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Cultura

Refogado

Evoé

por Marcio Alemão publicado 10/02/2013 08h26, última modificação 06/06/2015 18h56
O tema de As Bacantes torna-se oportuno para a folia. Passarei a festa acompanhado do vinho Kallisti, o que será uma grande diversão

Uma reparação: há meses falei sobre um estranho vinho grego, Kallisti, Santorini, que é importado pela Mistral. Cheguei a comentar com os que degustaram o dito comigo que o vinho me trouxe lembranças da tragédia grega e que seus aromas e sabor me lembravam visgo, ruínas e um pouco do cavalo de Troia. Um amigo sugeriu que o vinho evocava trechos do mito da cavernade Platão.

Tirésias também foi mencionado. Ele teria sido o “inventor”, se podemos usar esse substantivo, das degustações às cegas. Comentei o ocorrido com Ciro Lilla, dono da Mistral, e ele estranhou. Recebi em casa tempos depois uma nova garrafa e um e-mail.

A safra que provamos, a de 2005, creio, também para o Ciro desceu com estranhos sentimentos. Deu-me a de 2010 para provar. Mais uma vez chamei os amigos e dessa vez a alegria foi grande. Um vinho delicioso, acidez perfeita, corpo esbelto.

Saltam do calendário, como nos velhos filmes, as folhas com dias, meses e a câmera vai se aproximando do livro que leio: As Bacantes, de Eurípides. A certa altura, o mencionado Tirésias (aliás, falando em cinema e em coisas gregas, Tirésias tem papel importante no filme de Woody Allen Poderosa Afrodite) manda um discurso sensacional sobre o pão e o vinho: “É que há duas coisas, ó jovem, que ocupam o primeiro lugar entre os homens: a deusa Deméter, que é a Terra, seja qual for o nome porque queiras designá-la; é essa que nutre os homens com alimentos secos; e o que chegou depois, o rebento de Semele (Dioniso), o que, para completar, inventou e introduziu entre os homens o licor dos cachos, o licor que faz cessar os desgostos dos atormentados mortais, quando se enchem da torrente da videira, e proporciona o sono como olvido dos males do dia a dia nem há outro remédio contra o sofrimento. É ele que, sendo deus, é oferecido em libação aos deuses, de modo que é a ele que os homens devem as suas bênçãos”. O “licor que faz  cessar os desgostos dos atormentados mortais” é uma definição e tanto.

E o tema de As Bacantes mostra-se oportuno para a folia de Momo que estaremos vivendo nos próximos dias.

Particularmente não consigo imaginar festança mais aborrecida.

Aprecio, claro, os dias de ócio nos quais podemos fazer as justas libações. Preocupa-me o exagero tradicional que evoca o período, mas que talvez não seja assunto desta coluna.

Recomendarão todos os que estiverem prestando serviços por meio da mídia que os foliões se alimentem de comidas leves e bebam muito líquido. Como incentivo e exemplo, o carnaval carioca começa com a Feijoada do Amaral, que completa 35 anos e este ano será realizada no Jockey Club. Pode ser uma travessura de minha memória, mas ao me lembrar desse evento, o que vejo é alguém muito suado e obeso atribuindo uma importância extraordinária ao evento.

Também me lembro de avós e tias na frente de uma tevê, se abanando com leques, bonitos leques, e tecendo um ou outro comentário sobre os intermináveis desfiles. De vez em quando aparecia outra tia trazendo umas balinhas de ovo ou um suco. Se trouxesse um revólver, tenho quase certeza de que seria utilizado.

Bom mesmo, para os garotos naquele tempo, em 1968-1969, coisa que eu era, era aguardar a revista Manchete que conseguia fotos obscenas em bailes e desfiles.

Ou seja: posso dizer que não tenho lembranças espetaculares, tampouco saudade da folia de Momo.

Tentarei comer a salada de polvo com macarrão de soja no chinês Ton Hoi. É fria, é fresca, é rica de sabores, um monte deles e tudo muito equilibrado.

O grego Kallisti vai me acompanhar.

Para mim isso é uma grande diversão. E voltarei de táxi para casa.