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Entre dança, pintura e música

por Alexandre Freitas — publicado 23/11/2010 16h29, última modificação 23/11/2010 16h29
Durante o espetáculo de dança MathildeMonniere Dominique Figarella, emergiu aquele incômodo que perturba os alicerces das percepções das categorias artísticas

Percorro rapidamente as páginas virtuais com os textos que venho escrevendo no site desta estimada revista. Se deixo de lado a subjetividade crítica e me apego a ilusão da verdade factual, o mínimo que posso constatar é que tenho aproveitado bem a liberdade que os editores do site me concedem. Talvez abuse. Acho que hoje será o caso.

Ouso falar de dança, entre os domínios artísticos o que tenho menos intimidade. Mas não posso me conter. Esta semana assisti a três espetáculos de dança contemporânea em Paris: balé de Hamburgo coreografado por John Neumeier, Soapéra de MathildeMonnier e Dominique Figarella e Parabeloe Imã do Grupo Corpo. O primeiro, de tão enigmático, me deixou extremamente cansado. Como tenho os ouvidos mais treinados que os olhos não consegui entender como é que eles puderam juntar John Adams, Wagner e Arvo Part. Aí ficou difícil entender o resto. Sobre o Grupo Corpo só posso dizer que ele converteu toda sua indolência vigorosa e precisa nos aplausos mais quentes que já presenciei no ThéâtredesChampsElysées (a última vez que estive lá vaias ecoaram).

Mas foram MathildeMonniere Dominique Figarella que mais me incomodaram. Profundamente. Emergiu aquele agradável incômodo que perturba os alicerces das percepções das categorias artísticas em suas formas simbólicas. Música, dança e artes visuais saem de suas castas ilusoriamente distintas e estáveis para se transformarem em outra coisa. Algo que não tem nome.

Imagine. Você entra em um sala e se depara com um palco inteiramente coberto de uma matéria que você não sabe bem o que é. Uma espécie de tecido de espuma com protuberâncias que se movem tão lentamente quanto o ponteiro de um relógio. No interior desse tecido estão os dançarinos, entre eles o brasileiro Thiago Granato. Aos poucos, vão se revelando e interagindo. A música, um ruído quase estático pontuado por estalos irregulares, interfere na ilusão dos movimentos em câmera lenta e na tensão daquela imagem quase irreal. Toda essa energia vai se convertendo em impulsos rítmicos, em gestos bruscos, em explosões de formas visuais. Um quadrado delimita um território musical no palco. Balada pop dentro dele, silêncio brusco fora. E os gestos súbitos dos quatro dançarinos contrastam com o choque desse silêncio primeiramente inesperado, depois, previsível e, finalmente, diluído pela música que vai se libertando do quadrado imóvel.

Enfim. Mesmo que a dança, por sua própria natureza, traga em si algo de híbrido, entre música, gesto e plasticidade, espetáculos como este, que trabalham nessas fronteiras, são perfeitos indicadores de que todos esses limites perceptivos que distinguem formas simbólicas da arte só existem porque as pensamos de maneira separada. É quando nos damos conta de que tocar nessas barreiras imaginárias pode ser incômodo. Agradavelmente incômodo.