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Calçada da Memória

Entre a arte e a infâmia

por José Geraldo Couto — publicado 02/10/2011 18h03, última modificação 05/10/2011 20h45
Elia Kazan foi levado a Hollywood em 1945 e começou a dirigir dramas com preocupação social, como A Luz É para Todos e Sindicato de Ladrões. Colaborador da Comissão de Atividades Anti-Americanas, a sombra da delação de colegas o acompanhou pelo resto da vida

A fama de dedo-duro empanou a imagem, mas não enfraqueceu a obra de um dos maiores diretores de cinema e teatro da América, “capaz de realizar milagres com os atores que usava”, na definição de Stanley Kubrick.

Nascido em Constantinopla (hoje, Istambul), de pais gregos radicados na Turquia, Elia Kazan (1909-2003) emigrou com a família para Nova York aos 4 anos. Seu berço foram as ruas de imigrantes, sua escola foi o teatro.

Estudou arte dramática em Yale e entrou no engajado Group Theater de Nova York, onde atuou como cenógrafo, aderecista, ator e, finalmente, diretor. Em 1947 ajudou a fundar o legendário Actors Studio, de onde sairiam Marlon Brando, James Dean e Rod Steiger, entre outros atores que ele dirigiria nas décadas seguintes no teatro e no cinema.

Já renomado como um dos diretores mais fortes e originais da Broadway, foi levado a Hollywood em 1945 pela Fox, estúdio para o qual passou a dirigir dramas com preocupação social, como A Luz É para Todos (1947), que lhe deu seu primeiro Oscar. O segundo viria em 1954, por Sindicato de Ladrões, visto por muitos como uma justificativa indireta da delação. Dois anos antes, Kazan havia deposto como “testemunha amigável” à Comissão de Atividades Anti-Americanas, abjurando o comunismo e denunciando colegas.

A sombra da infâmia o acompanhou pelo resto da vida. Quando recebeu um Oscar especial pelo conjunto da obra, aos 90 anos, a plateia do auditório dividiu-se entre os que o aplaudiram de pé e os que ficaram ostensivamente sentados de braços cruzados, em protesto. Nunca a arte e a política se opuseram de forma tão dilacerante.

A Luz É para Todos (1947)
Convocado por uma revista a fazer uma reportagem sobre antissemitismo, um jornalista (Gregory Peck) resolve se passar por judeu para viver a situação na pele. Descobre, entre outras coisas, que a própria empresa onde trabalha não contrata judeus, e sua vida se transforma radicalmente. Kazan ganhou o Oscar de direção.

Pânico nas Ruas (1950)
Em New Orleans, um imigrante é morto num jogo de cartas por um bando de gângsteres (liderados por Jack Palance), que ficam contaminados com um vírus mortal. Para evitar uma epidemia, a polícia, convencida por um médico (Richard Widmark), tem 48 horas para encontrar os assassinos. Eletrizante e atual filme noir de Kazan.

Vidas Amargas (1955)
Em 1917, numa cidadezinha americana, o jovem Cal Task (James Dean), que compete com o irmão pelo afeto do pai, descobre que a mãe (que ele julgava morta) é cafetina num bordel. Poderoso drama baseado em romance de Steinbeck. Primeiro filme em cores de Kazan, que usou o Cinemascope de modo claustrofóbico.

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