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Enigma dos trópicos

por Orlando Margarido — publicado 21/01/2011 14h47, última modificação 21/01/2011 14h49
Apichatpong Weerasethakul filma com liberdade e fantasia seu "Tio Boonme"

No início de Tio Boonmee, Que Pode Recordar suas Vidas Passadas, um búfalo preso a uma árvore se solta e caminha para o interior da floresta, de onde será resgatado por seu jovem dono, sob o olhar atento de um estranho ser. Será necessário chegar ao final do filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul, em cartaz a partir de sexta-feira 21, para que o mistério da cena tenha sua razão, embora por certo uma busca de sentido não seja a preocupação desse peculiar cineasta. Longe de querer a compreensão do espectador, sua proposta está mais no domínio da fantasia e cabe à plateia corroborar ou não um universo povoado de fantasmas, almas que transmigraram para animais, mortos que vêm visitar
os vivos. É por manejar tão bem esse arriscado modelo de cinema e tratá-lo com naturalidade, sem a postura de credos, que Joe, apelido do diretor, saiu reconhecido por Tio Boonmee com a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado.

A premiação, como esperado, não foi recebida com unanimidade, e entre alguns protestos de um filme confuso, aborrecido e alucinatório, Apichatpong protegeu-se sob a aclamação de um cinema instigante e pessoal. “Entendo a postura de quem reage assim”, disse o diretor à época em entrevista. “Mas, como na vida, em um filme não é necessário compreender tudo para apreciar uma certa beleza; o cinema tem de propor outros padrões.” E qual seria o dele? São de suas lembranças familiares e das tradições de seu país que Joe retira o enigmático material de trabalho. A exemplo de Mal dos Trópicos (2004) e Síndromes e um Século (2006), longas-metragens já exibidos por aqui, a floresta é cenário determinante da vida de seus personagens.  Boonmee não escapa a ela.Sofrendo de insuficiência renal, recebe em sua propriedade a visita da cunhada. O anfitrião relembra então, à mesa do jantar, suas reencarnações em diferentes animais, momento em que surge o fantasma da mulher de Boonmee e em seguida seu filho, há muito desaparecido, numa configuração não humana próxima à de um macaco. Há um toque de humor quando alguém lhe pergunta por que deixou os pelos crescerem tanto assim.

É nessa espontaneidade e na convicção de que aguçará a imaginação do espectador que se firma seu cinema. A ponto de não se importar com quebras bruscas de narrativa, quando, por exemplo, encena a lenda de uma princesa de rosto deformado e atraída por um peixe no lago, numa sequência que merece a antologia. Em Mal dos Trópicos, a história de dois homens gays na selva é interrompida para se mostrar um caçador no rastro de um tigre, quem sabe numa alusão ao prazer da caça. Síndromes e um Século varia de flashbacks ao recurso de espelhar a vida urbana e do interior, inspirado pelo cotidiano hospitalar que o cineasta, filho de médicos, vivenciou quando criança. “Procuro recuperar sentimentos ligados a crenças que existiam no meu país e que estão se perdendo”, justifica. “A exemplo de que todos, homens e animais, são seres viventes sem distinção.”