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'Mulheres desonestas' no banco dos réus

por Matheus Pichonelli publicado 25/08/2011 13h05, última modificação 06/06/2015 18h16
Na Europa retratada por Claude Lelouch em seu novo filme, 'traidoras' eram linchadas em praça pública. Camareira de Strauss-Kahn não sobreviveria. Por Matheus Pichonelli

Uma camareira de 32 anos foi estuprada em um quarto do hotel onde trabalhava em Nova York. Mal podendo caminhar, chegou com dores até o hospital, onde foi diagnosticada (e comprovada) a agressão por estupro, sexo oral forçado e sequestro. A mesma Justiça que autorizou a prisão e exposição no cárcere do acusado - o todo poderoso chefe do Fundo Monetário Internacional, o francês Dominique Strauss-Kahn - decidiu, cerca de três meses depois, que a acusação era inválida. O motivo: a vítima, Nafissatou Diallo, imigrante da Guiné, não tinha “credibilidade”. A própria Promotoria arquivou a acusação argumentando que a funcionária mentiu durante os interrogatórios e tinha elos com criminosos.

Para quem acredita que a Justiça foi feita, e que o ex-dirigente do FMI foi apenas vítima de uma piriguete qualquer, é melhor passar longe do filme Esses Amores, que estreia no Brasil na sexta-feira 26. O longa, do também francês (ironia) Claude Lelouch, é antes de tudo um alento para quem ainda é capaz de se indignar com o medievalismo enrustido na lógica das sociedades disciplinares em pleno ano 2011.

Na esteira das homenagens recentes ao próprio cinema – que bebe da mesma fonte de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, e ressurge em Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino – Lelouch consegue reconstruir a Paris da ocupação nazista para levantar, sutilmente, bandeiras que andam surradas nos dias atuais. Surradas com a ajuda de Strauss-Kahn e companhia.

No filme, Ilva Lemoine (Audrey Dana) é uma lanterninha de cinema que abandona o namorado, um jovem estudante francês, ao se apaixonar por um oficial nazista. Após o desembarque dos aliados na Normandia, e da expulsão dos alemães, Ilva vê-se sozinha, e vítima da própria resistência francesa que, livre do domínio estrangeiro, passa a perseguir as mulheres que se envolveram com os inimigos. Como gado, as traidoras eram “marcadas” e expostas em praça pública. Tinham os cabelos raspados, eram vaiadas, levavam surras diante de todos ou eram simplesmente linchadas.

Em meio à caça às bruxas, a personagem encontra abrigo e proteção em dois soldados americanos, um fotógrafo milionário branco e um boxeador negro falido. E se apaixona pelos dois. E se envolve com os dois. E é disputada pelos dois.

O fim da guerra não a livra dos amores contrariados – com o perdão de Gabriel García Marquez – que a levam a um tenso julgamento no qual, acusada de homicídio, tem exposta toda sua vida sexual em detalhes diante do júri e do público. Assim como a frieza de Meursault no enterro da própria mãe vai influenciar o veredicto sobre seu crime, em “O Estrangeiro”, de Albert Camus, a volúpia e libertinagem da jovem Ilva é que determinará o seu futuro.

Ao contar a vida da Ilva, Lelouch refaz a trajetória do próprio cinema, apela para referências que vão de Tornatore a Hitchcock – e também à auto-referência – e se sobressai ao mostrar o papel do cineasta que se propõe a retratar uma época e seus dilemas, morais e históricos. Porque, como a História, a arte, quando levada a sério, interfere e se posiciona. A diferença é que não se pretende a emitir resposta. Nem a condenar. Sabendo disso, Lelouch parece dizer que, diferentemente da guerra, os amores contrariados não reconhecem fronteiras, bandeiras ou idiomas. Eles simplesmente extrapolam.

Com “Esses Amores”, Lelouch não constrói apenas a mais intensa e apaixonante personagem atualmente em cartaz. Faz também uma espécie de contraponto ao destino da mulher adúltera, nascida na tradição do romance dos costumes, condenada a sofrer e ser punida, como Madame Bovary, Anna Karenina e Luisa Mendonça – personagens que ainda hoje devem povoar os pesadelos dos burocratas da Justiça americana.

Ao encerrar as filmagens, Lelouch chegou a declarar, em entrevista para o site do Rendez-Vous Whit French Cinema, que os verdadeiros vencedores da Segunda Guerra eram as mulheres, e não os soldados. Argumentou que somente elas souberam como conciliar seus sonhos e dificuldades da vida real, levar um golpe, levantar e perdoar. "O amor pode matá-las, mas também pode curá-las. Eu entendi muito cedo que as mulheres estavam prontas para se sacrificarem por amor, que elas eram o centro, o coração pulsante de todas as coisas", explicou.

Com toda razão. Faltou avisar Strauss-Kahn e o que sobrou dos machões do novo século - americanos,  franceses ou brasileiros - que ainda apelam para o mito da "mulher honesta" para justificar, e eternizar, as arbitrariedades que, desgraçadamente, sobreviveram a todas as guerras.