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Era uma vez…

por Marcio Alemão publicado 21/07/2010 14h45, última modificação 28/07/2010 10h37
A referência que aqui deu origem a uma desastrosa operação. Os restaurantes tentam, sem sucesso, resgatar o arroz com feijão. Não existem cozinheiras como as de nossas avós

A referência que aqui deu origem a uma desastrosa operação. Os restaurantes tentam, sem sucesso, resgatar o arroz com feijão. Não existem  cozinheiras como as de nossas avós

Era uma vez, em um local talvez distante, talvez bonito, uma aldeia onde moravam talvez poucos habitantes. A quantidade de “talvez” será justificada mais adiante. Aguarde. E daquela aldeia ninguém, nunca, jamais saiu. Por quê? Porque eu preciso disso para justificar minha história. Aguarde sem muitas perguntas, por favor.

Há quem duvide, mas é possível viver sem jamais ir a um shopping em Miami e ainda assim ser feliz. Eram felizes os habitantes dessa aldeia. Tinham seu próprio shopping, que consideravam o melhor. Produziam algumas variedades de vinho e, entre eles, um se destacava e conquistava anualmente todos os prêmios e medalhas disponíveis. Não havia uma degustação cega em que ele não fosse reconhecido e aclamado. “Doce na medida exata, mas, como se deseja, perfeitamente avinagrado com um longo retrogosto de rolha e mofo.”

Estas eram, pois, algumas de suas imbatíveis qualidades, de acordo com os mais renomados enólogos da aldeia. Criavam gansos e se orgulhavam de preparar o melhor foie gras cozido do mundo. O macarrão, a pasta, tinha inúmeros fãs. Talvez fosse o prato mais consumido. O ponto ideal- de -cozimento, escrito em todas as embalagens e confirmado em todas as receitas e por todos os chefs, era conhecido como “ponto de liga”. Um macarrão precisava grudar no outro, dar liga. Antes disso, nem pensar em escorrer a pasta.

Até que num belo dia – e mais uma vez peço, por favor, que não queiras entender por que cargas d’água – um viajante ferido e quase morto de frio, fome e cansaço, encontrou a aldeia e pediu socorro. O visitante, a cópia exata, um irmão gêmeo de George Clooney, provocou forte reação junto às mulheres. Algumas chegaram a desmaiar diante de tão estranha, quase bizarra, e horrível criatura.

Apesar da estranha aparência, o conselho de jovens irresponsáveis que tomava as principais decisões na aldeia, achou por bem recebê-lo e cuidar para que se recuperasse. Recuperado e visto como quase uma celebridade, recebeu das autoridades sociais do local o convite para um grande banquete. O resultado, bem previsível, foi esse mesmo que você pensou. Odiou a comida, a bebida, a música, tudo. Tentou explicar que um bom vinho jamais poderia ter um sabor avinagrado e que cozinhar um foie gras não fazia muito sentido.

Sim. Teve de correr. Por pouco, muito pouco, não foi condenado a morrer de rir na cadeira de cócegas – a mais severa punição para aqueles que cometiam crimes hediondos. Por séculos, os aldeões contariam essa história, da figura que veio e que não sabia apreciar as coisas boas e belas da vida.

Ficou claro o uso de inúmeros “talvez”? Tudo nesta vida é questão de referência. Neste exato momento, isso pode ser bom ou ruim. Arriscado, com certeza. Já foi conversa neste Refogado: tem uma geração, talvez duas, que está ficando sem referência do que venha a ser uma boa comida caseira, por exemplo. Pena, mas o que se há de fazer? Quem tem tempo para se dedicar à cozinha do lar? E não só isso: aquelas maravilhosas cozinheiras que aprendiam segredos com as suas e as nossas mães, avós e bisavós estão em extinção. Mais ainda: ir a restaurantes virou prática, hábito, duas a três vezes por semana.

Nos restaurantes, já comentamos, surgiu o movimento de “resgate” dessa cozinha lá de casa. Digo que um tanto desastrosa se mostrou a operação. Esta é minha opinião. A maioria, a turma sem referência, tem apreciado e utilizado até o diminutivo: humm, aquele feijãozinho do fulano...

Vai dizer para esse sujeito que aquele feijãozinho está bem ruinzinho, malfeitinho e bem carinho. Arroz branco. Quem se propõe a fazer uma degustação de arroz branco? Eu topo, farei e em breve escreverei a respeito. Adianto que tem arroz branco gostoso, que recebeu um melhor refogado, que ganhou um temperinho extra, que pode ser um pouquinho de gordura de porco na hora de refogar. Arroz branco, insisto, pode ser muito gostoso ou pode ser um nada ou pode ser ruim.

De novo: onde você costumava comer um arroz delicioso, aquele que clama um ovo frito para chamar de seu? E ovo frito com borda dourada, gema mole, frito em abundante gordura? Meu espaço acabou. Semana que vem têm mais referências. •