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Entreatos de um provocador

por Ana Luisa — publicado 28/07/2010 11h57, última modificação 28/07/2010 11h57
O dramaturgo Neil LaBute analisa o sucesso de seu humor polêmico no Brasil

O dramaturgo Neil LaBute analisa o sucesso de seu humor polêmico no Brasil

Vista por mais de 60 mil pessoas nas temporadas no Rio de Janeiro e na capital paulista, e com viagem marcada para outras sete cidades brasileiras a partir deste mês, a peça Gorda, de Neil LaBute, faz inesperado eco na plateia brasileira. Em São Paulo,- por exemplo, o espetáculo, que estreou em março, teve temporada estendida por mais dois meses e as últimas apresentações acontecem nesta segunda quinzena de julho.

The Fat Pig (A Porca Gorda), título na versão original, também sucesso de público nos Estados Unidos e na Argentina, é vendida como uma comédia, mas a sequência de piadas sobre uma mulher gorda que se apaixona por um executivo envergonhado em assumir o relacionamento incomoda o público. O riso que contagia a plateia não deveria inibi-la? “A audiência parece conectar-se- com Gorda de uma maneira muito interessante. É simpática à liderança feminina, mas se permite rir sobre a gordura”, diz LaBute em entrevista por e-mail a CartaCapital.

Dramaturgo e cineasta nascido- em De-troit, aos 47 anos LaBute é considerado, pela crítica, “moralista”, “provocador”- e “politicamente incorreto”. Definições consideradas justas pelo autor de frases como “nunca confie em alguém que pode sangrar durante uma semana e não morrer”, da peça de estreia Na Companhia de Homens, de 1992, transformada em filme por ele próprio, cinco anos depois. O dramaturgo acredita que falta coragem no teatro. “O que mais quero é deixar a plateia incomodada.”

CartaCapital: O senhor se considera polêmico, como aponta a crítica?

Neil LaBute: É uma avaliação justa. Com frequência, tomo partido dentro de um filme ou de uma peça. Os extremos que coloco nos meus personagens podem fazer as pessoas reagirem de maneira igualmente extrema, o que deve levar muitas delas a me associar diretamente aos termos polêmicos.
CC: Isto decorre do fato de encontrarmos temas pouco reflexivos nas produções atuais?

NL: Hoje em dia, peças e filmes passam a sensação de algo muito conhecido, por terem sido concebidos pensando em agradar à plateia, em vez de, de maneira corajosa e incisiva, partirem de uma premissa mais interessante. Isso constitui uma marca de nosso tempo e demonstra o quão difícil é para os escritores produzir suas obras no teatro e na tela. Nós fazemos concessões para atender às necessidades e padrões dos que pagam as contas.
CC: Qual sua preocupação maior como dramaturgo?

NL: A mesma: contar histórias interessantes e ser verdadeiro com meus personagens.

CC: O quão difícil é transitar entre o teatro e o cinema?

NL: Pessoalmente, acho relativamente fácil. Entendo as necessidades de ambos e posso atender às necessidades de cada um deles sem muito sacrifício. Isso não significa que você, por vezes, faça concessões demais ou acabe odiando todo o processo.
CC: Como é a sua experiência em Hollywood? Quais as dificuldades?

NL: O tempo é sempre o fator mais negativo. Quanto tempo se leva para criar um projeto, o quão pouco tempo você realmente terá para filmá-lo etc. Odeio o fato de que boa parte dessas decisões que contam na hora de fazer um filme seja a econômica, não a artística, mas você aprende a lidar com isso fazendo com que as escolhas econômicas pareçam decisões artísticas.

CC: Cinco de suas peças já foram encenadas no Brasil. Como o senhor vê a identificação da audiência brasileira com o seu trabalho?

NL: Devo ter encontrado histórias que são ao mesmo tempo escritas em algum lugar da América, mas têm personagens e enredos com os quais qualquer um possa se conectar.

CC: Recentemente, duas de suas peças estiveram em cartaz em São Paulo: A Forma das Coisas e Gorda, que teve temporada estendida na cidade até o fim de junho e seguirá por outras sete cidades brasileiras. Em ambas há uma discussão sobre a estética e a hipocrisia da sociedade em relação a ela. Este é um tema recorrente em seu trabalho?

NL: Estas peças são a segunda e a terceira de uma trilogia, então esteticamente se parecem em estrutura, particularmente no tema. Elas são parte de algo que intitulo “as peças da beleza”. Discutem, de alguma forma, a natureza do belo, como nos relacionamos com ele, o que fazemos por ele, o que estamos aptos a aceitar e não aceitar como “bonito”. A audiência parece conectar-se com Gorda- de uma maneira muito interessante: eles são simpáticos à liderança feminina, mas também se permitem rir das piadas sobre gordos. É uma dinâmica estranha.
CC: Em Gorda, o público ri descontroladamente, mas há uma inversão de expectativa no final. Sua intenção é incomodar o espectador?

NL: Provavelmente, é o que mais quero. Algo que eu gosto de fazer com a minha audiência, sempre que posso, é tentar levá-la a uma jornada inesperada, mas que possa ser percebida como verdadeira. No fim das contas, a peça é um estudo sobre a fraqueza. Por isso, acredito na reação do protagonista Tom na praia. Ele busca forças suficientes para fazer a coisa certa, que é o que ele realmente deseja fazer. Para a plateia, isso o torna humano e não um cara malvado.

CC: Gorda é vendida como uma comédia. É a melhor classificação?

NL: Eu acho. Há espaço para muitas risadas na peça, a despeito de algumas decepções. Não é porque o fim tem um tom sóbrio que o restante deixa de ser engraçado.

CC: Quais as suas influências como dramaturgo? E no cinema?

NL: Muitas pessoas, e muitos a serem nomeados. Muita gente antiga e nova. Amo August Strindberg e Ingmar Bergman, devo ter algum sangue nórdico. Assisto a tudo que posso, minha influência é muito variada. Novos ótimos escritores estão surgindo e isso é motivador. Logo eu acabarei fora de cena e finalmente vou conseguir ver todos os filmes e peças que eu quero.

CC: Quais seus próximos projetos?

NL: Leio roteiros de cinema e escrevo roteiros de teatro – tenho projetos em Nova York e Londres e uma peça musical nos cinemas do Reino Unido que parece entrar e sair de cartaz quase por vontade própria, o que me deixa com tempo apenas para subir correndo em um trem em movimento.