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Cultura

Carta de Portugal

Essa coisa da geração rasca

por Eduarda Freitas — publicado 16/03/2011 16h32, última modificação 16/03/2011 17h20
Eu cresci a ser chamada de geração rasca. Agora dizem-me que estou à rasca. E enquanto não me desenrasco, na dúvida, puxo a água.

Em Portugal, milhares de pessoas saíram à rua a pedir justiça social, mais empregos, melhores condições de vida. Eu cresci a ser chamada de geração rasca. Agora dizem-me que estou à rasca. E enquanto não me desenrasco, na dúvida, puxo a água

Ela estava sentada à mesa, que nunca gostou de ficar ao balcão.

Ele chegou. Olhou-a, sorriu e tirou do bolso um cigarro de chocolate.

Fumas? Chocolate branco só em dias sim. E nos outros? Chocolate preto com recheio de caramelo.

Depois riram-se baixinho, que ao lado, do outro lado, morava a televisão que se incomodava com a felicidade alheia.

Olha que desgraça. Não tem graça.

E ela olhou-o nos olhos. Piscou-lhe a lente azul. Vamos ao mar?

Porque não o trazes aqui? Por ti. Ele pediu um copo de água e fez das mãos uma concha. Ora ouve. O mar ouvia-se ali. As linhas das mãos, eram nervuras que delineavam placas tectónicas.

Ela tremeu.

Ele soprou-lhe ao ouvido. Não faças ondas.

Dá-me a mão. Já chegamos ao fundo?

Só se pousares os calcanhares. Tenta em bicos de pés. Isso. Assim. Estica-te um bocadinho.

Vês?

Não.

Ouves?

Não.

Sentes?

Não.

Mas acreditas?

Acredito.

Em quê?

Não sei.

Ela fechou os olhos. O corpo doía-lhe das horas no trabalho em pé, depois das horas em frente ao trabalho a querer trabalhar, depois da casa para pagar, depois do carro, depois de depois de não ter o que esperar.

Acreditas?

Está a chover.

Tens guarda-chuva?

Ele abriu as mãos, deixou correr o mar e tirou do bolso um guarda-chuva.

Chocolate à prova de água.

Eduarda Freitas