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Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Tróstki por Leminski

por Marsílea Gombata publicado 06/10/2013 08h41, última modificação 07/10/2013 10h24
Livro que reúne quatro biografias traz dimensões não experimentadas de trajetórias distintas e revela um apaixonado poeta concretista
Reprodução
leminski

Nova edição foi lançada pela Companhia das Letras

Por que ler Vida, de Paulo Leminski, se sabemos – muitas vezes à exaustão – a biografia de Jesus, Cruz e Sousa, Bashô e Tróstki? A razão é simples - e profunda: conhecer a vida desses personagens através do olhar do poeta brasileiro concretista é, no mínimo, inspirador.

O escritor paranaense apresenta a vida do poeta brasileiro, do escritor japonês, do profeta e do revolucionário russo de origem judaica com o fôlego de um fã curioso, que ecoa em cada porção deles existentes dentro de Leminski.

Os livros, que estavam fora de catálogo e vinham sendo procurados pelo público leitor, já haviam sido reunidos em um único volume pela Editora Saraiva em 1990 e ganham edição repaginada pela Companhia das Letras. Trata-se de quatro biografias que Leminski escreveu para a Coleção Encanto Radical ao longo dos anos 1980. Juntas, na reedição, elas somam 392 páginas.

Sob o olhar poético e crítico de Leminski, as quatro trajetórias diferentes ganham dimensões não experimentadas até mesmo para fãs e estudiosos dos autores. Nas três primeiras partes dedicadas, nesta ordem, a Cruz e Sousa, Bashô e Jesus, o estilo irônico e o domínio da técnica pelo poeta curitibano compõem um formato interessante com trechos e poemas de outros autores. É o caso, por exemplo, da descrição da trajetória de Cruz e Souza: “Fosse um negro norte-americano, Cruz e Sousa tinha inventado o blues. Brasileiro, só lhe restou o verso, o soneto e a literatura para construir a expressão da sua pena.”

São biografias que não deixam também de ser ainda uma homenagem do fã convicto do estilo e das verdades que a literatura – ou vida - de tais personagens apresenta. Como quando escreve sobre Bashô: “Com vinte e três anos, entre estes, aquele que vai ser o máximo poeta que o Japão produziu (não é pouca coisa: os filhos do Sol nascente sempre foram gente de poetas, do imperados ao homem do povo. E continuam a sê-lo com todo o futurismo Blade runner tecnológico) (...) Sobre sua vida os sinais nos chegam concisos e escassos, a moldes desses desenhos japoneses feitos com meia dúzia de riscos, o resto, traços, espaço aberto às interpretações e às leituras individuais.”

Podem ser vistas também como uma tentativa de elucidar o passado envolto em versões e dogmas – mais religiosos e menos políticos do que, talvez, gostasse o autor. Antes mesmo de começar a biografia de Jesus, por exemplo, Leminski apresenta uma “carta de intenções”, uma espécie de justificativa. “Este livro é dirigido por vários propósitos. Entre os principais, primeiro, apresentar uma semelhança o mais humana possível desse Jesus, em torno de quem tantas lendas se acumularam, floresta de mitos que impede de ver a árvore.”

Paixão revolucionária. É a quarta e última parte, no entanto, um dos maiores trunfos do livro. Ao narrar a vida de Leon Tróstki, Leminski lança mão de tamanha leveza, profundidade de um amor capaz de nos revelar um pouco dele próprio.

A biografia de Tróstki corre de maneira mais contínua e com menos flertes com a poesia, em meio a um contexto analítico poderoso sobre a formação política e social da Rússia (fruto do “cruzamento com os mongóis e o Império Bizantino”), assim como o universo em que cresceu Trótksi e seu encontro com Lênin, apesar das diferenças: “...a inteligência de Lênin supera em muito a de Trótski (...) mas a máquina mental e intelectual de Trótski era mais complexa que a de Lênin.”

Não deixa de ser ainda uma aula de história - ou a história de uma revolução marxista -, que só pode ser encabeçada pelos filhos da própria burguesia contra a qual depois lutará. “Como em Lênin, outro bem-nascido (como Mao e Fidel), em Trótski, a revolução vai ser uma paixão intelectual, uma certeza lógica, uma convicção feita de ferro em brasa”, escreve. Para logo em seguida concluir analiticamente: “Uma das cruéis ironias da vida: só os bem alimentados podem lutar pelo famintos. Os muito miseráveis nem sequer se revoltam: deixam-se morrer à míngua. É preciso muita proteína para fazer uma revolução.”