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Cultura

Exposição

Entre os nervos e o sangue

por Rosane Pavam publicado 21/03/2011 16h57, última modificação 24/03/2011 17h29
inacoteca de São Paulo exibe pela primeira vez no Brasil retrospectiva com obras da portuguesa Paula Rego, uma artista disposta a condenar totalitarismos. Por Rosane Pavam
Entre os nervos e o sangue

Pinacoteca de São Paulo exibe pela primeira vez no Brasil retrospectiva com obras da portuguesa Paula Rego, uma artista disposta a condenar totalitarismos. Por Rosane Pavam

Como o personagem Brás Cubas na obra do escritor Machado de Assis, a artista plástica portuguesa Paula Rego é governada pelos nervos e pelo sangue, muito mais do que pelas orações. Sua arte, que evoluiu do surrealismo, nos anos 50 do século XX, à inspiração renascentista, a partir da década de 80, não esconde a própria indignação contra os totalitarismos políticos, sexuais ou eclesiásticos do Ocidente. Artista de diminuta compleição física, apaixonada, contudo, pelas representações em grande dimensão, ela apresenta ao Brasil sua primeira retrospectiva. O evento não contará com sua presença, já que a pintora, aos 76 anos, sofre atualmente com fortes dores de coluna e episódios de depressão. Mas a mostra levará à Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre os dias 19 de março e 5 de junho, 137 dos trabalhos representativos da artista, entre pastéis, óleos, litografias, desenhos e esboços, todos exibidos em 2010 também no Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, no México.

Conhecida dos brasileiros apenas por ter integrado a seção portuguesa das bienais internacionais em São Paulo de 1969 e 1975, e da seção inglesa do mesmo evento, em 1985, Paula diz, em uma rara entrevista concedida em 2007 ao curador da retrospectiva, Marco Livingstone, não se imaginar inscrita na história da arte. Contudo, ela que intitula o museu Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, Portugal, e já expôs em diversas ocasiões por toda a Europa, é, sem concessão ou favor, uma das maiores pintoras de seu país. A curiosidade é que os britânicos também a vejam como um dos seus grandes nomes contemporâneos, algo que evoca o acontecido com o poeta Fernando Pessoa, talento de língua portuguesa afeiçoado à língua inglesa, morto naquele 1935 em que nasceu Paula em Lisboa, filha única de um casal abastado.

Foi o pai quem julgou necessário liberar a menina do grande mal que proporcionava a ditadura de Salazar a seus cidadãos subjugados, especialmente as mulheres, impedidas de exercer a cidadania com plenitude. Em fuga, a família se baseou em Londres, onde, aos 17 anos, Paula se viu inscrita na Slade School of Art. A escola lhe providenciou formação até 1956, ano em que conheceu o futuro marido, o pintor inglês Victor Willing, com o qual teve três filhos. Em 1962, ela obteve da Fundação Calouste Gulbenkian uma bolsa que viabilizou a continuidade de seu trabalho.

Naquele momento, depois dos passos iniciais pela pintura vanguardista, galgados em pequenos óleos e pastéis a evocar Miró e Jean Dubuffet, entre outros artistas, Paula propunha à instituição lisboeta uma série de ilustrações para narrativas clássicas conhecidas. Começava, então, a expor seus fantasmas e evocações de infância, mas em um formato de colagem que ela recusaria depois. Até hoje Paula veta a exibição desse trabalho para a Gulbenkian, realizado até 1979. No período, a artista assistiu à morte do pai e viu progredir a esclerose múltipla do marido. E ela ainda não libertara seu desenho de muitos fragmentos.

O pesquisador e curador Livingstone imagina um dia poder mostrar ao público o trabalho que originou as gravuras de Paula para narrativas clássicas britânicas, como Peter Pan, de J. M. Barrie, e Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Mas, por enquanto, conforme diz em entrevista a CartaCapital, ele se contenta que o brasileiro possa assistir à produção recente da pintora, que compõe a grande maioria desta exposição. “Paula foi muito mais prolífica na plenitude da vida, ao contrário do que ocorre à maioria dos artistas, e nesse momento se revelou capaz da reinvenção, ao realizar o pastel em telas com 3 metros de altura.” Livingstone, especialista em sua obra, não fala português, tampouco estranha o fato. Para ele, Paula, a artista madura, é tão inglesa como Lucian Freud, Francis Bacon ou Michael Andrews, representantes, para efeito curatorial, da chamada “escola de Londres” de pintura.

Trata-se de uma tendência realista, figurativa e carnal surgida na segunda metade do século XX, a que a artista portuguesa se filiou. Como Freud, ela passou a levar temas difíceis à representação, mas focalizada em questões femininas. E, ao contrário daquele pintor, evitou trabalhar a partir da pose do personagem retratado, desenhando na tela sobre o chão as imagens que lhe vinham à mente. Em dias recentes, ela, essencialmente desenhista, lamenta não mais ter memória para fantasias. Paula se vale do trabalho de modelos, como seu alter ego Lila Nunes, antiga enfermeira do marido, de baixa estatura e assemelhada fisicamente a ela. Quando pinta a partir de modelos, usa cavaletes. Segundo acredita, o desenho de observação é “incapacitante”.

O aborto, o sofrimento físico e a exploração sexual infantil estão presentes em grande parte de sua produção a partir dos anos 80. Em 1986, no acrílico sobre papel Girl Lifting up Her Skirts to a Dog (Garota levantando a saia para um cachorro), ela inaugurou uma série que anotaria mais uma virada em sua carreira. Nas obras de Mulheres-Cão, a partir de 1994, passaria a representar as figuras retratadas com traços realistas e de pronunciado volume.

O quadro de 1986, no qual uma menina raivosa levanta sua saia para um cachorro indiferente, “mostra a frustração que arde muitas vezes no seio das relações baseadas em dependências, sejam de que espécie forem”, segundo analisa o ensaísta John McEwen. “O cão tem uma expressão vazia, enquanto a menina está zangada. Ela parece espicaçá-lo para que reaja e, ao mesmo tempo, a menosprezá-lo por não ser capaz disso.” Para o crítico, o paradoxo é um dos aspectos centrais na obra de Paula e uma de suas estratégias favoritas. Com a imagem, ela apresenta o “mais doloroso” desses paradoxos: “Fazemos mais mal àqueles que mais amamos”.

Ela se serve de narrativas, mas, como observa o curador do Museu de Arte de Monterrey, Jorge Contreras, talvez a capacidade artística de Paula Rego seja principalmente a de sugerir histórias ao observador do quadro. “Suas obras não contam histórias. Mais propriamente, as histórias acontecem em nossa experiência, quando estamos diante de cada uma delas”, ele sustenta. É o modo que o crítico encontrou de afirmar a universalidade da artista, constantemente reclamada pelos portugueses por sua fase inicial vanguardista e, pelos ingleses, por suas semelhanças com os autores figurativos britânicos do século XX.

Há, contudo, uma outra face a realçar em seu trabalho, que é a do medo. Paula Rego jamais evita representá-lo, como se desejasse expulsar de si mesma um temor real. Essa sensação pode ser particularmente sentida na obra mais recente (2008-2009) a integrar a exposição paulistana, intitulada Oratório. Nela, a artista evoca seus temas prediletos, em torno de vulnerabilidade, solidão, abandono, amor e perda na infância. A obra é um pequeno altar em memória aos meninos de rua, concebido para exposição coletiva no Foundling Museum. A instituição pertence a um hospital homônimo londrino, o primeiro a abrigar abandonados na Grã-Bretanha, em 1793. Em um formato consagrado por esperançosos fiéis católicos, portanto, a artista representa o maior dos pesadelos das crianças, o de que sua infância seja esquecida.