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Estantes rodoviárias

por Rosane Pavam publicado 26/12/2008 15h17, última modificação 16/09/2010 15h18
Gostaria de agradecer aos leitores a constância deste ano. É um agradecimento de certa forma emotivo, porque tenho em alta conta quem se entrega por um minuto a reflexões alheias como as minhas, e delas tira proveito. Considero uma felicidade cada observação entre aquelas que me fazem. Deve ser uma espécie de mania que adquiri, essa de ler comentários.

Gostaria de agradecer aos leitores a constância deste ano. É um agradecimento de certa forma emotivo, porque tenho em alta conta quem se entrega por um minuto a reflexões alheias como as minhas, e delas tira proveito. Considero uma felicidade cada observação entre aquelas que me fazem. Deve ser uma espécie de mania que adquiri, essa de ler comentários.

Este ano merece que façamos uma consideração sobre o que nele se passou, com perspectivas para o próximo, diz o editor deste site, homem sábio, de ágeis palavras. O editor está certo. O inacreditável ano merece, que dizer do próximo. Neste ano, graças a deus, nunca me sentei em roda para apreciar o que era dito na escolinha do professor Supremo, aquele que, ao ouvir uma pergunta, olha para o céu, como se deus lhe falasse por um tímpano de brasilit, e responde com a voz cantante. Existo porque penso em qualquer lugar. Não tenho ouvidos para cada Judy Garland de segunda que brilha no céu.

Na mais recente coluna que fiz, descobri um leitor entre os comentaristas, e ele ilustra minha felicidade em realizar esta correspondência com seres imaginários, mas presentes. O sr. Walter Jordão elogia excessivamente o que escrevi sobre nosso ímpeto de freqüentar cursos em lugar de ler os livros. Principalmente, pede-me a indicação de alguns volumes.

Este pedido me toma há dias. Nunca fiz listas, nem de aniversário, nem de casamento, nem de compotas tupperware para o complemento do mês. Não sei jamais dizer de que canção gosto mais entre dez, ou que livros leria numa ilha deserta, onde provavelmente sucumbiria ao primeiro picapau. E agora, Rosane? Não sei priorizar leituras, exceto conforme o momento. Os momentos passam.

Veja Cristovão Tezza. Pode ocupar algum lugar da lista, que, prometo, será pequena. Eu nunca me senti inclinada a apreciar Tezza antes de O Filho Eterno, o romance. Não sei por quê. Um escritor tão bom. Talvez houvesse falta de um material convincente de vida a espreitá-lo. Ele é um professor que sabe ler. Poderia me deixar desconfiada, por ser perfeitamente racional tudo aquilo que promove a partir da pena. Mas em O Filho Eterno (editora Record) ele vai à carne. Serenamente. Vai e volta.

O livro é sobre ele mesmo, embora o filho o intitule. E nem é sobre ele, nem sobre o filho. Mais se assemelha a uma viagem ao interior de nosso ridículo. O ridículo de que possamos, um dia, aceitar que crescemos. Em muito tempo, e talvez eu exagere em ligá-lo tão diretamente a Machado de Assis neste particular, a literatura brasileira aguardava tal sinceridade como a que Tezza tem com sua posição no mundo. Ele não narra olimpicamente, qual dândi de cuecas na passarela do filme Zoolander. Temos muitos autores assim por aí, posando de bolsistas de fundação, sem substância no que escrevem, nem dor, mas sempre vestindo trajes, visitando ou representando regiões. Tezza é uma teimosia em direção contrária.

Leia O Filho Eterno, caro Jordão, mas saiba que, por ser contemporâneo, este não é um romance que lhe ensinará coisas, antes lhe fará desmontar a imagem altiva que de vez em quando desenhará para si. O livro não está aí para lhe ensinar, mas aclarar. Apenas reflete as pessoas. Nele, as linhas riem nervosamente. Lemos os dois esse romance e um dia seremos capazes de avaliar se o que Tezza fez foi só retratar a dor de sua biografia usando a literatura ou se a literatura pareceu tão inevitável para ele que, sozinha, abraçou a própria vida.

Me agrada o humor. Milito pela comédia porque ela me joga na água fria da reflexão. Raízes do Riso, de Elias Thomé Saliba (em reedição pela editora Companhia das Letras), é outro livro brasileiro, mas de história, que tenta explicar por que, ou de quê, rimos tanto, desde a Belle Époque, aquele nosso século XIX em que andávamos de sombrinha para imitar os franceses.

Rimos porque somos só emoções, como na canção. Pensamos mal. Não fomos acostumados a isso, já que a intuição é nossa arma contra os frangos que habitam os estômagos de dom joão, dom pedro, dons do escambau. Rimos porque os frangos vão parar na barriga de um só, e não há justiça, escola, direito, política, lei ou presídio que mude essa situação brasileira. Pensar, neste contexto, é uma perda de tempo, como se fosse melhor socar alguém, ou lhe beijar as bochechas, para rapidamente resolver os conflitos.

Todos os livros de Jack London me serviram. Saiu A Estrada (editora Boitempo), leia sem errar. Jack London tinha a fissura da palavra e do manifesto. E às vezes entrava tão firme na sintonia de sua aventura que ela se assemelhava a um mergulho em camadas profundas. Há poucos livros tão essenciais quantoMartin Eden, O Lobo do Mar e, principalmente, Antes de Adão. Qualquer coisa de Jack London irá lhe servir, porque sua América é quase o nosso deserto interior, onde fuçamos a mina e encontramos, se damos sorte, uma pepita de valor relativo.

Apresentei-lhe ligeriamente Tezza, Saliba e London, e talvez você já os conhecesse. Mas há tantos outros escritores nesse mundo que só posso ser injusta ao não citá-los. Há contistas como Katherine Mansfield (e a Cosacnaify publicou há dois anos uma coletânea de seus melhores instantes) que merecem todas as vistas. Katherine espreme a sutileza e exerce o olhar oblíquo na direção daquilo que aparentemente a ninguém apraz, mas que vai se tornando essencial, como num poema zen. Julio Cortázar às vezes lhe chega perto, e olhe que ele é um entre os grandes contistas desde sempre.

Não se esqueça de Jorge Luis Borges, qualquer que seja ele. Você começará a lê-lo e não saberá se está diante da primeira vez em que tudo ocorreu, a palavra, a história, a piada. Borges cria um tempo e um lugar, e lhes providencia narrativas. Não é que seja sintético, mas é preciso. A Companhia das Letras, neste ano, iniciou uma reedição de seus livros. Não carece escolher especialmente um. E já que estamos em Borges, seu amigo Adolfo Bioy Casares é um enorme presente. A Cosacnaify reeditou A Invenção de Morel, Histórias Fantásticas, O Sonho dos Heróis. Histórias Fantásticas é bem-humorado, mas joga uma lança sobre as ilusões que fazemos das pessoas e de nós mesmos. As pessoas podem ser fantasmas.

E você, caro Jordão, já deve estar percebendo que fujo do propósito de lhe dar indicações precisas. É que não sei fazê-las. Até nem posso acreditar nelas. Aquilo em que acredito é que você mesmo se enfurne nos livros a partir deste início atabalhoado que lhe dou. Volto ao assunto com mais calma no ano que vem, esta é uma espécie promessa (ou será uma perspectiva?). Se fosse você, faria como faço às vezes, perdida em uma dessas livrarias parecidas com rodoviárias, nas quais me sento sem comprar nada, e leio de tudo um pouco. Entre em uma delas e conte-me depois que ônibus finalmente tomou.

Obrigada a todos vocês, e um 2009 pra lá de bom.