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DVD 2

Eterna ambição

por Orlando Margarido — publicado 26/06/2011 08h44, última modificação 26/06/2011 09h44
Em Alma em Suplício, Michael Curtiz aborda a escalada econômica e social a qualquer preço numa América prestes a se encontar com o sonho da prosperidade
Eterna ambição

Joan Crawford em filme de Michael Curtiz, um compêndio do arrivismo

Alma em Suplício é um compêndio do arrivismo. Poderia ser moldado a partir de uma safra atual de escândalos financeiros e políticos que tomam a mídia, ou que se esboça mais ou menos como ficção na teledramaturgia de hoje e de ontem. É um preceito eterno, portanto. Mas Michael Curtiz o fez definitivo em 1945, quando a questão da escalada econômica e social a qualquer preço se enquadrava numa América recém-saída da Depressão e da guerra e prestes a se encantar com o sonho de prosperidade. Nesse vácuo se encontra Mildred Pierce, a personagem-título original do filme, mãe prestimosa de uma jovem cruel em sua índole ambiciosa, que negará a vilania da filha mesmo sob o peso da lei.

Esse limite é o desfecho da história, revista então em flashback na própria voz de Mildred, interpretada por uma altiva, mas algo contida, Joan Crawford, depois de um assassinato. Dona de casa abandonada pelo marido em favor de uma amante, ela custeia a vida das duas filhas como garçonete e

doceira até que a oportunidade de abrir um restaurante em sociedade decola. Enriquece, mas não o suficiente para Veda (Ann Blyth), a mais velha, que lhe joga na cara o dinheiro suado, sem estirpe. Sintomático que os homens a rondar Mildred sejam igualmente amorais e vis, à maneira do corretor interessado em conquistá-la ou do herdeiro decadente que dela se aproveita.

Vulnerável pelo amor cego à filha, torna-se presa fácil. O contexto não poderia ser mais melodramático. Curtiz, com o aval do sucesso de Casablanca, ainda ousou ao mesclar o registro com o noir e também por isso foi copiado. Mas nem sempre de modo convincente, como se viu numa recente refilmagem em formato de minissérie na HBO.

Alma em suplício, direção de Michael Curtiz. Versátil, R$ 42