um nerd dos anos 90, fanático por videogames de ação com armas vistosas. Mais ou menos comoSuperman era o devaneio do nerd dos anos 30. É pobre e tem dificuldades com as mulheres, mas de resto é praticamente invencível e tem uma sorte inacreditável.

Vale notar que, para esse Protagonista com P maiúsculo, só há quatro coisas que a vaga “América” de seu tempo e realidade (conceito puramente geográfico, pois os Estados Unidos, enquanto nação, deixaram de existir) faz melhor que todo mundo: música, cinema, microcódigo (software) e entrega de pizza em alta velocidade, exatamente as quatro coisas que ele, modestamente, faz. Seu julgamento parece coincidir com o do autor e seu público e revela sua estreiteza, ao menos no que se refere ao primeiro item. Por “música”, entende-se, única e exclusivamente, o pop norte-americano. Mesmo se a bem-sucedida banda que o personagem promove é liderada por um ucraniano.

O segundo personagem em importância é Y.T., uma adolescente skatista bonitinha, sócia de Hiro, que zomba dos piores vilões na cara deles, enfrenta os piores perigos e sempre se sai bem - é o Robin do Batman da história. Todo mundo a adora, inclusive o chefão da Máfia e o assustador Corvo, assassino munido de bombas de hidrogênio que é o mais temível agente do arquivilão. Por mais que tenha um aspecto cool e modernoso, Y.T. representa a mais brega e bobinha das fantasias femininas: o sonho de ser capaz de seduzir e manipular até os piores bandidos com beleza e jeitinho. Assim como Hiro, representa o que entre ficcionistas amadores é conhecido como uma “Mary Sue”: um personagem idealizado, praticamente sem defeitos que representa uma projeção do desejo do autor – e eventualmente do leitor, se este estiver sintonizado nas mesmas expectativas e valores.

Os outros personagens são ainda mais estereotipados: arquivilão, namorada do herói a ser reconquistada, mafiosos, assassinos eficientes e silenciosos, russos toscos e brutais. As relações entre eles são forçadas e arbitrárias (sendo a mais forçada a maneira como Y.T. se torna protegida do chefão e paixão do assassino). A história, desconjuntada, tem mais cara de história em quadrinhos ou videogame, sem muita preocupação com plausibilidade e verossimilhança, do que com literatura. Muitas perseguições e tiroteios com veículos e armas vistosas, ainda que improváveis. O final, tosco e abrupto como um golpe de sabre, deixa inúmeras pontas soltas.

O aspecto especulativo, talvez o mais importante para o leitor de ficção científica, é um amontoado de bobagens a serviço da adulação da ideologia geek. Faz dos hackers literalmente os donos do mundo desde a Suméria, programando corpos e mentes por meio da religião e da cultura. Todo dado cultural, toda ideia é tratada como um programa que roda nos sistemas nervosos humanos e deles toma posse. Religiões e ideologias são vírus criados por antigos sumerianos – ou, talvez, simplesmente caídos do espaço – pelo qual humanos são dominados.

Mas Stephenson acredita também em antivírus ou vírus benignos criados por “bons” hackers, que são aqueles das religiões com as quais simpatiza (aquelas que ele considera racionalistas e individualistas), a saber um imaginário judaísmo isento de legalismo e um imaginário cristianismo isento de hierarquia, teologia e dons do Espírito Santo, como “deveriam ser” se não fossem contaminados pelos vírus arcaizantes das prostitutas da Babilônia, culturadoras de Asherah... das quais a manifestação moderna seria o pentecostalismo e seu irracional “falar em línguas”. Isto seria nada menos que o retorno à superfície e expressão direta de antigos programas sumérios, cuja língua, como “linguagem de máquina” original do cérebro humano, teria estranhos poderes.

Baseada numa versão especialmente fantasiosa de uma especulação de Richard Dawkins sobre a cultura como agregado de “memes” (informações que buscam reproduzir a si mesmas, independentemente de significado e utilidade) essa teoria é explicada de forma literariamente inábil, através de diálogos longos e tediosos do Protagonista com um bibliotecário virtual, no qual se misturam programação neurolinguística, teoria da informação, arqueologia mesopotâmica e uma leitura curiosamente fundamentalista da Bíblia – entre outras coisas, leva-se praticamente ao pé da letra o mito da Torre de Babel.

Além de dar por fatos estabelecidos e enciclopédicos teses bastante polêmicas sobre história e religião antigas, o narrador quer fazer crer que o sumeriano foi em algum momento a única linguagem humana, aparentemente ignorando que essa língua e civilização conviveu com muitas outras, destacando-se apenas por ter sido uma das primeiras a desenvolver uma escrita. É mostrar um bocado de ignorância a respeito da existência de outras culturas, outras religiões e outras interpretações da história e da arqueologia.

Aparentemente, o autor ignorava, ativa ou passivamente, a existência de civilizações a leste da Mesopotâmia. Mais que isso, não conhece ou prefere não tomar conhecimento das complexidades e contradições de sua especulação e prefere disfarçá-las com as distrações pirotécnicas e um maniqueísmo dos mais ingênuos. Se tudo são programas que nos manipulam, por que preferir ser manipulados por estes e não por aqueles? Se tudo é código auto-replicante, se nenhuma expressão tem real significado ou conexão com o que seu autor pretende significar, que resta da experiência humana?

Ao que parece, apenas a satisfação de receber uma pizza em menos de trinta minutos e sentir-se um pouco mais seguro que os miseráveis refugiados asiáticos que vagam pelo mar em busca de um lugar onde pisar – e que os heróis se dedicarão a empurrar de volta para o mar –, portadores todos de um temível vírus promíscuo, coletivista e pentecostal que ameaça liquidar o individualismo egocêntrico e solipsista dos geeks californianos.

É esse o programa com o qual Neal Stephenson quis nos inocular. Mas chegou tão atrasado e desconectado em relação à realidade brasileira de 2009 quanto um vírus escrito para o Windows 3.0 em um laptop Linux de hoje.