Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Equívocos de ciência e de ficção científica

Cultura

Cultura

Equívocos de ciência e de ficção científica

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/09/2009 17h00, última modificação 09/09/2010 17h02
Como apreciador inveterado do gênero, foi com muita boa vontade que este colunista abordou a antologia Futuro Presente, da Record (416 páginas R$ 49,90), organizada por Nélson de Oliveira, escritor premiado, doutor em letras e respeitável crítico literário.

Há muito tempo, nenhuma grande editora mostrava interesse por contos de ficção científica, muito menos de autores nacionais. Como apreciador inveterado do gênero, foi com muita boa vontade que este colunista abordou a antologia Futuro Presente, da Record (416 páginas R$ 49,90), organizada por Nélson de Oliveira, escritor premiado, doutor em letras e respeitável crítico literário. E, infelizmente, constatou que a organização da edição não levou em conta que uma boa escrita não garante uma boa ficção científica. Há agradáveis exceções, mas muitos dos 18 contos são decepcionantes.

Como qualquer literatura, a ficção científica precisa ser, em primeiro lugar, legível. De pouco adianta ter boas ideias sem saber expressá-las adequadamente. Mas, diferentemente do que se espera em outros gêneros e correntes – principalmente as que exercitam a habilidade de desbanalizar o quotidiano –, na literatura de especulação a qualidade da expressão não é um fim em si mesmo. Deve estar a serviço da qualidade da especulação, principalmente se esta se diz ou quer científica, da habilidade de apresentar um cenário inusitado de maneira coerente e explorar suas consequências.

Para um fã de ficção científica, um conto no qual se demonstra completo alheamento do conhecimento científico corrente ou dos métodos da ciência é tão desagradável quanto é para qualquer apreciador de literatura em geral deparar-se com erros grosseiros de ortografia, gramática e narrativa, ou com palavras usadas de maneira pernóstica e errada.

Entenda-se bem: não se trata de esperar de um ficcionista o rigor de um artigo especializado publicado em uma Science ou Nature, ou a capacidade de discorrer sobre pesquisas científicas de ponta. Quer-se apenas uma razoável consciência do que é ou não plausível, do tipo que se espera de todo estudante que tenha concluído o ensino médio e é possível conseguir de leituras ocasionais de livros e revistas de popularização científica.

Claro também que, tratando-se de ficção especulativa, é possível e desejável ir além do cientificamente comprovado e imaginar tecnologias ainda não existentes, postular mundos não descobertos, supor a existência de forças, materiais e realidades ainda não suspeitadas. Mas é como inovar na língua: há uma diferença imensa entre o escritor que conscientemente cria neologismos, recorre a licenças poéticas, reinventa a gramática e experimenta com artifícios inusitados de narrativa e aquele que simplesmente não sabe escrever.

Um autor de ficção científica deve ter uma boa noção das ciências naturais ou sociais com as quais pretende jogar. Se quiser escrever sobre algo hoje tido como cientificamente impossível – como, digamos, a existência de uma civilização em Marte ou uma origem extraterrestre da humanidade –, deve estar consciente disso e preparado para tornar a especulação interessante e ficcionalmente verossímil.

Não é o que se vê, por exemplo, em Aníbal, conto da escritora paulista Andrea del Fuego que abre a coletânea. Em tom de parlenda, usa termos científicos por pura brincadeira, uma criança a divertir-se com sons sem lógica: “Somos híbridos, mistura de carne animal e bits de água... A Terra foi comprimida por forças gravitacionais e pela pressão interna, demorou para que notassem o fenômeno íntimo do planeta. Está nas revoltas internas o que parece vir do homem errante, ele não teve culpa... Com tantos interesses díspares e opostos, o tecido social necrosou. Quem amputou os membros, cidades inteiras, foi a própria Terra. O globo, infestado por bactérias-homens, numa convulsão, alterou a pressão interna e em seguida a própria rota. Seguiu lentamente em direção ao sol, expondo os homens mortalmente à assepsia solar.” É um conto que erra o alvo, de uma autora pouco familiarizada com o gênero e aparentemente encarou a coletânea como uma brincadeira entre amigos.

Mesmo que merecesse estar na coletânea, jamais deveria abri-la. Mas a própria Record tratou o produto com certo desdém. O site anuncia: “O que é ficção científica? Em vez de defini-la, Nelson de Oliveira decidiu exemplificá-la, reunindo em um só livro excêntricos (sic) e variados autores nacionais (...) Futuro presente traz 18 contos desse gênero literário tão rico e que a cada dia conquista mais fãs”.

Não, receio, se depender dessa apresentação.

O segundo conto, Nostalgia, do escritor e roteirista sul-matogrossense Luiz Bras, ajuda um pouco a tirar a má impressão. A história não é totalmente original – ouvem-se facilmente os ecos de Matrix – mas é bem contada, com senso de mistério e aventura.

Já o terceiro, A Brand New World do publicitário paulista Luiz Roberto Guedes, soa mais sóbrio e compreensível que o primeiro, mas afunda-se em erros cientificamente imperdoáveis, das quais o mais gritante é considerar tsunamis, erupções e terremotos como problemas derivados do aquecimento global. Não é uma especulação fantasiosa à qual se dê uma explicação mirabolante, mas mera incapacidade de distinguir entre fenômenos atmosféricos e sísmicos. Não é uma bobagem dita de passagem, mas uma suposição central no conto. E não é um erro inofensivo, pois contribui para prejudicar o entendimento e aumentar a confusão sobre uma questão séria que exige decisões políticas imediatas.

Vale notar que o mesmo equívoco foi cometido no anúncio “fantasma” (sem encomenda ou autorização do cliente, apenas como mostra de “criatividade") em nome do World Wide Fund publicado no YouTube pela DDB Brasil no início de setembro. Afirmava,: “O tsunami matou cem vezes mais pessoas que o 11 de setembro. O planeta é brutalmente poderoso. Respeite. Preserve”, exibindo uma Manhattan cercada por centenas de aviões ameaçadores. A entidade “homenageada” não mediu palavras: “o WWF condena veementemente este anúncio ofensivo e de mau gosto". O site Advertising Age foi ainda mais incisivo: “mostra que os criadores não só são insensíveis, como cientificamente idiotas. Tsunamis nada têm a ver com preservação. São causados por terremotos ou outras forças geológicas não afetadas pela extinção de animais, desflorestamento ou aquecimento global”. Assim como o conto, tal publicidade enganosa tiraria credibilidade ao WWF e à própria causa ambiental.

Esse conto também comete erros climáticos, como prever uma “primavera eterna” no Canadá (o aquecimento global pode torná-lo mais quente, mas jamais suprimiria as estações – seria preciso endireitar o eixo da Terra) e outros literalmente astronômicos. Por exemplo, a eliminação instantânea de uma frota de espaçonaves por colisões com asteroides, mais improvável que navios espalhados afundarem simultaneamente ao chocar-se com icebergs ou recifes também dispersos. Também leva a sério os disparates de Zecharia Sitchin sobre os sumérios e Nibiru – o que não seria grave se não supusesse esse planeta habitável e colonizável, apesar de “maior que Júpiter” e “a um trilhão de milhas além de Plutão” (sic, numa história ambientada no século 27, embora hoje a FC use o sistema métrico decimal até mesmo nos EUA). E nada se tira do conto além de alusões ao debate ambiental (que o autor mostra não compreender) e um vago rancor contra a tecnologia e as elites intelectuais.

O quarto conto, Gobda, da jornalista e tradutora paulista Maria Alzira Brum Lemos, é um jogo de palavras meio experimental, meio zombeteiro, que brinca com semiótica bem entendida e teoria da evolução mal entendida, piscando o olho aos teóricos da comunicação sem se arriscar a dizer nada substancial. Como o primeiro, é o tipo de conto que jamais devia constar de uma antologia para reabrir um mercado esquecido e apresentar a ficção científica ao leitor desacostumado com o gênero.

Ausländer, do empresário paranaense Mustafá Ali Kanso, é um ponto alto. É um conto fantástico sobre um suposto alienígena, que à maneira do seriado Arquivo X, mantém protagonistas e leitor suspensos entre uma interpretação banal e uma extraordinária dos fatos. Os personagens convincentes e a narrativa hábil fazem a leitura valer a pena, Mesmo se o tema é um tanto batido, é explorado de maneira interessante.

Com O vírus humano 2, da goiana Maria José Silveira, co-fundadora da editora Marco Zero, cai-se, porém, em outro vale. Exprime desencanto com a humanidade, observada do ponto de vista de alienígenas idealizados como perfeitos. O clichê um tanto gasto é explorado aqui de maneira ingênua e superficial até em termos de senso comum. A complexidade das contradições humanas é reduzida aos efeitos de dois meros vírus, o “vírus 1”, da ambição e o “vírus 2”, da insatisfação. São contagiosos e ameaçam os extraterrestres, que exigem que os humanos se deixem curar ou sejam destruídos – terminando por um drama passional pouco interessante. Banal. Mais valia explorar como tais contradições podem ser separadas, não só da condição humana, como de qualquer existência inteligente.

Paralisar objetivos é do paulista André Carneiro, o decano da FC brasileira, mas de todos os contos do livro este é o mais distante da ficção científica. Um conto fantástico, suspenso entre a interpretação maravilhosa e a racional. Será interessante para quem ler Carneiro pela primeira vez, mas quem já o conhece se desapontará com a enésima repetição de sua fórmula mais comum: “homem conhece mulher misteriosa e fascinante e muda sua vida...”

Descida no Maëlstrom, do escritor paulista Roberto Causo, é, por outro lado, um bom conto – entre os melhores do autor e também desta coletânea. Insere-se bem em uma das mais antigas tradições da ficção científica, a da guerra interestelar, mas sem se aprisionar em clichês previsíveis – e sem imitar demais o mestre Edgar Allan Poe, cujo conto homônimo lhe serve de referência. O autor dá ao velho tema um toque brasileiro e humanista e trabalha com especulações sobre física, biologia e tecnologia de maneira coerente e interessante.

O Motim, da jornalista catarinense Edla van Steen, é um conto paranoide e reacionário, que poderia ter sido escrito por um redneck do Oklahoma. Queixa-se de um governo do futuro que cobra impostos excessivos, impõe a educação gratuita à distância, distribui alimentos, controla os cultivos domésticos e ordena a eliminação dos animais de estimação e os maiores de 70 anos e é desafiado de maneira inverossímil. Piegas e tolo.

Depois da Grande Catástrofe, do escritor e professor de letras catarinense Deonísio da Silva, é uma brincadeira intelectual de gosto duvidoso. As alusões a la clef sobre questões universitárias (talvez, também, pessoas concretas) e eruditas digressões sobre etimologia que, combinadas com o humor escatológico e inesperado romantismo, sugerem um cruzamento de Rabelais com Casseta & Planeta. Contém boas tiradas e frases inteligentes, mas também bobagens elitistas e preconceituosas. O reitor chega ao escritório de armadura, montado num “cavalo cibernético” (que inexplicavelmente também chama de “muar”), por causa dos jovens desempregados, “formados em verdadeiros aluviões todos os anos, pela garantia de vagas em todas as universidades. Sobravam vagas, todos eram universitários, mas os rebeldes eram apenas aqueles que tinham se formado por reservas de cor, religião, tipo de desodorante, de calçado, de roupa, de costumes culinários etc.”

Espécies Ameaçadas, do escritor amazonense Márcio Souza, é um thriller quase hollywoodiana em cenário tropical. A história é interessante e divertida e daria para perdoar o clichê do refugiado-nazista-na-América-do-Sul-com-planos-mirabolantes-de-restaurar-o-Reich-ou-coisa-parecida, não fosse os contra-sensos políticos e a generalização do preconceito contra as ONGs, como se todas estas acobertassem objetivos inconfessáveis.

O vilão Grass, dono de uma ONG influente na Amazônia, desenvolve, em colaboração com o Irã, um vírus mortal capaz de infectar apenas os judeus. A cavalaria que vem salvar os mocinhos são os “helicópteros do exército bolivariano”, que para isso invade o território brasileiro, visto que o governo do Brasil aparentemente protege ou acoberta o vilão: “Aqui o Grass manda, estaríamos mortos em pouco tempo. Na Venezuela ele ainda não tem influência, o governo Chávez é duro com ONGs estrangeiras”. Paradoxal, no mínimo: pode-se ter opiniões negativas ou positivas sobre o chavismo tanto quanto sobre o Irã dos aiatolás, mas é notório que são entusiásticos aliados.

Vale lembrar que a ideia de um vírus “racialmente específico” foi atribuída – por uma matéria sensacionalista do tabloide londrino Sunday Times, de 15 de novembro de 1998 – a Israel, com a intenção de eliminar os árabes. Os jornalistas alegaram fontes secretas, mas a matéria pareceu ter sido inspirada por Operação Semente de Amalek, um conto de ficção científica de 1996, do israelense Doron Stanitsky, no qual um cientista israelense tenta criar tal arma, mas quando a testa em crianças judias de origem iemenita, raptadas especialmente para que prove que a arma é inofensiva para seu povo, estas morrem do vírus – e o governo de Tel-Aviv se assegura de que o pesquisador passe o resto da vida na prisão para não revelar o embaraçoso segredo. Final bem apropriado: como se sabe, a maior parte da variação genética entre pessoas é individual e não étnica, o que torna tais armas improváveis.

Outro preconceito – ou pelo menos, uma escolha de palavras muito infeliz – se vê também em História de Uma Noite, do escritor gaúcho Charles Kiefer: “O sul da Ameríndia, onde se localizava um país chamado Brasil, era famoso por produzir mulheres com uma excelente genética”. De resto é um conto de adultério virtual com certa graça, que toca de passagem questões interessantes, como o futuro dos filtros e do controle de conteúdo na internet.

Com As Infalíveis H, do paulista Paulo Sandrini, retorna-se à tradição da guerra interestelar em bom estilo e sem clichês desnecessários. Apesar da história ser menos rica, imaginativa e movimentada que a de Causo, é conceitualmente interessante e criativa.

Requiescat in Pace, do publicitário gaúcho Hilton James Kutscka, é um conto pessimista sobre o futuro da humanidade, com um tema semelhante ao de Luiz Roberto Guedes, mas menos absurdos científicos. Salvo pela alusão passageira ao desacreditado “suicídio instintivo dos lemingues” (na verdade, eles simplesmente tentam migrar em massa, às cegas, e eventualmente caem de despenhadeiros). O aquecimento global (sem terremotos) se combina a uma cruzada nuclear contra os países muçulmanos, que produz uma catástrofe climática global. O autor erra a mão ao ligar a guerra a um papa “German I”, que promete abençoar pessoalmente quem “livrasse o mundo dessa raça”, mas depois disso a trama toma um rumo menos datado, mais inteligente e menos superficial. Noto à margem: o autor usa “acres” como medida de superfície – como Guedes, tenta ser mais gringo que os gringos, que apesar de ainda usarem o velho sistema britânico no dia-a-dia, há muito adotam o sistema métrico na ficção científica, bem como nos artigos científicos.

Vladja, do artista e escritor Ivan Hegenberg, é um bonito conto – mas mal passa de raspão pela ficção científica. Alude-se a telepatia e a uma cadeia onde robôs controlam e punem os presos, mas se a primeira fosse trocada por uma ligação telefônica (ou mesmo carta) e os segundos por carcereiros comuns, a história funcionaria igualmente bem, talvez melhor. Tem toda a cara de um bom conto psicológico, sobre o qual se jogou uma pitada futurista apenas para encaixá-lo na coletânea.

A Máquina do Saudosismo, do empresário Ataíde Tartari, é um conto sociologicamente tão interessante que arrisco o spoiler. O leitor deve pular o próximo parágrafo se não quiser antecipar o desfecho: Um executivo financeiro bem-sucedido tem leucemia. Para não deixar a fortuna ao irmão que vive na “vagabundagem artística” e hesitou em doar-lhe sua medula (que acaba se mostrando incompatível), investe tudo em ser congelado para ressuscitar em um futuro no qual sua doença poderá ser curada. Revive num admirável mundo novo qual se fala o “portuglês” (mistura de português e inglês) e o Estado não mais existe: infraestrutura, escolas, hospitais, administração de cidades e até a polícia e a justiça pertencem a investidores privados. A ideia de céu dos executivos da Berrini e da Paulista, pode-se dizer. Mas o financista ressuscitado não se adapta, morre de saudades do passado e se vicia numa máquina que o faz reencontrar-se com colegas e namorada do Mackenzie e sonhar com outros rumos que sua vida poderia ter levado.

Ponto Crítico, do editor paulista Carlos André Mores, é um conto muito interessante do ponto de vista da especulação científica, sem deixar de ser bem narrado, mas receia-se que falhe em se fazer entender pelo leitor que não tenha sido apresentado aos paradoxos da mecânica quântica e suas diferentes interpretações. Um fã inveterado e inteligente de FC, que já leu contos e artigos de divulgação científica sobre esses temas, vai suspeitar do que se passa, como também um outro físico. Mas um leitor leigo provavelmente ficará mais perdido que o protagonista (que, pelo menos, é um físico), pois em nenhum momento as questões em jogo são abertamente explicadas.

Outro ponto a questionar é que todos os personagens (e são muitos) têm nomes anglo-saxões. A história se passa em um laboratório de física do Texas, na década de 2040, mas mesmo hoje, entre técnicos e cientistas que trabalham nos EUA, são comuns os nomes de outras origens – oriental, alemã, russa, judaica – como se pode conferir na lista dos últimos prêmios Nobel.

Além disso, a trama envolve a abordagem de um problema físico de um ponto de vista oriental e um dos cientistas refere-se claramente aos ocidentais como “os outros”: “Os ocidentais são brilhantes, à sua maneira! Eles idealizaram o universo através da linguagem matemática, e aí reside seu crédito. Infelizmente, não tem sensibilidade para sentir a interação entre essa linguagem e a realidade. Estão no caminho certo, apenas não sabem disso.” Seria inteiramente adequado que ao menos esse personagem tivesse um nome oriental, mas chama-se “Frank”. Mais uma vez, tenta-se ser mais americano que os americanos, o que é particularmente paradoxal tratando-se de um autor formado em física, que deve saber que nem só estadunidenses anglo-saxões fazem pesquisa de ponta e deveria ter interesse em divulgar isso.

Fecha a coletânea Onde está o agente? do escritor matogrossense Rinaldo de Fernandes. É um quase-policial bem narrado, mas a ficção científica mal lhe serve de verniz. Como o conto de Hegenberg, seria igualmente bom, e até mais convincente, se ambientado em um subúrbio brasileiro de hoje e não do século 23. De “especulativo” só tem a enxurrada de nomes de produtos estrangeiros cujas marcas são todas parecidas e semelhantes – faca FZ2 russa, água mineral TG8 peruana, isopor VP7 australiano e por aí vai. Muito pouco para qualificar um conto como pertencente a esse gênero.

Em suma, se o objetivo era aproveitar o momento relativamente favorável para o mercado de ficção científica e fantasia no Brasil, a coletânea errou o alvo. Se era ajudar a formar esse mercado e conquistar mais leitores para o gênero, mais ainda. Há contos bem aproveitáveis, mas no conjunto a seleção mostra pouca compreensão do gênero e das expectativas de seus apreciadores. Apesar de serem menos cuidadas do ponto de vista da revisão e da qualidade da linguagem, os lançamentos de editoras menores, como a Devir e a Tarja, têm mostrado mais sensibilidade para com a natureza da ficção especulativa.