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Crônica / Matheus Pichonelli

Envelhecer é ver o mundo desabar contando os fios de cabelo

por Matheus Pichonelli publicado 07/08/2015 18h21, última modificação 07/08/2015 19h40
Se eu despentear de novo, as entradas ficam escondidas. Cada vez menos. A erosão do Planeta começa sobre a minha cabeça
Grande Beleza

Jep Gambardella, personagem de Toni Servillo, observa o navio Costa Concórdia no filme A Grande Beleza

“Uma graça, mas quando elogia fala - vc é top”. Acho graça no post e puxo conversa. Tem alguma coisa na palavra “top” que também me incomoda. Ela explica. “Ah, meu. Diz muito sobre quem fala: ‘não sou muito bom com palavras, então repito o que repetem’”. Repito o que repetem, eu repito. O que mais tenho ouvido é repetição: aquelas sentenças prontas que você busca na prateleira sem precisar pensar muito sobre elas. É a telemarketização do planeta: o atendente não ouve o que o sujeito fala porque enquanto ele fala é preciso encontrar no manual a resposta para cada tópico (tópico, top, toc). Talvez seja o mal do século. De todos os séculos.

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“2015. Uma visão do seu ano até agora. Essas são suas principais fotos. Fulano te citou no maior número de publicações. Você fez 972 novos amigos”.

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-Como assim, te excluiu?

-Sei lá, me excluiu.

-Mas você falou alguma coisa?

-Não sei. Mas ela já não me dava bom dia desde a propaganda do Boticário.

-Que loucura. Você ficou chateado?

-Não sei. É estranho. Não queria que ela achasse que desrespeitei a religião dela. Um dia ela escreveu que Jesus voltaria para se vingar dos pecadores e que ela ficaria sentada assistindo. E rindo. Achei que era pra mim, mas depois achei que era paranoia.

-Por que você elogiou a propaganda?

-É.

-A galera anda meio radical, né?

-Gostava dela. Tínhamos filhos na mesma idade. Quando o filho dela precisou de sangue fomos juntos ao hemocentro. Odeio agulha. Odeio a sensação de estar sendo sugado pra fora. Mas fomos lá. Fizemos campanha. No Facebook, inclusive. Ela agradeceu. Disse que ia orar por nós. Que nunca ia esquecer. Depois da propaganda do Boticário ela escreveu que Jesus ia voltar pra trucidar os pecadores e deletou uma galera. Eu, inclusive. Disse que os militantes desrespeitavam a família dela. Que o mundo estava mergulhado em pecado e podridão. Que era preciso ficar alerta com quem a gente andava e defendia. Que tinha coisa mais importante no mundo pra imprensa se preocupar. Tipo a fome na África. A sede no mundo. Eu disse que homofobia também matava. Aí ela me excluiu. E parou de me dar bom dia.

***

Dá o horário e ela fica me rodeando, o rabo abanando.

-Vamos passear?

É a palavra mágica. A respiração fica ofegante. Entre pegar o saquinho e a coleira, se resolvo fazer qualquer outra coisa – tomar água, por exemplo – ela enlouquece, berra, grita, corre.

No caminho é tudo sempre igual. As mesmas pessoas fazem sempre as mesmas perguntas.

-Não cresce mais?

-Ela engordou?

-Quanto você pagou?

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No passeio pelo bairro antigo, imagino como vivem os moradores atrás das grades e muros baixos. Quase não existem jardins naquele caminho contínuo entre concreto e asfalto. Todos os poros do chão parecem tampados pela argamassa. Ela muda de cor de casa em casa. Na juventude eles concretaram o espaço para deslizar melhor o carro e fazer a chuva escorrer. Não havia tempo para cuidar de azaleias ou hortas. Nem de aparar grama. Na velhice as flores e ervas reaparecem em vasos e jarros sobrepostos no chão duro e encardido. Quando as folhas apodrecem é porque a foice fez sua colheita. As casas nuas, onde o mato penetra as rachaduras das paredes descascadas, são dos meus vizinhos que já morreram. Estavam aqui até ontem, mas não nos conhecemos.

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Coloco o fone de ouvido no caminho. "O mundo explode longe, muito longe, o sol responde, o tempo esconde, o vento espalha". Pulo. "Dois problemas se misturam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer". Pulo. "Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia".

Quando vejo algum vizinho, retiro os fones para retribuir o aceno. Por educação, como no tempo dos chapéus.

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Deve estar rindo à toa. Com aquele vestido de gala só usado para ir à missa. Aqueles colares que quase nunca veem o sol. Aquele pó azul na cara. Aquela tinta vermelha para esconder os cabelo ralos. Nunca falou tanto e com a boca tão cheia como agora. Nunca pareceu tão feliz. Até 2002, pensava nela quando dizia, entre meus jovens amigos, que era preciso ter coragem para mudar. Não podíamos nos transformar naquilo. Era preciso ter esperança para vencer o medo. Que seríamos profissionais frustrados se ao fim da jornada o mundo continuasse como estava, com seus acessos restritos e preconceitos emoldurados. Ela seguia fazendo piadas sobre nordestinos e presidentes sem instrução. O nordestino era presidente, e ela, uma caricatura de um passado aparentemente superado. Ela não é 70% da população que, insatisfeita e com suas (legítimas) razões, agora grita. Ela é parte de uma estatística que não foi feita: a dos que estão radiantes. “Essa vagabunda vai cair”, deve estar dizendo, crente de que agora nada impedirá os filhos medianos, em seus casamentos infelizes, em seus automóveis divididos em prestações, brilharem na vida. Sem ninguém do mundo político para atrapalhar suas ambições, quem sabe, na semana que vem, não se tornem CEOs do Google ou do Facebook?

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-Você viu que foram todos demitidos?

-Vi. Terrível, não?

-Eu não lamento.

-Como assim?

-Mandei pra eles um projeto super bacana uma vez, mas nunca me deram resposta.

“Cara, são dezenas de colegas demitidos”, respondo, antes de encerrar a conversa. Fico em dúvida se o que está ruindo é a minha profissão ou se é algo maior.

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A caixinha do meio, no ângulo superior direito, tem notificações em vermelho. Está cheia de pedidos de ajuda. Retuita isso? Lê meu texto? Pode apontar erros de concordância? O que acha de trabalhar de graça?

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Telefone.

Alguém está doente. As pessoas envelhecem, e não sabemos direito como lidar. As pessoas não deveriam envelhecer. No relato da noite de cão, sinto por não estar em todos os lugares. Por não pegar o ponteiro e fazê-lo correr ao contrário até chegar ao ventre. Envelhecer é não estar em todos os lugares. É estar eternamente em déficit. É chegar e ser lembrado que precisamos voltar mais vezes. É saber que a presença é também inútil.

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Os pedidos se acumulam na mesa, mas não se materializam. Lembro das cenas do cinema e das propagandas: o sujeito, de camisa e gravata desafogada, se prepara para levantar quando chega uma nova demanda.

-Preciso desse relatório pra segunda-feira.

Os papeis grampeados e acumulados na mesa eram a prova material de que havia serviço. Olho para minha mesa e não vejo nada. Os pedidos surgem em nuvens de diálogos e notificações. Mentalmente, tento pegá-los no ar para empilhar, um a um. Estou aprendendo a engarrafar nuvens.

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Trouxe uma Bíblia para o trabalho. Não vou à missa há muito tempo, mas gosto de conferir a leitura do dia. Então, oficialmente, antes de abrir os trabalhos eu rezo. (Justo eu, que não acreditava um pio do que me dizia o padre enquanto ficava sentado repetindo as palavras de sempre terminadas em amém). Não é que não gostasse de padres. Não gostava de ficar tanto tempo quieto sem poder retrucar. “Se alguém quer vir a mim, renuncie a si mesmo, tome a cruz e siga-me”. Leio e releio. O convite, me parece, vale para todos. Mateus, meu xará evangelista, seria excluído por minha amiga do Facebook. Seria considerado tolerante com o pecado e o pecador.

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Perdi o ônibus. De novo. O próximo leva 40 minutos para chegar. Chego a estragar a ponta dos dedos de tanto correr na timeline. Tudo o que acontece está lá, e não sei como vivi tanto tempo no ponto sem ela. Do nada o aparelho escurece e vibra. Era uma chamada. Do outro lado da linha, descubro como é a voz de um amigo com quem só havia conversado pelo Facebook.

-A ideia do seu livro é boa. Você precisa de um agente. Vou te ajudar.

Falamos dos rabiscos, das coisas que se perdem pela rede, das que a gente gostaria de esquecer, das que gostaria gravar. Nas folhas ou nas pedras. Destas ele sabe o caminho.

-Um abraço e boa sorte, querido!

São quase seis da tarde. Sinto-me, enfim, abraçado.

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O ônibus não anda. O trânsito está parado. Abro a página do livro que não terminei.

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Longe de ir embora, os bois se chegaram mais e em grande número. Ganharam as estradas, descendo. Atravessaram o rio, de um lado, o córrego, de outro, convergindo sempre. Em pouco tempo já lambiam as paredes das casas de arrebalde, mansos, gordos, displicentes. Encheram os becos, as ruas, desembocaram no largo. A ocupação foi rápida e sem atropelo; e quando o povo percebeu o que estava acontecendo, não era possível fazer mais nada: os bois estavam deitados no caminho, atrapalhando a passagem, assustando senhoras.

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Esse José J. Veiga sabia dizer as coisas. A ponte está vergada com o peso de tanto boi.

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Faz 70 anos que o Enola Gay lançou a bomba atômica sobre Hiroshima. Pela internet, vejo o relato de uma sobrevivente que engasga a voz ao se lembrar de uma criança sem voz: ela chamava pela mãe, mas as palavras não saíam. A rosa radioativa, estúpida e inválida detonou tudo. Até a capacidade de gritar.

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Resolvo não ver a propaganda do partido na TV. Vou para a janela ouvir “Rosa de Hiroshima”. Escrita por Vinicius de Moraes, musicada por Gerson Conrad e interpretada por Ney Matogrosso, é, provavelmente, o maior encontro da poesia com a música popular brasileira. “Mas você nunca esteve em Hiroshima”, me lembra o Alain Resnais. Não estive. Nunca estivemos. Mas, se pudesse, colocava a música num alto-falante. Pra cidade inteira ouvir.

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Meu filho se agarra no meu pescoço. Fica até difícil beber água. Agora deu para fazer estardalhaço quando ouve a palavra “não”. Se bate. Se joga. Desliza as costas na parede ao som de Maysa. Quer entrar na geladeira. Quer abrir o microondas. Quer subir na máquina de lavar. Quer beber o remédio da cachorra. Quer esfregar a coxa do frango no sofá. Quer, sobretudo, o que está no alto. Embaixo, parece já ter mapeado tudo. E começa a se entediar. Começa a ensaiar outros planos. A gente começa a envelhecer aos dois anos. É quando o apartamento começa a ficar pequeno.

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Domingo é dia dos pais. Dia de parque. De missa. De praia. De reuniões. De encontrar outros pais. De ouvir perguntas.

-O seu dorme cedo?

-O seu ainda mama?

-Ele faz manha pra comer?

-Já tirou a fralda?

-Quando vai para a escola?

-Qual é o método?

-Quanto você pagou?

-Quando vem outro?

-Ela pensa em continuar trabalhando?

-Gosta da Galinha Pintadinha?

-E da Peppa?

-Curte Legião?

-Já leu o Grande Sertão: Veredas?

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Nessa época do ano, a noite chega mais cedo quase no meio da tarde.

-Outra cerveja?

-Só mais uma.

-Ontem você disse a mesma coisa.

-Só mais hoje.

Eu, que não fumo, queria um cigarro.

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Na TV passa o clássico Ba-Vi pelo Campeonato Brasileiro Sub-20. Na véspera não consegui ver a final da Libertadores. Dormi enquanto ouvia a escalação. Ontem estava com sono e hoje estou insone.

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Acordo desorientado, lembrando que não escovei os dentes. Vou até o banheiro e me vejo despenteado. Fico diante do espelho como Jep Gambardella, o personagem de Toni Servillo, quando observa o que sobrou do Costa Concórdia no filme A Grande Beleza. 

Lembro da última vez que cortei o cabelo:

-Não está dando mais pra esconder essas suas entradas, viu?

Não deve haver preocupação mais pueril no mundo. "Tanta coisa acontecendo e você aí de bode na frente do espelho cantando 'Não Vou Me Adaptar". 

Se eu despentear de novo, as entradas ficam escondidas. Cada vez menos. A erosão do mundo começa sobre a minha cabeça. Envelhecer é ver o mundo desabar contando os fios de cabelo.

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