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Envolta no lençol

por Redação Carta Capital — publicado 15/02/2012 12h46, última modificação 15/02/2012 12h46
'Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza'. Por Menalton Braff
lençol

'Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza'. Foto: Ícone de exibição de *suri Galeria de *suri/Flickr

Menalton Braff

 

 

A claridade é pouca, mas me incomoda. Mesmo assim não consigo ficar de olhos fechados. A luz deve ser do sol e emana de maneira difusa das quatro paredes do quarto. A porta está muda, pelo menos é o que a chave em seu orifício está querendo significar.

Mal consigo ver as telas de que o Roberto tanto se orgulha e que são a expressão de seu gosto pelo kitsch, colocadas em simetria rigorosa em volta da tapeçaria da parede aqui ao lado. Não é justo, isto não está certo. Tento me fixar em uma delas, mas o que vejo é fruto da memória: claridade insuficiente. Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza. Eu precisava, contudo, para que a consciência me deixasse em paz, dar mais esta oportunidade ao meu ex, como agora já posso me referir a ele. A sensação, entretanto, de estar na cama a esta hora, é a de estar praticando um ato ilícito. Ou pior: imoral. E pensar que muitas outras vezes estivemos aqui, fizemos amor nesta mesma hora, e saímos leves, meio tontos, prontos para rir das pessoas que se moviam nervosas, numa cidade trepidante.

Jogou o corpo flácido para o lado e dormiu, sem se dar conta dos cheiros que deveriam ser do amor e que agora não passam de vestígios do sexo com que tenta me reter. Ronca a meu lado, sua perna direita dobrada por cima do meu quadril. Há muito eu vinha dizendo, Não dá mais, Roberto, isso tem que acabar.

Nossas diferenças me irritavam, principalmente as divergências a respeito das coisas miúdas, de que o Roberto jurava jamais abrir mão. Que a busca da harmonia, sim, o difícil encontro entre seres tão mergulhados em seu passado, que tal esforço caberia a mim. E não me dava uma razão para que me coubesse a parte mais áspera de nossas relações. Apesar do sacrifício, eu ia aceitando porque me consumia no incêndio da paixão, e nada do que me pedisse eu deixaria de fazer.

Com aquela voz distorcida e metálica do telefone, ele me disse estar certo de que eu reveria minhas posições, que tinha argumentos irrefutáveis. Respondi que não, Roberto, isso tem de acabar. Ele insistiu, quase chorou, e mais uma vez acabei cedendo. Tola, só quando abriu a porta, um sorriso vencedor brilhando em seu rosto, foi que desconfiei da natureza de seus argumentos: seu corpo em que saliências e reentrâncias, os torneados, tudo fazia parte de uma compleição perfeita para a sedução. Me esperava de cueca para expor melhor o que de melhor ele tinha.

Não que eu não tenha tentado acreditar na possibilidade do recomeço. E foi por isso que correspondi com febre a seus beijos e que, apalpada por sujas mãos um pouco ásperas, acariciei as principais partes de seu corpo com doçura. Principalmente suas regiões erógenas explorei com a suavidade de minhas mãos. Mas então cansei. Ele não conseguia despertar em meu corpo o antigo desejo que supunha ainda existir. A aspereza de suas mãos apenas me causava cócegas e me irritava.

Recebi sua semente como terreno seco e duro, uma tábua em que o Roberto plantava os restos de nosso amor. Quando jogou para o lado seu corpo, senti que escorria qualquer coisa pelo meio de minhas pernas. Era uma gosma fétida que me conspurcava e que me causava asco. Então ele começou a roncar, os olhos completamente fechados e a boca meio aberta. Me senti recipiente e me envergonhei de ter aceitado seu convite para ouvir suas razões irrefutáveis. Já não sou aquela criança tola que um dia sonhou-se vivendo até o fim de seus dias ao lado deste homem aqui, que agora ronca satisfeito por ter semeado num recipiente qualquer, mesmo que inanimado como eu, sua prole impossível.

Queria entender por que aceitei o convite. Poderia estar confusa e em dúvida sobre o fim de nosso noivado? Mas isso depois dos meses de tentativas e reflexões não seria um puro absurdo? Me parece mais razoável pensar que o quis ferir com minha frieza, com esta demonstração de que seu contato já não me despertava outro sentimento além da irritação. Suas mãos na minha pele eram aranhas a passear: a repulsa.

Preciso aproveitar enquanto ele dorme. Sair daqui. Tomar uma ducha e esfregar o corpo todo com uma bucha até o esfolamento. Ele colou no meu corpo o suor que sua excitação produziu. Estou enlameada. Remover esta perna pesada como se estivesse morta. Desfazer consciente o gesto de posse que ela representa mesmo no sono. Me encolho porque é mais fácil sair de baixo dela do que tirá-la de cima de mim. Não acordou e era isso que eu queria. Uma ducha com bucha para extirpá-lo definitivamente de mim.

Será que ele percebeu finalmente que estava sozinho e que sua prática sexual é tão-somente uma prática masturbatória? Esse talvez seja o principal recado que a rigidez de meus músculos quiseram transmitir. Me usei inteira e me transformei nessa mensagem que as palavras não conseguiriam representar. Pelo menos não seriam tão convincentes.

Agora ele mexe os braços e a cabeça. É provável que tenha, apesar do sono, percebido alguma mudança. Sua perna desdobra, pois já não encontra meus quadris como suporte. Fico imóvel e, com medo, quase não respiro. Espero que se aquiete novamente.

A cidade, que fica do outro lado da parede, são alguns ruídos e uma claridade desmaiada que conseguem atravessar a persiana. Sinto pressa para enfrentar a vida com a proteção da minha liberdade.

Me levanto sobre pés macios e, com súbito pudor, me envolvo no lençol porque estas paredes jamais flagrarão novamente minha nudez. O Roberto que fique dormindo o sono satisfeito de seu ato solitário.

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