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"Eu vivo o acaso"

por Rosane Pavam publicado 21/02/2011 18h07, última modificação 22/02/2011 11h25
Em A Senhora de Dubuque como na vida, Karin Rodrigues enfrenta a perspectiva da morte com leveza e humor
"Eu vivo o acaso"

Em a Senhora de Dubuque como na vida, Karin Rodrigues enfrenta a perspectiva da morte com leveza e humor. Por Rosane Pavam. Foto: Nilton Silva

Em A Senhora de Dubuque como na vida, Karin Rodrigues enfrenta a perspectiva da morte com leveza e humor

Em outubro de 2007, a atriz Karin Rodrigues viu o marido Paulo Autran despedir-se dela de maneira incomum. O grande ator brasileiro fumante compulsivo e então com 85 anos, seria sedado após a conclusão médica de que nada mais caberia para reanimar seu pulmão em frangalhos. Karin então perguntou ao marido, essencialmente seu melhor amigo, se estava consciente do procedimento a que seria submetido e, o principal, se algo nessa intervenção especializada o incomodava. Paulo lhe respondeu que não era perturbado por nada. Ele se sentia muito bem e esperava o fim com alegria. Como gesto final, mexeu os dedos em um aceno de adeus para Karin, a atriz com quem constantemente trabalhara e com quem se casara quase dez anos antes.

É um retrato da morte tão grandioso quanto inesperado o que envolve um dos maiores artistas dos palcos, cinema e televisão brasileiros, embora, para Karin, aquele momento protagonizado por ele não lhe sugerisse tanta estranheza. O ator, como antes o escritor argentino Jorge Luis Borges, sempre revelara grande ansiedade positiva (ainda que se pudesse desconfiar, racional) em relação ao instante no qual se transformaria em nada. Mas Paulo Autran de fato pareceu não acreditar nas promessas religiosas de um paraíso ou da dor eterna. Ele aguardava o completo fim, pelo qual hoje, aos 75 anos, Karin também diz esperar.

Não se trata, contudo, de uma mulher entristecida por um destino tão humano, essa mãe de dois filhos que vê na morte a extinção de tudo. Ela só temeu morrer enquanto foi jovem e, bela descendente de alemães e russos, amou os homens, os comuns tanto quanto os especiais. Hoje, o sol a acompanha como uma figura poética e molda o sorriso que raramente abandona seu rosto, emoldurado por cabelos brancos e curtos. Mas o sol também tem presença física na casa paulistana repleta de belos móveis de madeira, inusitadas esculturas de bronze e grandes livros de ensaios, romances e biografias onde a atriz mora, na companhia de quatro cachorros vira-latas. Situada em bairro sofisticado, a casa foi comprada após o sucesso da peça Pato com Laranja, de William Douglas Home, protagonizada por ela e Paulo Autran em 1979, quatro anos depois de atuarem juntos na montagem do Equus de Peter Shaffer.

Os últimos dias de Paulo Autran ligam-se “casualmente” à volta da atriz ao teatro depois desse intervalo de quase quatro anos desde sua morte. “Eu vivo o acaso”, sustenta a atriz, embora um senso de extrema organização percorra cada canto de sua residência, lá onde nada parece fora do lugar ou exatamente fortuito. Sobre o gramado bem tratado do jardim, ela um dia usou colheres para jogar as cinzas do marido, em cerimônia realizada ao lado de pessoas de sua intimidade. “Paulo e eu fomos amigos até o fim.”

Apesar de tudo findo, Karin sugere andar ao lado daquele homem ainda, e em alguns momentos fala do grande ator no tempo presente. Ele parece acompanhá-la até mesmo ao Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros paulistano, o palco onde pela primeira vez o País assiste a uma montagem de A Senhora de Dubuque, do norte-americano Edward Albee. A peça, que ali permanece em cartaz até o dia 6, busca entender de maneira enigmática e irônica a proximidade da morte. Vestida de negro e alternando o ar grave com aquele de quem muito se diverte, Karin aparentemente a encarna sem qualquer cansaço. Ela diz que não procurou montar a peça, muito menos viver o papel titular nesta montagem dirigida com graça excessiva por Leonardo Medeiros. Apareceu o texto e ela o enfrentou, com a inteligência que reivindica ser imprescindível a todo ator.

Em A Senhora de Dubuque, Edward Albee reforça a certeza de que não haverá tempo para lidar com a morte, já que ela surgirá no momento devido para devorar tudo. É um texto típico desse dramaturgo disposto a colocar a crueza existencial diante de quem a ignora. Os companheiros que Karin Rodrigues tem neste palco, como a atriz Alessandra Negrini no papel da jovem agonizante, sofrem para representar o sentimento de desapego que deve acompanhar quem vive. Mas Karin está à vontade, treinada e exigida pela vida para enfrentar tal constatação.

Ela já foi de atirar pedras e outros objetos em quem a deixava numa situação de desconforto. Pequena, no Brasil que assistia à Segunda Guerra Mundial, sofreu a rejeição das crianças que não desejavam sua presença de ascendência germânica entre elas. Daí o punho da menina sempre preparado para lutar. “Não sei como minha mãe não percebia o que eu passava”, ela diz daquela senhora alemã alegre, de natureza artística, ligada à celebração e à música, arte que por um grande período o neto George Freire, ao saxofone, também trilhou.

Engana-se quem julgue existir em Karin Rodrigues qualquer traço do que é superficial. Ela se diz apenas determinada a ser feliz, coisa para a qual muito trabalha ainda, bordando, cuidando do jardim e dos cachorros, apreciando comida boa. Ao lado de Paulo Autran, ela parecia ser “a última da classe”, mas, em compensação, com ele muito aprendeu sobre talento e vocação. Garante que, ao contrário do ator, jamais sentiu ter as duas coisas em igual medida.

Não que ela deixe de amar o teatro. Ele figura entre seus grandes e principais amores. E é por amá-lo ainda que a atriz sonha em protagonizar Sonata de Outono, embora tantos produtores brasileiros vaticinem fracasso certo para esse texto em palcos locais. Como se suspeitava, Karin também gosta, ainda que ocasionalmente, de planejar. No dia em que ela encontrar o diretor ideal, que atente à encenação geral do espetáculo tanto quanto, particularmente, ao seu trabalho de atriz, encenará sem hesitar o papel cedido a Ingrid Bergman no filme célebre do sueco Ingmar, de 1978, em torno de mais vidas que se aproximam do fim.