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Cultura

Entrevista

"A intolerância precisa ser vista, não escondida"

por Eduardo Graça — publicado 02/02/2014 14h43, última modificação 03/02/2014 09h24
Em entrevista exclusiva a Eduardo Graça, a atriz Emily Watson fala de “A Menina Que Roubava Livros”, em cartaz nos cinemas brasileiros, e do fantasma do nazismo
Divulgação

De Nova York

Emily Watson atende o telefone e nem dá tempo de o repórter se apresentar: “Teve de acordar cedo, hein? Desculpe, mas são as imposições do fuso horário”. Não importa. Às sete da matina na Costa Leste dos EUA – e meio-dia em Londres – a conversa flui com naturalidade para quem até dividiu com a entrevistada uma xícara de chá, ainda que virtual, oferecida, de forma brincalhona, pela londoniana que acaba de completar 47 anos e é uma das mais reconhecidas atrizes britânicas do panteão hollywoodiano. A partir deste fim de semana o público brasileiro pode vê-la em “A Menina Que Roubava Livros”, adaptação do romance homonônimo, escrito em 2005 pelo australiano Markus Zusak, traduzido para três dezenas de idiomas, com a marca de mais de oito milhões de cópias vendidas.

Em “A Menina Que Roubava Livros”, ela vive a alemã Rosa, a mulher seca e dura que concorda em receber em sua casa – dividida com Hans (Geoffrey Rush), o marido desempregado por conta de sua oposição ao nazismo – dois órfãos afim de ganhar uma bolada do governo. A trama se passa durante a Segunda Guerra Mundial e o filme, esperado com ansiedade pelos fãs do livro e visto como possível concorrente ao Oscar pelo estúdio distribuidor, acabou dividindo a crítica americana, com celebrações emocionadas na “Variety” e na “Rolling Stone” e trauletadas sem piedade do “New York Times” e do “Los Angeles Times” ao que consideraram um pieguismo disfarçado de tensão dramática.

O único consenso foram as atuações primorosas de Watson, Rush e da menina canadense Sophie Nélisse, no papel-título, conhecida dos cinéfilos por “O Que Traz Boas Novas”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012. Sua Liesel é a quase-narradora do filme – a tarefa, como no livro, cabe primeiramente à Morte, uma alegoria que funciona melhor fora da tela grande. Em “A Menina Que Roubava Livros”, Liesel sofre do início ao fim das duas horas e onze minutos de filme, sem grandes tréguas. Quando chega à casa de Rosa e Hans, ela já perdera o irmão, vitimado pela fome e a doença típicas dos anos de guerra. No miserável lar do casal alemão, a tragédia alheia vira decepção prática: Rosa lamenta, em alto e bom som, que agora receberá apenas metade do dinheiro prometido.

A personagem criada por Watson, no entanto, se transforma gradualmente, em uma interpretação o mais suave possível em um filme pouco sutil, reeditando com harmonia a pareceria com Rush iniciada em “A Vida e Morte de Peter Sellers”, há uma década, que garantiu dois Globos de Ouro para a biografia televisiva. Na conversa com a CartaCapital, Watson falou da personagem, da intolerância teimosamente presente no dia-a-dia da Europa, da convivência intensa com colegas de ofício na Alemanha, cenário da maior parte das filmagens de “A Menina Que Roubava Livros”, e, ao fim, retornou aos anos 90 para tratar de “Ondas do Destino”, de Lars von Trier, seu primeiro filme, pelo qual foi indicada ao Oscar – dois anos depois ela seria lembrada novamente pela Academia de Artes de Hollywood, por “Hilary e Jackie”.

CartaCapital: O quão diferente é a Rosa do cinema da matriarca do livro?

Watson: São bem diferentes. No livro há um fato importante, inexistente no filme, já evidenciado na sua pergunta: Rosa e Hans têm filhos, já criados. E a relação deles com estes filhos é bem complexa. Os produtores acharam que ficaria muito confuso transportar este aspecto da vida deste casal para o filme. A decisão acabou sendo boa para mim, pois pude entendê-la como uma mulher sem filhos. Ali está, na minha Rosa, uma das principais origens de sua frustração, de sua rabugice, de sua raiva. Ela encontra facilmente, à sua volta, motivos outros para alimentar esta infelicidade: o marido que não pode trabalhar, ter de lavar as roupas dos nazistas para sustentar a casa, a falta de dinheiro e de comida, até mesmo a decisão de adotar duas crianças para receber uma ajuda financeira do governo. Ora, a primeira reação dela, naturalmente, quando Liesel chega sozinha, é de desapontamento. Afinal, o combinado, e o montante a ser pago, era referente a duas crianças, mas o irmão da menina morreu no caminho . Mas ela não parece ver o sofrimento de Liesel. Não há nada a fazer a não ser lamentar a diminuição do dinheiro em 50%. Ela é bem direta: está adotando apenas porque precisa daquele dinheiro para sobreviver.

Fica difícil estabelecer algum tipo de simpatia pela Rosa...

Fica sim, reconheço isso. Ela parece, à princípio, a encarnação da madrasta má dos contos de fada. É uma mulher desagradável, uma pessoa horrenda. Mas depois, ao se ultrapassar aquela superfície para lá de feia dela, você pode descobrir o quanto de amor ela guarda dentro de si.

A transformação desta mulher, um dos pontos centrais do filme, foi o que a motivou a encarnar Rosa?

Foi um dos fatores principais. Um outro foi o fato de ser uma oportunidade interessantíssima para eu mergulhar neste período histórico da Europa de uma forma singular. Precisei mergulhar na chegada ao poder dos nazistas a partir do ponto de vista do cidadão comum em uma cidade pequena nos cafundós da Alemanha. E de entender em como eles se mantiveram no topo por mais de uma década por conta da adesão, do apoio, da decisão, enfim, destas pessoas. O fato central de que Hans não consegue emprego por se negar a se juntar ao partido tem um enorme significado nesta história. E quando um jovem judeu bate em sua porta, eles entendem o risco de abrigá-lo, mas não pensam duas vezes. É uma decisão incrivelmente corajosa. Não sei se eu faria o mesmo, arriscando a vida de minha filha, de meu marido, para salvar a pele de um estranho. Ali você vê que ela é, de fato, uma boa mulher. E, talvez, de sua cadeira no cinema, reflita, pela primeira vez, sobre o fato de que, apesar de toda a rabugice, em momento algum Rosa critica o marido por ele não ter aproveitado as benesses oferecidas pelo nazismo.

Uma das cenas mais fortes do filme se dá quando Rosa vai até a escola de Lisel para contar que Max, o jovem judeu abrigado pela família, que não pode sair de casa e acaba seriamente adoentado, está a salvo...

Ah, sim (suspira). Foi uma grande cena, uma daquelas que você fica feliz em tomar parte. Imaginava como seria, mas a melhor maneira de se filmar uma cena assim é se deixar levar pela emoção. Há um momento de descoberta lá, quando ela diz : “Liesel, volte para a sala de aula e não deixe ninguém perceber que estamos felizes, finja que sou uma bruxa”. Ora, o que ela quer dizer, de fato, é: “Minha filha, antes de você voltar para a sala de aula, quero dizer que te amo”, mas ela não consegue, ela simplesmente não consegue.

E, provavelmente, este é um exercício interessante para a senhora, sua Rosa tem em boa parte estas duas camadas: o que ela pensa e o que ela de fato diz...

Sim, e tive de interpretar, de certa forma, os dois aspectos da personagem. Porque Rosa, finalmente, naquele momento, parece transpirar felicidade, mas o medo, interno e externo, este último bem real, a impedem de se revelar por inteira. Ela, está, ali, atuando, também. Rosa atua.

A senhora mencionou a importância histórica da trama como fator decisivo para dizer sim ao convite de viver a Rosa. O quão importante para os atores foi a possibilidade de se filmar na Alemanha?

Foi crucial. Coincidentemente, filmamos no aniversário de 100 anos do Estúdio Babelsberg, celebrado por clássicos do cinema alemão, mas também por ter sido usado como veículo de propaganda tanto durante o nazismo quanto, durante a Guerra Fria, na Alemanha Oriental comunista. Você está ali respirando história, é um local absolutamente fantástico. E Berlim, ali ao lado, onde também filmamos, apesar de ser uma cidade contemporânea, viva, funciona como uma espécie de testamento vivo de todas as atrocidades passadas naquele momento histórico, naquele lugar. Você testemunha diariamente, o tempo todo, o horror do passado. A lembrança é real, você não tem como fugir dela, e isso foi importantíssimo para as filmagens.

Apesar de o filme ser uma obra de ficção, a senhora conversou com famílias que viveram a experiência da guerra enquanto esteve na Alemanha?

Todas as famílias alemãs, com pouquíssimas exceções, precisaram fazer uma escolha moral e ética naquele período. Uma escolha, muitas vezes, relacionada à sua sobrevivência. Como você pode imaginar, foi delicado conversar sobre o passado com a equipe técnica, todos eram alemães, mas ao mesmo tempo, enquanto filmávamos, era impossível não tratar do tema. Aos poucos, dividimos experiências. E as pessoas, incluindo os muitos figurantes, aos poucos foram revelando suas histórias pessoais. Uma atriz, especificamente, me contou que cresceu achando que sua família havia siso perseguida pelos nazistas, e sua formação adulta estava intimamente ligada a esta narração de integridade familiar. Mas, por caminhos tortuosos, e de forma surpreendente, acabou descobrindo recentemente que aquela era uma lenda e que parte de seus antepassados, ao contrário, haviam se integrado ao nazismo com alguma facilidade. Ela contou que o processo de desmascaramento histórico foi muito doloroso e, depois da verdade vir à tona, primos deixaram de falar com tios, neto com avós, para sempre.

Imagino que histórias como a de sua colega alemã a tenham levado a encarar de forma ainda mais urgente o fantasma do extremismo, que segue presente em todo planeta, mas especificamente vivo na Europa contemporânea...

Sim. Vivo, de forma palpável. Hoje de manhã me atrasei para chegar até o hotel em que estou conversando com a imprensa internacional porque fiquei presa no trânsito de Londres. O motivo? A polícia estava transportando os dois sujeitos acusados de atacar e ferir mortalmente um soldado na rua, aqui na cidade, no último verão. Vi o carro passar, vi os dois entrando na Corte de Justiça, enquanto o trânsito se arrastava, e não consegui deixar de pensar sobre a intolerância, o nível de extremismo, seja ele religioso ou xenófobo, presente em nosso dia-a-dia.

Esta convivência com a intolerância a assusta?

Mais do que assustar, ela precisa ser vista, não pode ser jamais esquecida, jogada para debaixo do tapete. Precisamos nos conscientizar de que ela está entre nós. Londres é uma cidade que se orgulha de ser tolerante e multi-cultural. Então, é sim, assustador, quando algo como este ataque acontece em sua comunidade. Ao mesmo tempo, você precisa pensar que estes extremistas têm uma narrativa. Eles dizem, por exemplo, que reagem ao bombardeio, por drones, das cidades, das aldeias, das localidades de seus compatriotas, de suas famílias, vítimas mortais de atos, devemos lembrar de forma ainda mais clara, praticados pelo que convencionamos chamar de ‘mundo civilizado’, ou, pelo menos,  por um governo civil, em nome de uma ideia de civilização ocidental. Isto é, no mínimo, muito preocupante.

Voltando ao filme, nele todos falam em inglês, com um sotaque alemão. Isto ajuda ou atrapalha os atores?

Foi uma decisão fundamental, que precisava ser tomada no início, e que levou uma série de fatores em consideração. Uma delas a de que se ele fosse falado em alemão, o que seria o ideal, pelo menosdo ponto de vista histórico, o público certamente seria menor do que o desejado por todos. Para mim, a inflexão e a força do alemão, presentes no sotaque, me ajudaram muito a criar minha Rosa.

O espectador acredita desde o início que Rosa e Hans são casados há décadas, eles são cúmplices. Trabalhar novamente com Geoffrey Rush deve ter sido curioso, não?

Ah, mais do que isso, foi bom demais. A relação dos dois se revela nos detalhes. E, Deus meu, claro, Geoff foi outro grande motivo para fazer o filme, dividir a cena com ele, um ator que está sempre presente, sempre acordado. Ele é um ser poético e divertido, um palhaço, no sentido mais completo da palavra, que me fez rir muito, inclusive mostrando, delicadamente, as obsessões de Rosa, o fato de que ela nunca para. Ao mesmo tempo, eles são, acima de tudo, um time. Ele precisa apenas dizer para ela, “este é Max”, e ela sabe que precisa dar abrigo para aquele jovem judeu. Ser honrado é algo importante para aquele casal, é algo importante para esta história, para o livro, para o filme.

Sophie Nélisse, por sua vez, que faz sua filha adotiva, e tinha 12 anos durante as filmagens, parece, ao vivo, ser mais velha do que a senhora e Geoffrey Rush juntos. Ela a surpreendeu de alguma maneira?

Como você certamente sabe, ela foi uma ginasta profissional antes de se tornar uma atriz. Seu senso de disciplina e dedicação são impressionantes. Não foi, de modo algum, uma experiência remotamente parecida com a de trabalhar com uma atriz-mirim, com uma criança de 12 anos. Ela entrava invariavelmente pronta para a cena. Parecia, de fato, que você estava lidando com uma atriz muito experiente, ela vai dar muito o que falar ainda.

Pelo menos para mim, parece que foi ontem, mas no ano que vem as filmagens de “Ondas do Destino”, de Lars von Trier, completarão duas décadas. O filme foi uma introdução ao seu trabalho para plateias mundo afora. Quando a senhora pensa no filme, em sua primeira indicação para o Oscar, tem mais nostalgia ou orgulho?

Sinto é um carinho enorme em relação àquele trabalho e àquele momento de minha vida. Foi uma senhora experiência trabalhar com Lars e, pela primeira vez na vida, a fazer cinema. Porque eu nunca havia feito um longa-metragem na vida, era uma atriz de teatro e tinha arriscado um filme para a televisão. Aprendi muito naqueles meses, foi um evento maravilhoso na minha vida, tanto profissional quanto pessoal, sinto-me abençoada por ter participado de “Ondas do Destino”. Para ser bem sincera, tenho quase certeza de que aprendi ali, com o Lars, a ser uma atriz. Faz muito tempo, lea se vão vinte anos, não vou negar que as memórias vão se apagando, mas todos os sentimentos que me vêm daquele trabalho são positivos. Absolutamente todos.

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